30 março 2011

O Padrinho (II)


Para além da indispensável função de auxiliador da integração do novel elemento na Loja, o Padrinho deve assumir uma outra função em relação àquele que propôs para integrar a Loja, relacionada com a formação do Aprendiz.

A formação dos Aprendizes decorre sob a direção do 2.º Vigilante, seu responsável. O Padrinho não pode, nem deve, substituir-se-lhe. Mas pode, é é útil que o faça, exercer um precioso papel complementar. Não nos esqueçamos que o 2.º Vigilante tem de coordenar a formação de um conjunto de Aprendizes, com diferentes personalidades, variados percursos de vida, diversas preparações, separados interesses, para além do comum, relativamente à Arte Real, vários tempos de permanência no grau - e, portanto, dissemelhantes estádios de evolução no conhecimento e tratamento dos elementos simbólicos catalisadores da evolução de cada um. O 2.º Vigilante elabora um plano de formação que, necessariamente, é um máximo denominador comum em relação a todo este conjunto de variáveis - e, logo, um programa apenas básico, que carece de ser desenvolvido e completado por cada um dos próprios Aprendizes.

É no auxílio personalizado ao seu afilhado que o Padrinho tem, neste campo, um particularmente útil papel. O seu afilhado tem dificuldades em encontrar bibliografia para estudar qualquer tema? Deve recorrer ao Padrinho. Pelo contrário, o Aprendiz depara-se com uma extensa lista de elementos bibliográficos, com muito lixo e muita esotérico-birutice misturados com elementos relevantes? Cabe ao Padrinho guiar o seu afilhado, apontar-lhe o que é válido, adverti-lo em relação ao que não tem valor ou interesse. O Aprendiz está num estádio mais avançado que o plano de formação geral proporcionado? Incumbe ao Padrinho complementar essa formação genérica, apontando-lhe pistas de investigação ou meditação, exortando-o a ir mais além ou estudar com maior profundidade e a registar o resultado do seu labor, e seguidamente, criticando construtivamente esse resultado, iluminar insuficiências, expor contradições, indicar caminhos de exploração alternativos, enfim, corresponder ao interesse e capacidade do Aprendiz e ajudar a que seja frutífero um tempo que, sem essa ajuda, seria sentido como uma desilusão. Pelo contrário, o Aprendiz tem dificuldade em entender a simbologia, em tratar determinado tema, em assimilar certo ensinamento? O Padrinho deve ser o auxiliar que ajuda à ultrapassagem da situação.

Em matéria de formação do Aprendiz, o Padrinho deve ser um verdadeiro tutor, no sentido (em inglês) do termo que lhe é dado pelas Universidades anglossaxónicas: um guia, um auxiliar, um apontador de caminhos, um crítico, um gestor e disciplinador do processo de aquisição de conhecimentos.

Mas - atenção! - nunca um substituto do responsável da formação e nunca um substituto do próprio Aprendiz. O trabalho que o Aprendiz deve fazer deve ser feito por ele - não pelo Padrinho. "Fazer a papinha toda" ao Aprendiz é o mesmo que não o formar, método quase assegurado de falhar a sua formação. O tutor (em português) da árvore auxilia-a, enquanto pequena e frágil, a manter-se direita e a resistir ao vento, proporcionando-lhe tempo e condições para que cresça, robusteça, se fortaleça - não é seu objetivo que cresça em vez dela...

Este papel do Padrinho na formação do seu afilhado termina ou, pelo menos, atenua-se muito sensivelmente, quando ele finda o seu período de aprendizagem e é passado a Companheiro. Aí o tempo é já outro, a independência do obreiro cresce, em conjunção com a sua aumentada capacidade, o seu desejo de começar a trilhar por si os seus próprios caminhos emerge. Cabe ao Padrinho então afastar-se e observar à distância, só intervindo em duas situações: ou perante pedido expresso do afilhado ou se verificar evidente e grave desvio de percurso, que levará o obreiro a falhar a sua caminhada, em intervenção de urgência para tentar voltar a pôr nos carris o que porventura tenha descarrilado. Mas, na maior parte das situações, quando o seu afilhado passa a Companheiro, o Padrinho passa a ser apenas um atento e disponível observador do seu afilhado, na caminhada que o levará, no passo seguinte, à plena igualdade de ambos.

Rui Bandeira

23 março 2011

O Padrinho


Em Maçonaria, designa-se por Padrinho o primeiro proponente da candidatura de um profano à iniciação.

Com esse ato, o primeiro signatário dessa candidatura afiança perante a Loja a boa fé do candidato, o seu reto propósito, a posse das características e da maturidade indispensáveis ao profícuo trabalho de desenvolvimento e aperfeiçoamento pessoal que é o objetivo primeiro de cada maçom regular e a capacidade de harmoniosa integração no grupo, na Loja, do candidato proposto.

Com efeito, não deve ser admitido às provas da Iniciação quem não detenha a necessária maturidade para efetuar o trabalho de um maçom, quem não possua características compatíveis com o trabalho maçónico, quem, por índole ou feitio, não seja capaz de harmoniosamente se integrar num grupo de desconhecidos que pré-existe em relação à sua entrada, existirá com a sua presença e permanecerá após a sua partida. E é claro que a boa fé de quem se apresenta é absolutamente essencial...

Só pode ser padrinho de um candidato um Mestre Maçom, pois é indispensável a realização do percurso de aprendizagem, a interiorização do que é e como trabalha a Maçonaria, de como é a Loja, das virtudes, defeitos e insuficiências do grupo, enfim, o conhecimento do que é a Maçonaria e a Loja, para, com o mínimo de erro, poder aferir da compatibilidade entre o candidato e a Instituição, a Loja e os seus obreiros.

À Maçonaria não interesa iniciar por iniciar. Não se trabalha para números, para "crescimento". À Maçonaria interessa acolher homens bons que querem e podem ser homens melhores. Só isto - e muito é! À Maçonaria não interessa perder tempo, trabalho e energias com quem não quer, ou não pode, efetuar o persistente e solitário e apenas interiormente gratificante trabalho do aperfeiçoamento pessoal, moral e espiritual. Nem a Maçonaria tem qualquer gosto em que alguém perca seus tempo, trabalho e energias entrando para uma Instituição que verdadeiramente não lhe interessa.

Por isso procura minimizar os (inevitáveis) erros mediante um exigente, ponderado (e demorado...) processo de admissão, que nunca se inicia sem a indispensável caução de um Mestre proponente, acompanhada de idêntica ação de um outro Mestre.

O Padrinho deve, assim, inevitavelmente, conhecer pessoalmente o candidato, com a profundidade necesária para poder fazer o juízo de prognose favorável à sua integração que o habilita a caucionar o pedido de adesão.

Caucionada que esteja a candidatura, o Padrinho retira-se de cena durante o decurso do processo de análise da mesma. Não tem nada mais que dizer. Cabe à Loja assegurar-se de que o seu juízo está correto, que não foi perturbado por amizade, parentesco, consideração ou dependência que o tenham induzido em erro.

Mas, uma vez decidida a admissão do candidato, então o Padrinho começa verdadeiramente a exercer a sua função. O seu papel não se esgotou na caução dada. Só após esta decisão verdadeiramente começa! O Padrinho é o elo de ligação entre a Loja e aquele que um dia, estando de fora (Profano), nela quis entrar (Candidato) e nela foi admitido (Maçom Iniciado; Aprendiz). Como tal, é o primeiro responsável por tudo o que respeita à integração deste novo elemento no grupo. Desde logo por algo tão básico como caber-lhe a ele informar o Candidato das obrigações financeiras que a sua Iniciação implica, providenciar para que, no dia da sua Iniciação o Candidato saiba onde, quando e como se deve apresentar e conduzi-lo ao local físico onde a Cerimónia terá lugar. Mas também, consumada a Iniciação, pelo longo e complexo processo de integração do novo elemento no grupo.

Muitas vezes, o Padrinho é a única cara na Loja que o novo Aprendiz reconhece, o único que não lhe é completamente estranho. Quando assim é, é o padrinho o único ponto de apoio de que o novo elemento dispõe, até que, a pouco e pouco, às vezes mais lentamente, outras com maior facilidade, consoante a personalidade de cada um, as relações pessoais se vão estabelecendo com os demais elementos do grupo e daí evoluindo até onde as compatibilidades e empatias estabelecidas com cada um permitam evoluir.

Este processo de integração pode, por vezes, ser mais difícil ou demorado do que o antecipado e, até que esteja ultimado, o seu sucesso em muito depende do Padrinho. Este tem que elucidar o novo Aprendiz das regras (muitas não escritas e algumas não facilmente apreensíveis) de funcionamento, de cooperação, de relacionamento, existentes no grupo (e cada Loja é um grupo diferente, com uma história, um passado, uma evolução, diferentes, com dinâmicas de grupo próprias), para que as conheça e nelas se integre harmoniosamente.

Mas também deve intermediar, prevenir e colmatar possíveis incompreensões ou desagrados do grupo ou de algum elemento do grupo perante atitudes ou características do novo Aprendiz. A Maçonaria não é um grupo de amorfos, privilegia gente assertiva, livre pensadora, que busca o seu lugar e define e trabalha e atinge objetivos. É natural que um novo elemento queira mostrar a sua valia ao grupo, encontrar nele o seu lugar. Muitas vezes, no seu afã de tal, esquece que há regras e modos e meios que ainda não aprendeu e comete erros, às vezes excessos, outras vezes omissões, que podem a um ou outro desagradar. Há que compatibilizar, esclarecer, moderar, ajudar a que o espaço a que o novo elemento tem direito seja encontrado, de forma a que todos beneficiem.

Esta tarefa - quase que diplomática - de garante da boa integração do novo elemento no grupo e do bom acolhimento do grupo ao novo elemento incumbe, em primeira linha, ao Padrinho.

É dever do Padrinho assegurá-la, sob pena de a integração falhar, de um bom elemento se perder, de o grupo e o indivíduo gastarem tempo e energias em vão.

Costumam os maçons dizer que cada candidato iniciado é um Venerável Mestre (e um Grão-Mestre...) em potência. Para garantir que essa potencialidade possa, a seu tempo, evoluir para a possibilidade, depois a probabilidade, finalmente a realidade, é indispensável que o Padrinho exerça efetivamente a sua função e não se limite a rabiscar displicentemente a sua assinatura num formulário de candidatura.

Rui Bandeira

22 março 2011

A Maçonaria "restritiva e selectiva"



Li recentemente o seguinte comentário: «é por certo o grande mal da Maçonaria, ser tão restritiva e selectiva na escolha dos seus “Irmãos”». Este comentário traduz bem a ideia muito difundida de que a Maçonaria é só para alguns muito poucos, que está cheia de "personalidades" que não se misturam com o comum dos mortais, e que os critérios de admissão passam, essencialmente, pelo posicionamento económico, social ou político do candidato. Não é verdade; a Maçonaria não é isso.

Por outro lado, não poderia dizer que a Maçonaria não seleciona os candidatos, não exerce qualquer controlo sobre as admissões, nem coloca às mesmas qualquer obstáculo. Claro que exerce controlo, claro que seleciona, claro que coloca obstáculos. Os critérios de admissão, porém, são públicos e ao alcance de todos quantos pretendam, eventualmente, juntar-se à nossa Ordem.

O principal critério advém do cumprimento dos Landmarks da Maçonaria, que ditam muitas das restrições à admissão, como sendo a exclusividade de membros masculinos, a obrigatoriedade da crença no Grande Arquiteto Do Universo, ou a de dever ser o candidato uma pessoa honrada e de boa reputação. Os Landmarks são, como disse, públicos, apesar de não serem universais - há Obediências que aceitam uns e rejeitam outros.

Outros critérios de seleção advêm da própria natureza e propósito da Maçonaria, que se aprende na Instrução de Aprendiz:

- O que é um Maçon?
- É um homem nascido livre e de bons costumes, igualmente amigo do rico e do pobre, desde que sejam pessoas de bem.
- Que significa nascer livre?
- O homem que nasceu livre é aquele que, tendo morrido para os preconceitos comuns, renasceu para a nova vida que a iniciação confere.
- Quais são os deveres de um Maçon?
- Evitar o vício e praticar a virtude.
- Como deve um Maçon praticar a virtude?
- Colocando acima de tudo a justiça e a verdade.

Só alguém que se identifique com estes preceitos pode ser admitido na Maçonaria. Senão, não se iria sentir enquadrado - e não só perderia o seu tempo, como faria os demais perder o deles. Porque a adesão à Maçonaria implica um esforço e empenho não só pessoais como de toda a Loja que admite o neófito, esforço esse que se prolonga por vários anos, não é de ânimo leve que se aceita qualquer um. Os erros de casting saem caros a todos. Por isso, a imagem que se passa para fora deve ser essa mesma: a de que ser aceite maçon não é algo que possa ou deva ser feito com leviandade.

Não creio que seja bom, contudo, cair-se no extremo oposto, propalando-se uma imagem de tamanha exigência que leve a que praticamente ninguém sinta - pelo menos até que alguém lho pergunte - que poderá, querendo, pertencer a esta grande Fraternidade. Receio que seja este o maior obstáculo a que a Maçonaria seja e se torne mais numerosa.

Deveras, quantos não sentirão que não encontram quem partilhe dos princípios por que regem a sua vida - que, por acaso, até podem ser os princípios de tolerância, diversidade, paz e fraternidade que a Maçonaria defende e acarinha? Quantos não descobriram já, até, que se identificam com os ideais da Maçonaria, mas acreditam que a Maçonaria é só para "VIPs", e que nunca lhes abriria a porta?

A esses só posso dizer que ainda hoje se aplica um princípio simples e antigo: quem quer entrar tem que começar por bater à porta. Pode ser que tenha uma surpresa e - certamente ao fim de algum tempo - em vez de um polegar para baixo, receba um caloroso abraço de boas vindas...

Paulo M.

P.S.: Obrigado, M.A., por me dar tema para mais um texto; e sim, sei bem que o excerto que reproduzi acima não traduz a ideia do texto em que se insere...

16 março 2011

Lição de um Mestre ao seu Aprendiz - IV


Meu Irmão:

Antes de tudo e acima de tudo, quero expressar-te, em nome de toda a Loja o júbilo que aquece nossos corações. Enfim, estás entre nós! Mas, meu Irmão, o júbilo não brota diretamente do facto de estares entre nós. Resulta principalmente de estar entre nós alguém que foi por nós reconhecido como um homem bom. Mas, meu Irmão, nota que esse júbilo não resulta apenas de estar entre nós um homem bom. Nasce principalmente de esse homem bom poder tornar-se e ter a vontade de se tornar um homem melhor. E decorre ainda de termos a esperança de que te podemos auxiliar nessa demanda!

O caminho que hoje encetas é um caminho novo e diferente de tudo o que fizeste na vida até agora. Tens à tua disposição um método – o método maçónico de aperfeiçoamento através do estudo dos símbolos e aplicação dos conhecimentos com esse estudo obtido. Não terás, porém, aulas. Terás uma panóplia de símbolos perante ti, para que os descubras e trabalhes por ti, terás um guia para começares a fazê-lo, terás à disposição das tuas perguntas, disponíveis para ajudar à remoção das tuas dúvidas, dezenas de Irmãos, que fizeram e continuam a fazer o trabalho que ora vais encetar.

A Maçonaria é uma instituição que estimula e favorece o mais belo dos egoísmos: o egoísmo de querer ser melhor. Melhor homem, melhor crente, melhor familiar, melhor profissional. A Maçonaria incessantemente te incita à busca da excelência, em todos os campos da tua vida. É esse o grande múnus da Maçonaria. O caminho da excelência é talvez o mais solitário dos caminhos. A Maçonaria consegue realizar o aparente paradoxo de proporcionar que esse solitário percurso seja efetuado com a companhia de teus Irmãos. Todos o fazem em conjunto – mas cada um o fará afinal só por si!

Esta noite de emoções foi-te propositadamente proporcionada. Não te terás ainda dado conta, mas hoje muitas lições recebeste. E recebeste-as da mais eficaz forma possível: não apenas ouvindo passivamente, mas vivendo o momento, sentindo, estando inserido na ação. A seu tempo apreenderás que não é só a tua inteligência intelectual que te permite aprender. Também a tua inteligência emocional to possibilita e quiçá de uma forma bem mais profunda e eficaz. Ao seres hoje o centro, o destinatário, o ator principal e o principal espetador da tua Iniciação, foi-te estimulada a Inteligência Emocional que o homem moderno desaprendeu de cuidar – mas que é a chave para a descoberta individual da resposta à grande questão que a todos, mais cedo ou mais tarde, assalta: qual o sentido da Vida, qual o significado da minha existência? Essa resposta não ta daremos nós. A essa resposta chegarás tu quando estiveres preparado para a ela chegares. Através da tua inteligência intelectual, mas também e indispensavelmente através da tua inteligência emocional.

Nos tempos mais próximos – que durarão algum tempo, que o Tempo também é construtor! – observa, lê, raciocina, impregna-te de ambientes e estados de espírito. Interroga-te e interroga. Responde, emenda as tuas respostas, recomeça e chega a nova conclusão, que descobrirás ser afinal uma nova pergunta. Mas sobretudo pensa, reflete, medita. Arranja maneira de reservar alguns minutos de cada um dos teus dias para o fazeres. Será através desse momentos de pensamento, de reflexão, de meditação, que descobrirás as perguntas que verdadeiramente te interessam e as respostas que é possível dar-lhes. Todos os demais o mesmo fazem. Este é o espaço da partilha do resultado desse trabalho. E descobrirás que, ao assim fazeres, cada vez mais te é agradável fazê-lo, que cada vez maior proveito tirarás. Até que um dia assim farás sem esforço e naturalmente. Nesse dia, serás verdadeiramente Mestre. Mestre daquilo que importa: Mestre de ti próprio!

Bem-vindo, meu Irmão. O teu trabalho inicia-se a partir de agora. O limite está para além do horizonte. Descobre-o!

Rui Bandeira

14 março 2011

A recomendação


Quem de nós nunca ficou subitamente sem empregada doméstica e precisou de encontrar outra com rapidez? Nestas circunstâncias o mais comum é pegar-se no telefone e telefonar a amigos e conhecidos, a ver se alguém conhece alguém de confiança que esteja disponível... Só esgotados os contactos pessoais - e os amigos dos amigos - é que se recorre, a contragosto, a anúncios, centros de emprego ou se contrata uma empresa que trate do recrutamento.

O que fazemos na nossa casa faz-se, do mesmo modo, nas empresas. Quando alguém, numa empresa, precisa de reforçar uma equipa ou de recrutar um profissional, é comum perguntar entre os seus conhecidos: "Olha, conheces alguém com este perfil assim-assim, e que me recomendes?" Aqueles a quem se recorre são, sempre, pessoas em cujos critérios se deposita confiança. Assim, ter bons contactos, conhecer pessoas capazes e competentes e saber fazer confluir as necessidades complementares de uns e outros é algo que a todos beneficia.

Começa, por isso, a ser frequente as empresas retribuírem - até pecuniariamente - aos seus funcionários que indiquem pessoas que venham a revelar-se bons quadros. Afinal, se contratassem para o efeito uma empresa de recrutamento, teriam sempre que lhe pagar... Beneficiam os que procuram quem saiba cumprir certa função - pois obterão com maior probabilidade a indicação de um profissional à altura - e estes últimos, evidentemente, pois terão mais facilidade em se moverem de uma posição para outra na sua carreira.

A expetativa de quem contrata é a de que, por reconhecer o mérito e o bom juízo da pessoa que recomenda, haja maior probabilidade de se estar a contratar uma pessoa mais próxima do perfil ideal pretendido, quer porque quem indica este conheça a realidade interna da empresa, quer porque tenha um conhecimento privilegiado da pessoa recomendada que nunca um recrutador profissional conseguiria obter no curto tempo de que dispõe.

Mas há mais formas de recomendação para além da pessoal. Os membros de uma associação profissional, por exemplo, podem ter um placard de anúncios onde refiram a sua disponibilidade - ou onde publicitem o facto de procurarem quem saiba desempenhar certa função. Quem dia uma associação profissional diz uma igreja, uma coletividade, ou qualquer outro conjunto de pessoas cuja opinião, critério e juízo se tenha em melhor conta do que a do cidadão médio anónimo.

Por esta razão é, para voltar às empregadas domésticas, frequente serem estas indicadas por alguém da igreja a que pertençam, um outro pai da escola onde tenham os filhos, ou por outra pessoa do Atelier de Ponto de Cruz que frequentem. Mas alguém acha credível que uma pessoa contrate outra apenas porque faz ponto de cruz com ela?! Claro que não. Será, certamente, porque durante essa atividade se apercebeu das suas qualidades e da sua habilidade.

Claro que há casos de favorecimento abusivo. Quem não ouviu já falar de pessoas que chegam a certas posições por causa da sua cor política, laços de amizade ou parentesco, ou... "afinidade" com o patrão, que gosta especialmente de ruivas? Esses casos são falados por uma razão simples: as pessoas em causa nunca ocupariam esses lugares se não fosse o tal "laço".

Mas não é desses casos que falo. Falo de recomendações como as que se fazem quando se indica uma oficina de confiança a um amigo, um advogado a um colega, ou um fornecedor a um parceiro de negócios - em que se veicula informação sobre o mérito objetivo de certa pessoa ou empresa.

De facto, se um amigo me disser: "Olha, sei que precisas de um contabilista; conheço um fantástico", e depois eu vir os honorários dele e os considerar exagerados, não me sinto na obrigação de o contratar - o que não impedirá que, em igualdade de circunstâncias, se tiver que escolher entre dois e um vier recomendado por um conhecido, eu não hesite. Não é o que fazemos todos?! E ninguém o estranha, nem condena, nem vem nos jornais.

Por que será, então, que se estranha quando vem a lume que entre os maçons suceda precisamente o mesmo?! Mas é claro que, se preciso de um serviço, poderei perguntar aos meus Irmãos se conhecem alguém que o preste com qualidade - pois confio na sua integridade e na qualidade do seu conselho. E se um Irmão está disponível para prestar um trabalho de que eu preciso, e sei que ele é consciencioso, bom profissional e o preço do seu trabalho é justo, é natural que o contrate.

Será isso assim tão estranho?!

Paulo M.

09 março 2011

Lição de um Mestre ao seu Aprendiz - III


(Nota: as lições anteriormente publicadas neste blogue foram escritas por Jean-Pierre Grassi e estão aqui e aqui)

Meu Irmão:

A melhor forma de manifestar os calorosos sentimentos fraternos de toda esta Respeitável Loja para contigo é sublinhar que não foste simplesmente aceite aqui, não foste simplesmente admitido à Iniciação, foste verdadeiramente cooptado para este grupo, para esta Loja.

Cada vez que alguém entra ou sai da Loja, esta modifica-se, pois a Loja é o conjunto de todos os seus obreiros, a soma de todas as suas capacidades, a multiplicação de todas as suas potencialidades, a divisão por todos dos pesares de cada um, enfim, a Loja é um conjunto vivo cujas células são os seus obreiros. E se, quando um obreiro parte, a Loja pouco perde, perde apenas as suas potencialidades futuras, conservando tudo o que esse obreiro, enquanto entre nós esteve aqui deixou, aqui ensinou, connosco partilhou, a cada um de nós influenciou, sempre que um novo elemento é cooptado pelos que já a integram para também nela ingressar, muito ela ganha, muito ela se transfigura, porque os novos, aprendendo, integrando-se, partilhando, novas capacidades, outros ensinamentos, trazem e juntam.

Meu Irmão: a melhor forma de demonstrar os calorosos sentimentos fraternos de toda esta Respeitável Loja para contigo é deixar claro que a Loja em ti, na tua entrada, na tua junção a nós, deposita o que de mais precioso tem, a sua própria identidade, confiante e certa que não só não a irás degradar, como serás fator do seu aprimoramento.

Bem-vindo, pois, meu Irmão. Estamos certos que honrarás a confiança que em ti depositámos. Procuraremos corresponder à esperança que em nós tens.

Quanto à sucinta explicação do sentido e finalidade da Arte Real, uma frase chega: é um meio, um método, um caminho, um ambiente, para o teu aperfeiçoamento pessoal, moral, cívico e espiritual. Os primeiros tempos são de silêncio e de observação. Olha, vê, ouve, sobretudo medita, relaciona, interpreta. Através de símbolos, de parábolas, de linguagem figurada, nada te será ensinado, mas muito aprenderás, pela melhor forma de aprender que existe: por ti mesmo, em função da tua própria experiência. Este trabalho só termina à meia-noite. Fá-lo bem, para que, chegada essa hora, estejas satisfeito contigo próprio.

Começa por olhar em volta e atentar nos pormenores. Todos têm significado. Procura entendê-los. Não tenhas receio de perguntar e, sobretudo, não te esqueças nunca que as melhores respostas que irás receber serão aquelas que te não satisfizerem e te levarão a procurar mais longe ou diferentemente.

Lê muito atentamente o ritual e catecismo que hoje recebeste. Fá-lo sem pressas, mas frequente e persistentemente. Cada frase, bem meditada, é fonte de preciosos ensinamentos. Sei-o bem: há mais de vinte anos que faço o mesmo e o que aprendi é uma ínfima parte do que ali ainda tenho para aprender.

Sê pois bem-vindo, meu Irmão, e hoje festeja. O teu trabalho podes começá-lo amanhã...

Rui Bandeira

06 março 2011

O conceito maçónico de "Grande Arquiteto Do Universo" - Epílogo


Depois de tudo o que foi dito, e de se entender como o conceito de Grande Arquiteto do Universo se foi progressivamente alargando, resta a questão final: porque é que a Maçonaria Regular insiste em exigir dos seus membros esta crença, quando não a define cabalmente? Porque é que não deixa, de uma vez por todas, de estabelecer essa restrição? Qual a razão, enfim, por detrás da obrigatoriedade da crença no Grande Arquiteto do Universo?

Revisitemos rapidamente a evolução do conceito: do Deus de várias denominações cristãs, passou a significar o Deus das religiões "do Livro" (cristianismo, islão e judaísmo); daí alargou-se a qualquer conceito equivalente, fosse de que religião fosse - ou mesmo de uma crença sem religião nenhuma. Continua, todavia, a insistir-se que o maçon tem que ter fé - seja lá no que for. Porquê?

Por mais diferentes que sejam as suas religiões, duas pessoas que creiam que a existência não é "só isto", só este deambular por um mundo condenado a esvair-se de novo no pó das estrelas, conseguirão encontrar pontos comuns que não terão nunca com um ateu. Sob formas distintas, partilharão do conceito de que a existência tem algum propósito, que não é indiferente a forma como levamos a nossa vida, e que o Bem é um valor e o Mal deve ser evitado.

Não é o ser ou não ateu que determina se uma pessoa é "boa" ou "má". Muitos ateus são excelentes pessoas, e muitos crentes são execráveis simulacros de ser humano. Contudo, há uma certa visão do mundo, a valorização - ou não - de certos pormenores, a prevalência ou prioridade que se dá a certos princípios sobre outros, que separa incomensuravelmente um crente de um ateu, de uma forma que não separa um judeu de um muçulmano, um evangélico de um animista, ou um budista de um sikh. De uma forma ou de outra, todos - com exceção do ateu - crêem na continuidade da vida depois da morte, e que o Bem que se faça será recompensado.

As prioridades são, por isso, forçosamente diferentes, bem como os princípios prevalecentes. Alguém que não acredite num futuro para além desta existência dificilmente se poderá conformar com a privação, o sofrimento ou o despojamento - mesmo que voluntários - em nome de que se estará a "fazer o Bem", e que este será, mais tarde, adequadamente recompensado. "E de que te serve isso?" - perguntarão. De facto, a partir de certo ponto, o fosso é inultrapassável - as diferenças são profundas demais. Ciente desse fosso, a Maçonaria Regular mantém como Landmark a crença no Grande Arquiteto de Universo, e fá-lo a meu ver por três razões distintas. 

Em primeiro lugar, por uma questão formal: os Landmarks são considerados algo de inamovível que ninguém tem a legitimidade de alterar. Alterar a interpretação de um Landmark - como foi feito ao alargar-se o conceito de Grande Arquiteto de Universo de modo a torná-lo mais inclusivo - é uma coisa; outra completamente distinta seria eliminar de todo o Landmark. Os Landmarks são, literalmente, o que marca as extremas dos terrenos; por analogia, são o que marca os limites da Maçonaria Regular. Fora destes, ou não é regular, ou não é, de todo, Maçonaria.

Em segundo lugar, porque não há necessidade: esse foi, precisamente, o caminho tomado pela Maçonaria Liberal. Esta constitui em si mesma um diferente entendimento do que é a Maçonaria - com claras diferenças face à Maçonaria Regular - como inevitável reflexo de princípios distintos, prioridades distintas e, como consequência, um ethos e uma praxis algo diferentes. A existência destas várias correntes na Maçonaria tem a virtude de permitir que uma maior diversidade de pessoas possa encontrar o seu lugar na Maçonaria se assim o desejar.

Em terceiro e último lugar, aprende-se na Maçonaria que a vida é um caminho solitário que se faz acompanhado. Solitário porque estabelecido por cada um no exercício da sua liberdade, e forçosamente diferente dos demais porque todos somos diferentes; mas acompanhado porque os Irmãos estão sempre a curta distância, disponíveis para dividir connosco as alegrias e as tristezas que o caminho nos traz, e para partilhar os ensinamentos advindos de tais situações. É, por isso, mais proveitoso, mais frutuoso, que cada um, ao aconselhar-se junto dos seus Irmãos, receba os seus conselhos na certeza de que os princípios que lhes estão subjacentes são tão próximos quanto possível daqueles que regem a sua própria existência.

Paulo M.

02 março 2011

Origem e primórdios do Rito Escocês Antigo e Aceite - Conclusão


Dedicar sete textos (com este, oito) à origem e primórdios do Rito Escocês Antigo e Aceite para quê?

Em primeiro lugar, para se saber. Conhecer o passado, visitar a História, habilita-nos a compreender o presente, a enquadrar o que vemos, o que vivemos, o que fazemos. Saber como base para refletir, para perceber, para analisar, para inferir. Não podemos planear o futuro, não conseguimos atuar eficazmente no presente, se o nosso planeamento, a nossa atuação forem deixadas ao mero acaso e sabor da inspiração, do desejo, da impressão. Conhecer o passado, saber a origem das coisas, é um lastro indispensável para nos equilibrar nas nossas ações e um auxiliar precioso para a nossa preparação do futuro. O passado é o chão onde nos equilibramos hoje e que nos proporciona a base para o impulso para o amanhã.

Em segundo lugar, para compreender. Compreender que o Rito Escocês Antigo e Aceite não resulta de nenhuma revelação divina, que foi criado, que, mais do que isso, foi fabricado, trabalhado, aperfeiçoado, fixado, por homens. Homens como nós, de carne e osso e sangue e pele e cérebro e emoções. Compreender que o Rito Escocês Antigo e Aceite, tal como hoje o conhecemos resulta de uma evolução. Compreender que essa evolução inclui uma mescla de acasos, momentos-chave, resultados inesperados, muito trabalho e idealismo, também algumas querelas. Compreender que resulta, afinal, daquilo que existe de mais precioso: a Vida! A Vida, com as suas voltas, reviravoltas, momentos fortuitos, trabalhos preparados, acertos e desacertos. Compreender que o Rito Escocês Antigo e Aceite que hoje praticamos, sendo uma obra humana e o resultado de uma longa e por vezes tumultuosa evolução, não é nada de sagrado nem de intocável, mas é algo cuja essência e forma e lição devemos respeitar. Que é o produto de muito trabalho, de muitos saberes, de muita motivação. Que, não sendo intocável nem imutável, não é para ser mudado de ânimo leve, ao sabor de uma qualquer inspiração (por muito brilhante que ela pareça), pelo acaso do acumular de más execuções, pela prosápia e negligência primas da ignorância e parentes do desleixo. Compreender que o rito que hoje e aqui praticamos é o resultado de intenso trabalho, de longa, lenta e sólida evolução, de subtil acomodação às idiossincracias de cada povo, de cada região. Compreender que há diferenças entre o que fazemos hoje e o que se fazia há cem anos, que há dissemelhanças entre o que se faz aqui e o que se pratica acolá, mas que essencialmente se faz hoje a mesma coisa que se fazia ontem e que se pratica nesta banda o mesmo que na banda de lá se faz. Compreender que as próprias pequenas diferenças fazem parte do todo. Compreender que o rito é um instrumento, uma das ferramentas que os maçons usam para o seu aperfeiçoamento e como tal deve ser entendido e usado e praticado e que as evoluções havidas, as diferenças geográficas notadas, derivam desse mesmo uso como ferramenta.

Finalmente, apreciar. Apreciar como uma obra humana resultado de mil acasos pode ser tão eficazmente bela, tão diretamente impressiva. Apreciar como muitos ontem trabalharam para nos proporcionar hoje um conjunto de mensagens que apelam ao mais fundo do que de bom há em nós e ajudam a fortalecer o nosso lado positivo e a dominar o negativo. Apreciar a execução hoje essencialmente do mesmo que se executa há mais de duzentos anos, aqui e um pouco por todo o mundo, o mesmo apesar das pequenas diferenças, o mesmo porque existem pequenas diferenças.

O Rito Escocês Antigo e Aceite é apenas um dos ritos da Maçonaria. Como os outros, é, repito, essencialmente uma ferramenta que os maçons usam no seu aperfeiçoamento. Vale a pena, acho eu, saber, compreender e apreciar o processo como nasceu e se implantou e se desenvolveu até ao que encontramos aqui e agora.

Rui Bandeira