13 novembro 2007

O silêncio do Aprendiz

Em Loja, o Aprendiz Maçon não tem direito ao uso da palavra.

Esta frase, sendo substancialmente verdadeira, não espelha, porém, correctamente a realidade. A mesma ideia, correctamente formulada, expressa-se pela seguinte frase: em Loja, o Aprendiz Maçon beneficia do direito ao silêncio e cumpre o dever do silêncio.

O Aprendiz Maçon não usa da palavra em Loja, não porque se lhe não reconheça capacidade para tal (pelo contrário: o Aprendiz foi cooptado para integrar a Loja, pelo que se lhe reconhece valor), não porque se lhe atribua um estatuto inferior aos restantes (mais uma vez, pelo contrário: o Aprendiz tem um estatuto de plena igualdade com os restantes obreiros e é um importante pólo de atenção da Loja, que tem como uma das suas mais importantes tarefas a sua formação), mas porque o cumprimento de um período de silêncio é considerado imprescindível para o seu processo de aperfeiçoamento.

O silêncio do Aprendiz em Loja é importante por, pelo menos, três razões: a defesa do próprio Aprendiz, a focalização da sua atenção para a simbologia de que se vê rodeado e a demarcação de prioridades no seu processo de aperfeiçoamento.

Em primeiro lugar, estando o Aprendiz Maçon confinado ao silêncio, nada tem de dizer, sobre nada tem que opinar, nenhuma posição lhe é exigida. O silêncio a que é confinado funciona, desde logo, como um meio de defesa, de protecção, do mesmo.

O Aprendiz Maçon está a efectuar um processo de integração num grupo novo, com regras específicas, com uma ligação inter-pessoal forte. Desejaria, porventura, ter uma atitude proactiva de se dar a conhecer, de intervir, de mostrar o seu valor. Mas não precisa: que tem valor, já todo o grupo o sabe - por isso o aceitou no seu seio -, o conhecimento advirá, nos dois sentidos, com o tempo e a naturalidade dos contactos entre todos. O Aprendiz Maçon está num processo de mudança de paradigma quanto à forma de estar social. Os valores apreciados nos meios profanos não serão os mesmos que são preferidos entre os maçons. Na Maçonaria não se busca eficiência, produtividade, riqueza, estatuto, etc.. Na Maçonaria valoriza-se a força de carácter, o reconhecimento das próprias imperfeições, o desejo de melhorar, a ponderação, o respeito pelo outro, a tolerância, a paciência, etc.. Seria injusto para o Aprendiz maçon que, vindo das realidades do mundo profano, está ainda em processo de adaptação aos objectivos do método maçónico de aperfeiçoamento, deixá-lo expressar opiniões que, a breve trecho, mudará, exprimir conceitos que, desejavelmente, abandonará, em suma, actuar como está habituado a actuar no mundo profano, para logo verificar que errou e que o seu erro foi publicamente exposto.

Todo o processo de aprendizagem é um processo de tentativa-erro-correcção. O aperfeiçoamento pessoal é um processo também com estas características. Errar é normal. Será, porventura, até necessário. Os maçons experientes sabem-no. Mas quem está a soletrar as primeiras letras do novo alfabeto de valores só com o tempo o verificará. Não necessita de errar publicamente e, porventura, sentir-se diminuído com isso. Tempos virão em que será muito útil, para si e para os demais, que expresse a sua opinião, que colabore, que intervenha. Enquanto está na fase de aprendizagem, o que se espera dele é que aprenda, que se situe, que se concentre em si próprio, não na imagem que gostaria de transmitir para os demais.

Por outro lado, o facto de o Aprendiz maçon estar confinado ao silêncio, permite-lhe focalizar a sua atenção para tudo o que o rodeia, para tudo o que se passa, para tudo o que é dito - sem necessidade de responder! A experiência mostra-nos que, muitas vezes, não damos a atenção que deveríamos dar a situações, a acções, a declarações, porque estamos em simultâneo a pensar na resposta que vamos dar à situação, à acção, à declaração. O Aprendiz Maçon, com o seu direito ao silêncio, está eximido de responder, de opinar. Não tem assim de desviar a sua atenção para preparar a sua resposta. Pode e deve concentrar toda a sua atenção no que se passa, meditar sobre o seu significado, errar ou acertar, emendar o erro ou confirmar o acerto, em suma, ver (ver mesmo, não apenas olhar...) os símbolos, procurar compreendê-los e atribuir-lhes significados, utilizar esse conhecimento para sua própria melhoria.

O silêncio do Aprendiz permite-lhe, finalmente, pensar, depois reflectir e seguidamente meditar. E pensar, reflectir e meditar é o principal trabalho que tem a fazer. Porque só assim verá para além do óbvio, só assim despertará para o desconhecido, só assim se virará do exterior para o interior de si mesmo. E só assim poderá descobrir que tudo o que verdadeiramente importa já o tem, dentro de si. Basta que o encontre, que o utilize, que o aceite, que o desfrute!

A prioridade do maçon é ele próprio. O trabalho do maçon é melhorar, aperfeiçoar-se. Tudo o que de bom o maçon faça tem como objectivo esse aperfeiçoamento. A solidariedade é um meio de aperfeiçoamento. A fraternidade é um meio de aperfeiçoamento. O comportamento tolerante é um meio de aperfeiçoamento.

O importante está dentro de si. Tudo o que é exterior, incluindo a riqueza, posição social, reconhecimento dos demais, só tem valor na medida em que se repercuta positivamente no interior de cada um.

O Aprendiz Maçon vai, em silêncio, conhecer e aprender o significado de muitos símbolos. Vai, em silêncio, assistir a rituais e procedimentos. Vai, em silêncio, assistir a debates e verificar como se podem debater opiniões contrárias de modo civilizado, profícuo e satisfatório. Mas vai, sempre com o auxílio do silêncio, que há-de vir a compreender que não foi uma imposição, antes um benefício, sobretudo surpreender, apreender e compreender que o primeiro grande objectivo do maçon, o primeiro grande passo para se aperfeiçoar, a primeira ferramenta para descortinar o significado da Vida e da sua existência, é CONHECER-SE A SI MESMO.

E esse conhecimento de si mesmo não se obtém falando para os outros, conversando, discursando, palrando, opinando.

Esse conhecimento de si mesmo adquire-se lentamente, às vezes dolorosamente, sempre buscando persistentemente, apenas em diálogo consigo mesmo.

O silêncio do Aprendiz Maçon - quanto mais cedo este o perceba, melhor! - só existe perante os demais. Na realidade, o silêncio do Aprendiz mais não é do que um ensurdecedor diálogo consigo próprio, uma discussão que o que tem de bom trava com o que tem de mau, uma conversa com a criança que nos esquecemos de ser, com o adulto ponderado que, às vezes, deixamos para trás de nós próprios, com o experiente e sabedor ser que, de qualquer forma, o decurso do tempo mostrará que existe em nós, nós é que, muitas vezes, não damos por ele e não nos damos ao trabalho de inquirir se ele existe.

É no silêncio que o Aprendiz Maçon vai amaciando as asperezas da pedra bruta que é ele próprio. O silêncio do Aprendiz Maçon é o primeira prenda que a Loja lhe dá. Deve o Aprendiz Maçon utilizá-la como uma ferramenta. Se a utilizará bem ou mal, ele próprio - e só ele - o avaliará!

Rui Bandeira

12 comentários:

NuNo_R disse...

boas...

Bastante esclarecedor este post.
Já há tempos tinha tocado neste assunto que foi prontamente esclarecido pelos meus Amigos.
Mas mesmo assim, este post, dá uma visão mais "positiva" sobre as vantagens de se estar "calado" e se aprender através do silêncio.

abr...prof...

fatin disse...

Acredito que, o aprendiz será muito mais produtivo e bem formado, quando se tem o direito a perguntas e observações durante o seu período de instrução. O silêncio ajuda sim na reflexão, acompanhado de um bom ensinamento. Ir. Apr Gilmar Santos

dionisius disse...

Muito interessante a defesa do silêncio dos aprendizes, gostaria de embasamento dessa postura, no ritual, na constituição...?
A manifestação de uma opnião ou um comentário de um aprendiz pode estimula-lo, o mestre ao ouvi-lo deve exercitar sua tolerância devida aos graus.
Devemos manter um olho no ritual e outro na sobrevivência da ordem.

valdo disse...

Sábias e profundas palavras, e ao mesmo curioso para muitos, mas poso atestar na pratica, como o silencio nos leva a um interiorização, e quando isto acontece dentro de uma influencia simbolica e alegorica, a penetração de nossos pensamentos nos mais profundos recantos de nossa alma, o ganho em nossa evolução pessoal é incalculavel. o presente artigo deve ser lido por todos aprendizes, e melhor dizendo por todos os maçons (somos todos eternos aprendizes).

Paulo Hudson disse...

Não sou maçon ainda, mas faço minhas pesquisas, e achei esta esplicação bem interessante.

alan barros disse...

este trabalho sobre o silencio do aprendiz e muito interessante e esclarecedor, pois o aprendiz, esta na faze de conhecer e atribuir significado, o ritual e muito instrutivo quando bem feito, deve os mestres, esclarecer sobre pontos mais complexos, nisto o aprendiz passa a desenvolver suas virtudes, ir.'.apr.'. alan barros, t.'.f.'.a

França disse...

Esta excelente exposição de motivos sobre o silêncio do Aprendiz Maçom, mostra além de tudo como e quanto de carinho uma Loja deve dispensar ao novo irmão. O Aprendiz, que no Rito Francês ou Moderno tem participação efetiva nas sessões, orientados pelo segundo vigilante apresenta trabalhos e os defende. Com isto dá oportunidade para que os demais Mestres possam avaliar o desenvolvimento do Aprendiz e mais do que isto, avaliar a qualidade das instruções que foram recebidas por ele. Instruções claras e precisas sobre nossas Leis, costumes,simbologia e ritualística devem ser algo constante de aprimoramento. A mescla destas duas linhas" Silêncio" e "Participação" é uma orientação saudável e permite o acompanhamento do que está sendo administrado e do que está sendo absorvido.
JOSÉ LUIZ FRANÇA
SÃO PAULO - BRASIL

França disse...

Esta excelente exposição de motivos sobre o silêncio do Aprendiz Maçom, mostra além de tudo como e quanto de carinho uma Loja deve dispensar ao novo irmão. O Aprendiz, que no Rito Francês ou Moderno tem participação efetiva nas sessões, orientados pelo segundo vigilante apresenta trabalhos e os defende. Com isto dá oportunidade para que os demais Mestres possam avaliar o desenvolvimento do Aprendiz e mais do que isto, avaliar a qualidade das instruções que foram recebidas por ele. Instruções claras e precisas sobre nossas Leis, costumes,simbologia e ritualística devem ser algo constante de aprimoramento. A mescla destas duas linhas" Silêncio" e "Participação" é uma orientação saudável e permite o acompanhamento do que está sendo administrado e do que está sendo absorvido.
JOSÉ LUIZ FRANÇA
SÃO PAULO - BRASIL

Anônimo disse...

o silencio e' uma escola, pois observando e analisando o que ocorre, aprendemos mais a nao errar,a criança quando esta na faze de aprender observa tudo e aprende com segurança

PIERRE ANDRE Índio Branco disse...

Paradoxal: "como um livre pensador" o aprendiz deve exercer seu livre pensar entre IIr.:, no entanto, por estarem muitos IIr.: ainda presos em posturas profanas e espúrias em palavras, pensamentos deve calar-se...Usam, tais supostos IIr.: suas posições de "mestres" para massacrar psicologicamente o aprendiz. Vi isso acontecer de perto, mais de uma vez, em uma Loja...IIr.: mestres e Veneráveis preconceituosos com religiões alheias e pensamentos retrógrados exaltadores da volta ao regime militar e opressor...a loja se resumia em fofocagens destes contra a postura de aprendizes e mesmo mestres de lá. E o pior exemplo vi partir do Venerável...tão lamentável que pedi meu quitte placet...coloquei meu banquinho debaixo do braço e fui procurar em outro lugar uma egrégora mais próxima ao SALMO 133 "Oh! quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união"...e assim, sigo, na escada de Jacó. T.F.A

Rui Bandeira disse...

@ PIERRE ANDRE Índio Branco:

Admito que tenha tido uma experiência desagradável com uma Loja (pelo texto do seu comentário, deduzo que brasileira) e provavelmente se seu a tivesse tido similar, também me desagradaria. Tal como há homens bons, maus e assim-assim,homens polidos e homens rudes, também há Lojas com caraterísticas diversas. Tal como o homem individual pode e deve polir-se e aperfeiçoar-se, também o Coletivo que é uma Loja pode e deve fazê-lo.

Onde já não concordo consigo é na interpretação que faz do direito ao silêncio (note bem: direito ao silêncio) do Aprendiz como forma de o massacrar psicologicamente pelos demais (segundo a sua descrição, verdadeiros profanos de avental...). O direito ao silêncio do Aprendiz tem profundos significado, alcance e objetivo iniciáticos... como qualquer vero maçom que tenha usado bem, nos seus tempos de Aprendiz, o direito ao silêncio e se tenha transformado em homem melhor sabe!

Um abraço!

Julio Cezar dos Santos disse...

(...) Não obstante é compreensível que todo Aprendiz deve antes de tudo deixar aflorar a virtude de bom observador...O aprendiz deverá sim colocar-se meio a um deserto das comunicações com o mundo "profano", pois, desta forma ele poderá perceber a verdadeira face de si mesmo, no trilhar os degraus da Sabedoria Universal(...)