28 maio 2007

A eleição do Terceiro Venerável Mestre

O terceiro Venerável Mestre da Loja Mestre Affonso Domingues foi José C. C.. Todas as circunstâncias apontavam para que o seu mandato fosse difícil, e foi-o. Mas José C. C. cumpriu o que se espera de um Venerável Mestre: recebeu o malhete, símbolo do seu poder de direcção da Loja, do seu antecessor e transmitiu-o, não pior do que o recebera, ao seu sucessor.

Naquele início de Verão de 1992, a Loja Mestre Affonso Domingues ia proceder à eleição do sucessor de José M. M.. A contra-gosto! Era praticamente unânime a opinião de que ele deveria assegurar um novo mandato. Mas José M. M. não concordava. Tinha mesmo tido o cuidado de ter providenciado pela aprovação, pela Loja, do seu Regulamento Interno, nele tendo incluído uma disposição que previa que o Venerável Mestre só podia exercer o máximo de dois mandatos consecutivos. Apesar da argumentação dos demais membros de que ele só tinha sido eleito uma vez (o seu primeiro mandato ocorrera por designação mediante decreto do Grão-Mestre), a sua posição era definitiva: já tinha cumprido dois mandatos, chegara a hora de transmitir o malhete de Venerável Mestre a outrem.

José C. C. fora fundador da Loja. Na carta-patente desta figurava como 2.º Vigilante fundador. O Venerável Mestre fundador não chegara a assumir efectivamente o ofício, por razões de saúde, tendo sido, então, substituído por José M. M., por decreto do Grão-Mestre. O 1.º Vigilante fundador, Hélder V. entretanto fora encarregado de dirigir uma outra Loja, em acumulação com o seu ofício de Grande Oficial e teve, por isso, de abandonar a Loja. José C. C. passou, assim, a exercer o ofício de 1.º Vigilante e era o sucessor natural de José M. M..

O problema era que as suas características pessoais não o tinham feito particularmente popular entre os demais obreiros. A Loja ansiava pela continuação da liderança de José M. M. e, confrontada com essa impossibilidade, queria alguém do mesmo estilo: interveniente, popular, bom condutor de homens, extrovertido e emotivo. José C. C. era precisamente o oposto: tímido, era algo desajeitado no relacionamento com todos aqueles que não pertenciam ao seu núcleo restrito de amizades; retraído, não demonstrava um décimo da emotividade de José M. M.; monárquico e politicamente conservador, e ainda por cima sofrendo os efeitos de ser sempre acompanhado por seu pai, um truculento ultra-conservador que não raras vezes não se coibia de infringir a regra que excluía a política da Maçonaria, não conseguira granjear o apoio dos demais membros da Loja para ocupar a Cadeira de Salomão, isto é, o lugar de Venerável Mestre; embora tendo sido um fiel lugar-tenente de José M. M., deixara-se ofuscar e, mesmo, anular pelo brilho da liderança deste e ninguém o via como Venerável Mestre.

Até que José M. M. voltou a sacar da sua cartola mais um passe da sua liderança: num convívio informal - em que, convenientemente, José C. C. não estava presente... (isto só foi percebido depois, e apenas pelos mais atentos) -, José M. M. convence todos de que a Loja devia, desde o princípio, prevenir o perigo de lutas intestinas pelo efémero "poder" do ofício de Venerável Mestre - todos concordaram; que a melhor forma de o fazer era instituir um critério transparente e lógico, logo, aceite por todos ao longo dos tempos, de escolha do Venerável Mestre - todos deram o seu acordo; esse critério era o da eleição do sucessor natural do Venerável Mestre em exercício, o seu primeiro Vigilante - breve instante de silêncio enquanto cada um percebia como fora habilmente conduzido a esta conclusão, seguido de um coro de discordância, não pelo princípio, mas em função do concreto 1.º Vigilante que seria então eleito Venerável Mestre; José M. M. deixou que os protestos fossem desabafados, fluir os argumentos, pairar os desacordos quanto à figura do sucessor e, pacientemente, fez ressaltar as vantagens de evitar lutas pelo poder na Loja, demonstrou que o Venerável Mestre só tinha o poder que a Loja lhe desse, que só conseguia fazer o que a Loja deixasse - muitos, mas já não todos, mantinham a discordância; argumentou que o facto de a Loja seguir o critério da sucessão natural, mesmo que muitos não apreciassem que em concreto determinada pessoa fosse o eleito, só fortaleceria o espírito de corpo da Loja, que, afinal de contas, um ano passava depressa e que, no final, a Loja sairia reforçada com a experiência, que a qualidade dos seus obreiros sempre compensaria eventuais deficiências do Venerável Mestre... - e, a pouco e pouco, foi vencendo as resistências e, no final, obteve a unânime, embora resignada, aprovação de todos para a eleição de José C. C.. E, de passagem, criou um paradigma (correcto) que ainda hoje perdura: qualquer Mestre da Loja pode ser Venerável Mestre; com mandatos anuais, qualquer Mestre minimamente interessado terá a oportunidade de vir a ser Venerável Mestre; em termos de normalidade, não faz sentido, assim, a pugna eleitoral (embora se mantenha sempre o sistema de eleição), por regra elege-se o 1.º Vigilante para exercer o ofício de Venerável Mestre no ano seguinte.

Obtido o acordo da Loja para a eleição de José C. C., havia ainda um outro problema: a José C. C. não passara despercebida a contestação à sua eleição - como poderia passar despercebida?- e isso magoava-o, talvez até ao ponto de ele vir a não estar disposto a assumir o ofício. José M. M. tem então um segundo golpe de asa: combina pessoalmente com cada um dos Mestres presentes na sessão de Loja de apresentação de candidaturas que, quando circulasse o Saco das Propostas, cada um introduzisse nele a proposta de candidatura de José C. C.. Obtém de todos o acordo para tal. E, após ter circulado o Saco das Propostas, José C. C. viu que o seu nome fora proposto por todos os demais Mestres presentes. Melhor declaração de apoio não podia ter - sobretudo ocorrida após contestação aberta... E claro que aceitou a candidatura. Até hoje, assim se continua a proceder na Loja Mestre Affonso Domingues: na sessão de apresentação de candidaturas, todos os Mestres colocam no Saco das Propostas a proposta de candidatura ao ofício de Venerável Mestre do 1.º Vigilante em funções. É a demonstração simbólica que toda a Loja dá do seu apoio incondicional ao Irmão que irá exercer o ofício de a dirigir por um ano.

E, na sessão seguinte, José C. C. foi tranquilamente eleito Venerável Mestre da Loja Mestre Affonso Domingues, para o período de Setembro de 1992 a Setembro de 1993!

Os símbolos também se criam! E as boas tradições estabelecem-se naturalmente quando se procura actuar, de forma transparente e coerente, pelos bons motivos, em benefício de todos!

Rui Bandeira

3 comentários:

O Profano disse...

bOAS...

No que respeita á eleição do V.M., o P.V. da Loja que for eleito, já sabe de antemão que será ele o V.M. no mandato seguinte, isto é , se tudo correr bem, correcto?!

Pode um Irmão recusar o Mestrado apesar de ter sido proposto e votado a...?

ABR... PROF...

Rui Bandeira disse...

@ o profano:

1. Se não houver nenhuma anormalidade e seguindo-se a tradição criada, efectivamente o 1.º V. de um ano será o V.M. do ano seguinte. Como digo no texto, na Loja Mestre Affonso Domingues até agora só houve uma excepção a esse princípio,e ocorreu sem qualquer problema. Oportunamente a abordarei.

2. Claro que um Maçon pode recusar ser V.M., apesar de proposto e votado. A Maçonaria é um espaço onde se encontram Homens livres em Lojas livres!
Mas convenhamos que será sempre uma situação excepcional: normalmente, se um maçon não quiser ser eleito, ao ser proposto declinará a proposta e nem sequer será votado. Mas pode suceder: tal como sucedeu um problema de saúde ao primeiro Venerável, pode suceder um problema dessa ou de outra natureza que leve um maçon eleito a não ser instalado como V.M..

O Profano disse...

Obrigado pela explicação.
Abr..Prof...