14 novembro 2010

A clivagem racial e cultural e o insucesso escolar


Li esta semana um artigo sobre o insucesso escolar dos negros nos EUA. E depois outro idêntico sobre o Reino Unido. Há anos que estes estudos vêm sendo feitos e refeitos e, não obstante a adoção de variadas estratégias com o propósito de mitigar as diferenças, chega-se sempre a resultados semelhantes: certos grupos raciais de estudantes obtêm piores notas e abandonam mais a escola do que outros. Estes estudos comparam frequentemente os resultados obtidos por crianças, adolescentes  e jovens oriundos de famílias do mesmo estrato sócio-económico - leia-se: habitando a mesma zona e frequentando as mesmas escolas, com pais com salários idênticos e idênticas habilitações.

É claro que, sempre que um estudo desta índole é feito, logo clamam vozes acusando-o de racista e discriminatório. Recordo que os factos não podem sê-lo, mas apenas, e eventualmente, a interpretação dos mesmos. Contudo, será difícil fazê-lo a estudos que constatem encontrar-se acima da média os estudantes de ascendência asiática, seguidos dos descendentes de judeus e de indianos, não obstante colocarem os de ascendência africana no fim da cauda. Os factos foram estes e, tendo sido recolhidos e tratados de acordo com as melhores práticas e normas da estatística, não serão passíveis de grande discussão. Já as tentativas da sua interpretação - e, especialmente, as medidas a tomar - levantam interessantes questões.

Uma das conclusões hoje em dia mais bem fundamentadas é a de que a questão não é de modo algum racial, mas cultural, e as suas raízes podem encontrar-se bem fundo na educação que as famílias dão às suas crianças desde o berço até que ingressam no sistema escolar. As expetativas dos pais para com os seus filhos por um lado, a forma como entendem o papel da escola por outro, condicionam o apoio - ou a falta dele - que as crianças receberão do seu núcleo familiar no sentido da obtenção de melhores resultados escolares.

É assim que, em famílias de ascendência asiática - em que o respeito quase reverencial para com os mais velhos é um valor cultural muito forte, e em que o trabalho e o esforço são entendidos como parte da normalidade da vida e como um caminho para o sucesso, o que leva os pais a andar "em cima dos filhos" para os fazer estudar e fazer os trabalhos de casa - as crianças têm, em média, dos melhores resultados escolares. Por oposição, famílias em que as crianças tratem os pais com displicência, passem o tempo livre a ver televisão ou na rua com os amigos, não se esforçando por obter bons resultados - e, mesmo, chamando a isso "to act white" (diríamos nós: "armar-se em branco") - não terão as mesmas alegrias na hora de assinar o boletim das notas.

Também importante é a diferente atitude  dos pais para com a escola e para com o seu próprio papel no sucesso escolar dos filhos. Enquanto que uns delegam por completo na escola todas as tarefas atinentes ao bom aproveitamento escolar, outros vêem a escola um parceiro sobre o qual não podem colocar todo o peso da educação da criança, e outros ainda, desconfiados da eficiência do sistema escolar, complementam-no das mais diversas formas, de explicações particulares a escolas de línguas, de música, de estudo acompanhado, sei lá... Certo, certo, é que será, essencialmente, o tipo de educação familiar o principal fator determinante para o sucesso escolar das crianças.

Por fim, não se pode generalizar: cada caso é um caso, cada criança é única, cada família é diferente. Pode, mesmo assim, tentar encontrar-se padrões, e tentar encontrar as causas dos problemas. Não basta, aqui, encontrar correlações: é mesmo necessário encontrar a causalidade.

Face a estas conclusões, que medidas se pode tomar? Aqui a questão torna-se, subitamente, muito mais delidada. Será que cabe ao Estado ensinar os pais a educar os filhos? Será o estilo de educação que cada um recebeu e transmite aos descendentes parte integrante da sua cultura? E sendo-o, poderá ou deverá o Estado dar orientações precisas no sentido de que as crianças - para bem destas últimas, entenda-se - devam ser educadas desta ou daquela maneira? Contra, eventualmente, a vontade dos pais? O respeito pela cultura de cada um, pela sua auto-determinação e, por fim, pela sua liberdade, não iriam colidir com tais hipotéticas medidas?

Esta questão, apesar de melindrosa, poderia perfeitamente ser discutida numa Loja como a Mestre Affonso Domingues. A questão levantada é filosófica, antropológica e, apesar de também política, não o é de forma partidária ou inevitavelmente conducente a divisões entre posições tomadas. Traz informação que é, certamente, útil a que cada um de nós entenda melhor o mundo que o rodeia, e ajudará, certamente, a combater preconceitos retrógrados. Estou certo de que qualquer opinião formulada seria no sentido de se dar prevalência ao respeito pela liberdade individual, que não haveria qualquer comentário racista - muito pelo contrário, e que seria salientado que a tolerância só faz sentido se houver diversidade. No fim, todos manifestariam agrado com o tema tratado, e cada um sairia com uma posição forçosamente diferente de todos os demais, mas enriquecida pela exposição a ideias diferentes daquelas que possuía.

Como vêem - e ao contrário do que dizem algumas vozes - há, numa Loja Maçónica, muito mais a discutir do que a cor dos aventais ou a decoração do templo.

Paulo M.

8 comentários:

José Jorge Frade disse...

Sem dúvida nenhuma, este é um tema de importância crucial para o futuro da Humanidade...

candido disse...

Como vêem - e ao contrário do que dizem algumas vozes - há, numa Loja Maçónica, muito mais a discutir do que a cor dos aventais ou a decoração do templo.By Paulo

Se não vão ao Templo para rezar, nem seria de esperar que entre pessoas esclarecidas não falassem dos temas que preocupam a humanidade, como diz o Maçon Luther King, o que é preocupante é o silencio bons. Abraço

Jocelino Neto disse...

Recomendo a produção cinematográfica de 1975 (norte-americana/britânica) "Man Friday" como elemento de composição para discussões sobre o tema desta "prancha".

http://en.wikipedia.org/wiki/Man_Friday_(film)

Lembrando que uma pesquisa, por mais acuidade que esta possua, ao se tratar de cultura levantam-se tão somente tendências (incluiria, por minha conta e risco, alguns determinismos), visto que os fatos estão munidos de condições interpretativas que seguem os referênciais dominantes, pesquisador x pesquisado. Ou deveria dizer, dominante x dominado?

Abraços Fraternos!

candido disse...

Meu caro Joselino
Obrigado antes de mais pelos bons comentários que aqui tem deixado e onde aprendo sempre qualquer coisa. Neste sei comentario, não percebi a SUA ideia.Sobre o tema, posso indicar-lhe comentários escabrosos e irrepetiveis, por pessoas ditas maçonicas. Abraços

Rui disse...

A Educação é, na minha optica, o pilar da sociedade. Deve, do meu ponto de vista, ser objecto de discussão de todos os cidadãos. Do meu ponto de vista, cada um deve poder escolher o modelo a adoptar para a sua familia. Deveria, isso sim,no meu entender, haver uma atenção de todos relativamente a esta questão e uma disponibilização dos varios "modelos"/resultados/abordagens existentes e do seu impacto na vida no seu sentido mais abrangente possivel.

Paulo M. disse...

@Rui: "cada um deve poder escolher o modelo a adoptar para a sua familia" parece um ponto consensual, até que se coloque a questão do interesse das crianças. Por causa disso chega a haver que defenda a posição extrema de se acusar os pais de maus tratos sempre que, sem que haja uma patologia que o cause, deixem os filhos atingir uma obesidade mórbida... A questão não é fácil, e, a meu ver, não pode ser reduzida à questão da liberdade dos pais, mas focar-se, acima de tudo, no interesse dos filhos.

Um abraço,
Paulo M.

Jocelino Neto disse...

@candido: Agradeço a gentileza, e acredite, este blog tem sido "canteiro" fértil para o aprender a aprender.

Quanto a ideia que apoia meu comentário, o filme ao qual indiquei - Man Friday – trata, na minha opinião, de aspectos que tangenciam o tema desta prancha (mais uma vez, minhas sinceras congratulações, Paulo. M). Choques culturais, preconceitos, batalha de percepções, relações de domínio (quem domina e quem é dominado?) e, inclusive, educação. Novamente, o recomendo.

Com relação à pesquisa, vejo na melhor das hipóteses como indício, passível de análise evidentemente, mas que não acusa qualquer definição em essência, pois dependerá do referencial na qual foi gerada (na física quântica, a interação do observador influência no fenômeno) e no qual será compreendida.

Ouso comentar que tais tentativas de compreender “cientificamente” esses casos, inicialmente geram modelos reducionistas, que para fins de aprendizado - limitar para entender - são importantes, entretanto, se faz necessário ampliar a discussão transversalmente a outras possibilidades: “A questão levantada é filosófica, antropológica e, apesar de também política, não o é de forma partidária ou inevitavelmente conducente a divisões entre posições tomadas. Traz informação que é, certamente, útil a que cada um de nós entenda melhor o mundo que o rodeia, e ajudará, certamente, a combater preconceitos retrógrados”.

Em síntese e concordando novamente com Paulo M.: “Por fim, não se pode generalizar: cada caso é um caso, cada criança é única, cada família é diferente. Pode, mesmo assim, tentar encontrar-se padrões, e tentar encontrar as causas dos problemas. Não basta, aqui, encontrar correlações: é mesmo necessário encontrar a causalidade.”

Aos comentários escabrosos (independente da fonte de origem) hora os trato como contra-informação, hora como devaneios, hora como passos inseguros rumo ao aperfeiçoamento. Não os renego. Afinal, é preciso conhecer as faces do prisma para compreender a decomposição da luz.

Na maçonaria, (de meu ponto de vista ainda profano) como em tantos outros grupos sociais, as individualidades operam constantemente e influenciam (como é de se esperar) o coletivo. Mas é uma falha de percepção tomar o todo pela parte. Creio que é salutar, portanto, trabalhar constantemente para que não sejamos ludibriados por nossas próprias limitações, e possamos construir plenamente (com consciência, responsabilidade) nosso perfeito aperfeiçoamento.

Abraços Fraternos!

Rui disse...

A questão da liberdade de escolha do modelo educacional é claramente polémica. Quem define o que é melhor para uma criança? Que interesses estão subjacentes a essa definição? Ao longo da Historia, tem havido sempre a tentação de, pela educação condicionada, re-escrever a História e condicionar o racicionio critico. Apesar de todos os problemas referidos por Paulo M., eu defendo a liberdade de escolha pela familia. Quando o afirmei no comentario anterior, foi com a consciencia total da responsabilidade pela afirmação. Abraço, Rui R.
PS: Excelente Texto. Parabéns pelo blogue! Gostaria, se Vos for possivel, que este tema fosse revisitado. A questão da Educação é-me muito cara.