07 novembro 2010

Os símbolos em Maçonaria: o ensinar e o aprender


É conhecido que a maçonaria recorre extensivamente a símbolos como forma de transmissão do conhecimento. É evidente que esses símbolos terão algum significado. O que, todavia, é menos evidente, é que não há significados universalmente aceites ou impostos para os símbolos maçónicos. O que um interpreta de um modo, outro pode interpretar de modo diverso. Assim sendo, de que serve a simbologia na maçonaria? A que aproveita essa "plasticidade" nos significados dos símbolos? E como é que se pode usar os símbolos como meios de comunicação do seu significado subjacente, se esse significado pode variar de pessoa para pessoa?

Para o entendermos, temos que recuar no tempo. Bem antes da maçonaria especulativa ter surgido - o que sucedeu, oficialmente, em 1717 - já os maçons operativos se socorriam de símbolos para se recordarem dos ensinamentos que os seus mestres lhes haviam transmitido. De facto, muitos dos trabalhadores da pedra não sabiam ler nem escrever, pelo que se socorriam de pictogramas e representações de objetos para o efeito. Os símbolos não eram propriamente secretos; o seu significado - as técnicas a que os mesmos se referiam - é que era apenas revelado a alguns. A maçonaria especulativa veio a adotar esse método de transmissão de conhecimento. Assim, hoje como outrora, os símbolos são auxiliares de memória, instrumentos de suporte ao conhecimento, verdadeiras mnemónicas- diriamos hoje: são cábulas - que nos permitem recordar, evocar e especular.

Mas se o seu significado pode ser individualizado, como é que o conhecimento passa sem se perder, sem se desvanecer, sem se espraiar numa mar de semânticas? De forma muito simples: para tudo há um início, e o método consiste, precisamente, em dar a cada um os pontos de partida, sem estabelecer qualquer ponto de chegada... Assim, a um aprendiz é, desde logo, ensinado o significado comum de vários símbolos: o esquadro, o prumo, o nível, o mosaico bicolor do chão dos templos, a pedra bruta, a pedra polida, entre outros. É das poucas ocasiões que, em maçonaria, alguma coisa é verdadeiramente ensinada, e mesmo aí os significados gerais são dados com parcimónia de explicações e de forma sucinta e concisa. A cada um é dito, então, que deverá procurar interpretar cada símbolo de forma pessoal, podendo quer aplicar o significado original, quer levá-lo até onde o deseje. E é esse o trabalho do aprendiz: estudar os símbolos, construir um significado em torno dos mesmos, e aplicá-lo a si mesmo.

E como se mantém um denominador comum? Quando um maçon se refere ao prumo, os demais sabem que se refere à retidão moral, à integridade, à verticalidade de caráter - aquilo que ouviu quando, ainda aprendiz, lhe "apresentaram" os símbolos. Contudo, mais tarde cada um irá interiorizar a seu jeito o que estas palavras significam. O que será sinal de caráter para um poderá ser duvidoso para outro; a nenhum, porém, é imposto qualquer significado universal. E porquê? Porque, se a maçonaria se destina a tornar cada homem num homem melhor, deve fazê-lo dentro do absoluto respeito pela sua liberdade. Por isso se diz que em maçonaria tudo se aprende e nada se ensina, no sentido de que cada um deve procurar os seus próprios ensinamentos sem esperar que lhos facultem. Cada um deverá poder procurar, no mais íntimo de si, o que quer fazer dos princípios que lhe são transmitidos: se quer segui-los ou ignorá-los, quais aqueles a que vai dar maior preponderância, e até onde vai levar esse ânimo de se superar. E é por tudo isto que, sendo essa luta de cada homem consigo mesmo algo de mais único do que uma impressão digital, a liberdade individual de interpretação se impõe sobre qualquer eventual tentativa de normalização do significado dos símbolos.

Paulo M.

7 comentários:

Baltazar disse...

Eu sou informático, trabalho neste ramo há muitos anos e costumo dizer que na informática temos três fases: a primeira é quando sabemos tudo, começamos a trabalhar com computadores, linguagens de programação ou outras ferramentas e sabemos tudo. No entanto com o tempo aprendemos que afinal não sabemos tudo, um passo na aprendizagem dum processo ou sistema abre-nos áreas cinzentas e admitimos que ainda temos alguma coisa para aprender. Mais tarde atingimos a terceira fase, não sabemos nada, cada pequeno passo que se dá para conhecermos uma pequena área cinzenta abre-nos um universo de outras áreas cinzentas e a aprendizagem não tem fim.

Na busca espiritual também passamos por fases: eu sei tudo quando as respostas religiosas nos bastam; afinal não sei tudo quando vemos que há mais para além dessas respostas e depois o reconhecimento de que afinal não se sabe nada porque à nossa frente encontramos sempre novos caminhos, novas sabedorias e a aprendizagem não tem fim.

Eu não sou maçon, como é lógico, a minha curiosidade levou-me a fazer pesquisa sobre a maçonaria como dantes já tinha feito sobre outras organizações ou marcos civilizacionais.
Por isso li sobre a maçonaria primitiva, operativa e a especulativa, apesar de muita dessa informação estar mais baseada em mitos que em factos.
Li textos em português, francês, inglês e até em alemão sobre os masons, maçons e steinmetzer e quanto mais lia, mais chegava à conclusão que o espírito maçon era mais que uma “sociedade”, era uma definição de carácter e espiritualidade … um caminho para uma postura recta e justa.
Isso significa que no nosso mundo há muita gente que é maçon sem o saber, maçon de espírito e maçon nas suas acções.

Neste blog tenho encontrado imensa informação, que desde já agradeço, mas mais que informação tenho encontrado nos textos muitos pontos de partida que tinha ignorado e que me têm ajudado a percorrer os eternos caminhos da formação espiritual, este post é disso um belo exemplo.


Cumprimentos

Jocelino Neto disse...

Congratulações pelo ótimo post!

Aproveito o ensejo para solicitar alguns esclarecimentos. Como se dá o processo de aumento de salário (aprendiz/companheiro, companheiro/mestre)? Quem em loja possui discernimento para aferir se os obreiros já estão aptos para galgar a continuidade dos trabalhos?

Jocelino Neto disse...

Perdão. Creio que em minha ansiedade, não busquei por possíveis respostas no histórico do blog.

"O silêncio do Aprendiz e do Companheiro significam que, salvo para apresentação das respectivas pranchas de proficiência no grau, os Aprendizes e Companheiros não têm o direito ao uso da palavra em sessão ritual. Mas significa ainda uma outra coisa. Ter a palavra é ter o poder de ENSINAR. E, nesse sentido, só os Mestres ensinam, só os Mestres detêm a palavra. Numa Loja maçónica, toda a formação de Aprendizes, de Companheiros e também dos Mestres está exclusivamente a cargo dos Mestres, só é encargo dos Mestres."

http://a-partir-pedra.blogspot.com/2008/03/o-silncio-d-companheiro.html

Estou a correr sem ao menos compreender o caminhar.

Jocelino Neto disse...

Perdão. O trecho citado anteriormente refere-se a este post:

http://a-partir-pedra.blogspot.com/2008/04/variao-sobre-o-silncio.html

Abraços fraternos!

Paulo M. disse...

@Baltazar: Consigo e com o Diogo já somos 3 informáticos assumidos por aqui! De facto, aprender alarga-nos os horizontes e deixa-nos ir entrevendo o pouco que de facto sabemos.
"(...) no nosso mundo há muita gente que é maçon sem o saber, maçon de espírito e maçon nas suas acções." ... a que os maçons costumam chamar "maçons sem avental". Se os textos deste blogue lhe têm sido úteis e o têm esclarecido fico contente, pois é precisamente para isso que ele serve!...

@Jocelino Neto: Todos os mestres podem ensinar, é verdade, no sentido de que partilham aquilo que aprenderam, mas há em cada loja dois oficiais - que são sempre Mestres - especialmente incumbidos da formação dos Aprendizes e dos Companheiros, e que são respetivamente o Segundo Vigilante e o Primeiro Vigilante. Compete a estes - e só a estes - propôr ao Venerável Mestre o aumento de salário daqueles por que são responsáveis quando entendam que é chegado o momento.

Um abraço,
Paulo M.

Jocelino Neto disse...

Força e Beleza!

:-)

Caro Paulo M. Muitíssimo agradecido pelo esclarecimento e disponibilidade para com quem, por agora, apenas entrevê a Luz.

Abraços Fraternos!

marco tulio representaçoes disse...

MEUS ILUSTRES IRMAOS, o importante não é sabemos de onde viemos ou para onde vamos o importante é a dimensão. as dimensões são criadas pelo trabalho das ferramentas e se não sabes utiliza las deves estudar mais as peças de arquitetura, o ser humano é dotado de uma evolução permanente, somo um ponto entre dois infinitos, o passado e o futuro.