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17 abril 2017

Os senadores


Esta é uma denominação ou classificação que não existe em Maçonaria. Coloquialmente, é uma expressão que, na nossa Loja, é usada para referir os elementos mais antigos dela. Dir-se-ia que é uma expressão desnecessária, que pode muito bem referir-se o mesmo grupo simplesmente como Mestres Instalados. Mas, em bom rigor, nem todos os Mestre Instalados são senadores da Loja e pode muito bem haver senadores da Loja que não são Mestres Instalados. 

Mestres Instalados são os Mestres da Loja que exerceram o ofício de Venerável Mestre e é aquele que, no momento, tem a responsabilidade de dirigir a Loja. A designação resulta de a tomada de posse, digamos assim, do ofício de Venerável Mestre se realizar através de uma cerimónia em que o eleito para exercer a função é instalado no assento onde toma lugar o Venerável Mestre, designado por Cadeira de Salomão. Mestres Instalados são, portanto, elementos experientes da Loja, que exerceram vários ofícios da Loja antes de serem eleitos para o de Venerável Mestre e, em consequência, terem sido instalados na Cadeira de Salomão. Mas o conceito coloquial de senadores que é usado na nossa Loja é ligeiramente diferente.

Para nós, um senador da Loja é um elemento que, pela sua antiguidade e pela sua assiduidade adquiriu uma noção de como é a Loja, como ela funciona, como ela reage, das suas virtudes e dos seus defeitos, que é reconhecida pelos demais, que, por isso mesmo, dão especial atenção aos seus conselhos e propostas para resolução de qualquer problema ou definição do rumo da Loja.

Nem todos os Mestres Instalados são reconhecidos pelos demais como senadores da Loja, porque, por vicissitudes várias, reduziram ou interromperam, durante algum tempo, a sua assiduidade na Loja, com inevitável reflexo na diminuição do seu profundo conhecimento dela e da sua evolução. 

Mas também haverá senadores da Loja que vão sendo reconhecidos como tal, apesar de não terem (ainda) exercido o ofício de Venerável Mestre. São assíduos, são participativos, conhecem a Loja a fundo. Só não exerceram (ainda) o ofício de Venerável Mestre porque tal anda não se proporcionou. E repare-se que tive o cuidado de não utilizar o conceito de Mestre... É que, por exemplo, na nossa Loja existe um Aprendiz que, por vontade própria, permanece nesse grau há vários anos, não aceitando passar ao grau seguinte... Como na nossa Loja (e deve suceder em todas as Lojas) o respeito pela individualidade dos seus obreiros é total, não há nenhum problema nisso. Periodicamente, pergunta-se a esse Irmão se é tempo de seguir adiante. Ele tem vindo sempre a responder que não. Respeita-se a sua opção e decisão. Claro que, ao fim de significativo tempo, já se brinca um pouco com isso, mas não deixa de se respeitar a opção deste nosso Aprendiz. Um dia destes, ainda criamos, só para ele, a figura de Aprendiz-Mor...! E suspeito que tempo virá em que, mesmo Aprendiz - se persistir em nesse grau permanecer - outro dia destes este "Aprendiz-Mor" adquire, por direito próprio, o estatuto de senador da Loja...

Os senadores da Loja, por tão bem a conhecerem, podem fazer-lhe muito bem, mas também podem causar-lhe grave dano. 

Serão benéficos para a Loja se derem o seu conselho, formularem a sua opinião, mas resistirem à tentação de procurarem impor os seus pontos de vista. Ao contrário do que sucede na vida militar, a antiguidade não é posto. E também não constitui garantia de se estar certo, de se ter razão. E, mesmo quando está certo, o senador deve sempre ter presente que os mais novos têm direito ao erro, que porventura até necessitarão de cometer erros, de suportar as consequências deles e de os superar. Tal como sucedeu com o senador, que seguramente não foi infalível e evidentemente que cometeu a sua quota-parte de erros.

Serão perniciosos para a Loja os senadores que, por convencimento ou falta de cautela, se derem demasiada importância a si próprios, à sua experiência, ao seu conhecimento da Loja, e insistirem em tentar impor os seus pontos de vista, as suas ideias, e busquem conduzir a Loja pelos caminhos que lhes suscitem os seus amores e os seus temores. Porque isso é arrogar-se ser dono da Loja e isso a Loja não lho permite. Com ou sem experiência. Mesmo conhecendo e respeitando toda a assiduidade e dedicação.

No fundo, a questão é sempre a mesma: o principal princípio que impera na Loja é a essencial Igualdade entre todos. Podem uns iguais atentar com especial atenção em iguais mais antigos e mais experientes. Nunca - e fazem muito bem! - aceitarão anular-se ou prestar injustificada vassalagem ao senador só porque o é. Tal como um maçom só o é porque é reconhecido como tal pelos seus Irmãos, a influência do senador na Loja é apenas aquela que os seus Irmãos lhe reconheçam.

É assim que deve ser . E, senador ou não, se porventura algum dia alguém se esquecer disto, corre o risco de falar, falar, falar, convencido de que convencerá os demais a seguirem o caminho que as suas palavras iluminam e, quando se der conta, verificar que está, afinal a falar sozinho...

Rui Bandeira

10 abril 2017

O obreiro e o Grande Oficial


Sempre que um obreiro de uma Loja é eleito ou designado Grande Oficial é uma satisfação para essa sua Loja e os que a integram. Para além do mais, é um reconhecimento do valor do obreiro e esse resulta também do trabalho da Loja. Mas, assim sendo, devem ambos, obreiro e Loja, estar cientes que esta situação implica a necessidade de alguns ajustamentos, seja em termos de disponibilidade do obreiro em relação à Loja, seja sobretudo em termos de relacionamento entre o novel Grande Oficial e os demais elementos da sua Loja.

Quanto às consequências para a disponibilidade do obreiro em relação à sua Loja, dependem as mesmas do tipo de ofício  que o Grande Oficial vai desempenhar. Haverá poucos constrangimentos se se tratar de um ofício com atividade essencialmente ritual e exercida em sessões de Grande Loja. Nesse caso, o obreiro poderá manter a sua disponibilidade praticamente total para a sua Loja, pois apenas estará impedido no decurso das sessões rituais de Grande Loja e terá só que compatibilizar as suas tarefas em Loja com o estudo e preparação da sua intervenção ou atuação enquanto Grande Oficial. Já se o ofício na Grande Loja for de natureza administrativa ou implicar alguma dedicação de tempo, inevitavelmente que a participação e colaboração na Loja do Grande Oficial que assumiu esse tipo de responsabilidade se ressentirá. 

Esta necessidade de afetação de tempo ao cumprimento de ofício de Grande Oficial deve sempre estar presente no espírito do obreiro, de modo a que este salvaguarde o justo equilíbrio entre a sua disponibilidade e o cumprimento das suas obrigações e o seu desempenho, quer perante a Grande Loja, quer perante a Loja. Tocar demasiados instrumentos em simultâneo faz com que nenhum seja executado com a devida qualidade... Assim, o obreiro deve estar sempre consciente das limitações decorrentes do exercício de ofício em Grande Loja em relação à sua Loja e necessita de utilizar, mais frequentemente do que desejaria, a palavra "não". Não aceitar tarefas que, por colidirem com o ofício em Grande Loja ou com o tempo que precisa de lhe dedicar, não poderá vir a cumprir com qualidade e eficiência é imposição de bom senso. Por sua vez, a Loja e os seus responsáveis deverão ter sempre presente a limitação que impenda sobre o obreiro, resistindo à tentação de o procurar convencer a "dar um jeitinho". Quer se queira, quer não, a qualidade, o acerto ou a eficiência na execução da tarefa será sempre afetada. Ou então fica afetado o cabal desempenho ds obrigações enquanto Grande Oficial...  Pode a acumulação insensata eventualmente ser suportada, sem grande problema, durante algum tempo, com esforço acrescido do obreiro Grande Oficial. Mas, para além da injustiça que constitui a sobrecarga infligida ao obreiro, sempre se aumenta o risco de, mais tarde ou mais cedo, ele vir a falhar em algo que não falharia, não fosse essa sobrecarga.

No entanto, por muito importante que seja - e é! - a consideração da disponibilidade, a questão essencial respeita ao relacionamento entre a Loja e o seu obreiro Grande Oficial. Isto de ser Grande Oficial tem agarradas algumas implicações que propiciam desvios do correto relacionamento entre a Loja e o seu obreiro Grande Oficial. Afinal todos somos humanos e nenhum de nós é perfeito... O Grande Oficial usa um avental todo bonito, todo cheio de arrebiques e dourados (e também carote, diga-se em abono da verdade...). O Grande Oficial tem direito a tomar lugar no Oriente, ladeando o Venerável Mestre e, quando presente, o próprio Grão-Mestre. O Grande Oficial, naturalmente, é credor da cortesia de saudação específica. Tudo isso propicia a sensação de "importância", de "poder", de "autoridade", de diferença entre o Grande Oficial e os demais obreiros da Loja. Pode propiciar tudo isso, mas a Loja ou o Grande Oficial que porventura caírem numa dessas armadilhas estão a precisar de uma reciclagem sobre o seu entendimento do que é a Maçonaria e do que é ser maçom! 

A este respeito e para evitar dissabores e erros, é importante que a Loja e o Grande Oficial tenham sempre presentes dois princípios, que, sendo-o, por natureza são inegociáveis: (1) ser Oficial da Loja ou ser Grande Oficial, não é uma honra, é um serviço; (2) todos os maçons, desde o mais recente Aprendiz ao Grão-Mestre, passando por todos os obreiros que, com discrição, procuram cada dia ser um pouco melhores do que eram na véspera, são essencialmente iguais.

Ser Oficial de Loja ou ser Grande Oficial não é uma honra, não é um privilégio, não é um título. Ser Oficia de Loja ou ser Grande Oficial é, simplesmente, assegurar um ofício, uma tarefa. O Oficial de Loja não é comparável ao Capitão ou Major de uma Companhia ou Batalhão, Ser Grande Oficial não tem, em bom rigor, nada a ver com ser General de um Exército. O termo "Oficial" não tem nada a ver com nomenclatura militar. Em Maçonaria, Oficial é o que assegura um ofício, o que cumpre uma tarefa. Tão só!

Em Loja, todos, rigorosamente todos, são essencialmente iguais e como iguais são e só podem ser tratados. Eventuais deferências são devidas à função, não ao que a exerce. O Grande Oficial não tem nem mais um pingo de importância por o ser. É exatamente como era até ao momento em que começou a exercer o ofício e como será depois de o deixar de exercer. Não tem assim importância acrescida em relação aos demais obreiros. Continua a ser mais um entre todos e é assim que deve ser e que se deve sentir confortável. A sua palavra tem o mesmo peso que tinha antes de ser Grande Oficial, tem a mesma importância do que a de qualquer outro Mestre da Loja.

O obreiro pode ser Grande Oficial. Mas na sua Loja é apenas - e tanto é! - mais um igual entre iguais. Na sua Loja, o Grande Oficial pode usar um avental todo apinocado, pode sentar-se no Oriente, pode tudo isso. Mas continua a ser, a dever comportar-se e a ser tratado da única forma que faz sentido sê-lo na sua Loja: como um Irmão, mais um do grupo, mais um entre todos. E muito isso é! E sobretudo é o que interessa!

O obreiro pode ser Grande Oficial. Mas, antes de tudo, acima de tudo, mais importante do que tudo, continua a ser um obreiro da sua Loja.   

Rui Bandeira

13 março 2017

A crise da Loja

Li já há algum tempo que um maçom americano, académico, efetuou um estudo sobre a Maçonaria europeia e as suas Lojas, tendo concluído, além do mais, que as Lojas maçónicas europeias, independentemente da respetivas Obediências e ritos praticados, tinham tendência a atravessar crises significativas a intervalos entre cerca de 25 a 35 anos. Mais  concluía o dito investigador que essas crises que assolavam as Lojas europeias ou não eram superadas e a Loja abatia colunas, ou eram superadas e a Loja reforçava-se na sua solidez.

Não recordo já quem foi esse académico maçom e porventura haverá razão para esse esquecimento, pois, com todo o respeito pelo trabalho de investigação, tratamento de dados e análise que terá tido, estas suas conclusões não se me afiguram serem estrondosa novidade nem incrível descoberta, antes puro e simples senso comum. O que, no entanto, não retira valor ao trabalho efetuado, pois, pelo menos, tem a virtude de alertar para a questão. O facto de algo ser de senso comum não significa que se esteja atento a isso...

Para mim, é pura questão  de senso comum que, ocorrendo uma crise numa Loja (e já agora, em qualquer organização social humana...), das duas, uma: ou a crise não é superada e a Loja (a estrutura social) chega ao seu fim, não tendo mais condições para prosseguir a sua atividade, ou é superada e essa superação resulta num reforço da solidez da Loja (estrutura social). Já há muito que diz o Povo, na sua proverbial e secular sabedoria, que o que não mata, engorda!

Quanto ao estabelecimento da existência de crises em ciclos de 25 a 35 anos, bem vistas as coisas também não é fator de grande admiração, sendo mesmo evidente a causa de tal: a transição geracional.

Que existe uma relação de simbiose ente a Loja e os respetivos obreiros, geradora de modificações na Loja e em cada um dos obreiros, já o tinha mencionado no texto O outro termo da equação. Que as opções organizativas e de funcionamento de Loja determinam a sua evolução, também o mencionei no texto Da diferente evolução das Lojas. Resta consignar que um importante fator na evolução das Lojas é a transição de gerações.

A caraterística diferenciadora da transição geracional em relação aos outros fatores de evolução de uma Loja é que, enquanto os demais decorrem em harmoniosa, lenta e mesmo impercetível, ou quase, mudança, aquela propicia ou impõe uma potencial abrupta correção  do paradigma da Loja.

A Loja consolida-se num grupo, mais homogéneo ou heterogéneo, também em termos de idades. Cria os seus hábitos, as suas rotinas. Estabelece os seus princípios e fixa os seus objetivos. Qualquer problema é resolvido tendo em conta esses princípios, hábitos, rotinas e objetivos. O padrão é harmonioso e durável. Até ao momento em que porventura deixa de o ser... O que mudou? Em bom rigor, nada. Ou, se preferirmos, tudo! O fator de mudança, de possível estabelecimento de crise, de fixação de patamar a ser superado, de mudança a ser efetuada de forma mais abrupta do que se estava habituado é bem conhecido de todos nós. Tão bem conhecido, que até nos esquecemos dele: a passagem do tempo!

Num dado período, os problemas são resolvidos de determinada forma e tudo vai bem. Mas, 25 a 35 anos passados, de repente verifica-se que os problemas de agora são diferentes dos de antes, que a forma de lidar e trabalhar da Loja, que antes foi eficaz, que ao longo do tempo foi satisfatória, agora já não satisfaz. Porventura os problemas são os mesmos ou de idêntica natureza, mas agora apresentam-se de forma diferente ou necessitam de uma diferente rapidez na sua resolução. Ou a simples evolução do mundo e do ambiente social, e das tecnologias, e da sociedade, tornam obsoletamente ineficaz o que antes fora remédio acertado. 

Em dado  momento, com surpresa, a Loja apercebe-se que os seus hábitos, as suas rotinas, as suas formas de lidar com as situações não obtêm já os mesmos resultados positivos de anteriormente. No entanto, a evolução desde há anos e anos foi harmoniosa. Muitos dos que ajudaram a estabelecer as rotinas, os hábitos, os procedimentos, continuam a ser preciosos e respeitados elementos da Loja. Os que se lhes foram juntando integraram-se harmoniosamente e foram dando a sua contribuição para a paulatina, normal e expectável evolução da Loja. Nem sequer se pode, honestamente, dizer que se faz agora como se fazia há 25 ou 35 anos. Mudanças e evoluções naturais foram ocorrendo. Os mais novos integraram-se no que os mais antigos construíram. Os mais antigos foram evoluindo com os mais novos. Como se explica que se descubra agora um desfasamento? 

A resposta está na paulatina e imperturbável passagem do tempo e na erosão que esta causa nas pessoas e nas estruturas. Aqueles que há 25 ou 35 anos foram os pilares da Loja hoje já não o são, já deram o lugar na primeira fila a outros. Onde antes decidiam e assumiam responsabilidades, agora assistem e limitam-se a aconselhar. E, se não for assim, se o poder de decisão e de execução ainda neles reside, então o problema da Loja é bem pior! 

Agora a Loja é dirigida por outra geração de homens bons que pretendem tornar-se melhores. Utilizam as regras e os procedimentos que encontraram, que aprenderam, que, aqui e ali, foram sendo naturalmente modificadas. Mas não são as suas regras. São as que receberam. Adaptaram-se a elas. Mas, em maior ou menor medida, a evolução delas não logrou acompanhar a diferença que a sua geração faz em relação à anterior, em sintonia com a evolução da Sociedade, do mundo e da técnica. Agora são eles que dirigem, mas o volante e o assento não estão ergonomicamente adaptados a si - ainda estão feitos à imagem e semelhança da geração anterior.

O problema é que a geração anterior ainda aí anda. E é respeitável e respeitada. Afinal, tem muito mais anos disto do que a atual. E criou e manteve as regras que serviram a Loja durante muitos anos. E pensa e defende que o que antes foi bom para a Loja não há razão para não continuar a ser bom agora.

O dilema é que agora a responsabilidade é de outra geração. Que respeita e considera os mais antigos. Que compreende as regras que estabeleceram e em que se integraram. Mas que não se sente já confortável nelas. Sobretudo que vê não terem elas a mesma eficácia que tinham. Que concluiu que alguma coisa tem de mudar para que a Loja possa continuar a ser essencialmente a mesma auspiciosa realidade em que, gostosamente, entraram.

Que periodicamente esta questão se ponha na Loja não é nada de admirar. É a vida a decorrer. Simplesmente. Por muito cordata e harmoniosamente que se tenha processado a evolução, chega sempre um momento que não basta evoluir, que há um degrau a vencer, uma mudança a fazer, em que a evolução em tudo não chega, em que se tem de inventar e fazer diferente e novo. E em que convivem elementos que criaram o que há e a quem lhes custa que se mude o que com eles resultou com novos obreiros que veem que há mudanças a fazer e têm a tendência de mudar tudo, por vezes pondo desnecessariamente em causa algo que vem de trás.

A crise necessariamente que chega quando ocorre a transição geracional. Para a resolver satisfatoriamente é imperioso que uns aceitem que nem tudo o que com eles funcionou bem continua a ser suscetível de bem continuar a funcionar e que os outros interiorizem que nem tudo o que vem de trás está obsoleto e ultrapassado, que mudar não é fazer tábua rasa do que existe, antes aproveitar do que há o que é útil que continue, modificar o que convenha ser modificado e introduzir de novo o que seja útil que de novo se acrescente.

Com Sabedoria na atuação, Firmeza, que é Força, nas escolhas e Elegância, que é Beleza, no trato, a Loja consciente do desafio enfrenta-o, muda o que tem a mudar, conserva o que tem a conservar, honra os mais antigos pelo que fizeram e continua a beneficiar da sua experiência e prossegue nas novas bases que os novos tempos, os novos hábitos, as diferentes circunstâncias aconselham.

A Loja que o não souber fazer inevitavelmente que definha, declina, progressivamente vê as suas colunas minadas até ao momento em que elas abatem. A Loja que souber reconhecer a sua crise e as suas causas e lograr efetuar as mudanças necessárias, sem ser contra ninguém, mas com todos colaborando no essencial, essa, sim, fortalece-se e prossegue galhardamente... por mais 25 ou 35 anos, até se voltar a pôr em causa e se reformular de novo.

O académico Irmão americano estabeleceu isto. Mas - digam-me lá! - bem vistas as coisas é ou não questão de simples bom senso?

Rui Bandeira

06 março 2017

Da diferente evolução das Lojas


Um aspeto que é importante na vivência maçónica é a visitação, isto é, a comparência, assistência e, se o desejar, intervenção de um maçom de uma Loja em sessão de outra Loja. Ao visitar outra Loja, ainda que da mesma Obediência e cidade, embora ambas trabalhando no mesmo rito e utilizando precisamente o mesmo ritual, o maçom apercebe-se de discretas diferenças entre o que a Loja visitada faz e o que a Loja que integra pratica. Se esse maçom continuar a visitar a mesma Loja em várias sessões, aperceber-se-á inevitavelmente que existem diferenças de cultura entre ambas as Lojas, a visitada e a sua. Diferenças porventura ao nível da forma de debater as questões, ou da tomada de decisões, ou ao nível da instrução dos Aprendizes e Companheiros, ou da autonomia dos Oficiais do Quadro, ou ao nível de um sem-fim de aspetos. Reconhece a Loja que visita como uma Loja maçónica similar à sua. Verifica que, na essência, são da mesma natureza e prosseguem a mesma finalidade. Mas a forma como o fazem, como traçam e seguem os respetivos caminhos, são diferentes. Em suma, facilmente verifica em cada uma é diferente em relação à outra naquilo que comummente os maçons designam como o projeto da Loja.  

Fazer essa verificação, adquirir essa noção, é intrinsecamente bom para o maçom. Verifica assim diretamente que não há uma única maneira de fazer as coisas, que se pode agir corretamente de variadas formas, aprende que a sua Loja, por ser a sua, não é a detentora do segredo da perfeição na atuação maçónica. 

Mas afinal como se processa o mecanismo que faz com que grupos de pessoas partilhando os mesmos objetivos, prosseguindo os mesmos propósitos, utilizando o mesmo método, acabem por acumular diferenças, umas mais subtis, outras mais evidentes, ao ponto de ser possível detetar verdadeiras diferenças na cultura de cada Loja?

A resposta é simples: a causa está em nós, em cada um de nós e em todos os integrantes de cada Loja. Cada um de nós é diferente, dentro da nossa essencial igualdade. O conjunto de maçons de cada Loja necessariamente que é diferente do de outra Loja. Essas diferenças vão-se traduzir em posturas, escolhas, hábitos, relações com leves ou mais acentuadas diferenças. O conjunto de caraterísticas dos elementos de uma Loja, das respetivas interações, práticas e hábitos individuais e coletivos, formas de trabalhar, de preparar, de organizar, de executar, vai estabelecer o quadro de cultura de cada Loja.

Um hipotético exemplo: duas Lojas, da mesma Obediência, trabalhando o mesmo rito, reunindo na mesma cidade, estabeleceram duas práticas diferentes em relação a um aspeto rotineiro da Loja. Uma apenas admite a inquéritos para Iniciação e, se aprovados, a provas de Iniciação, elementos que sejam conhecidos e das relações dos obreiros da Loja; a outra admite iniciar candidatos que tenham manifestado o propósito de serem iniciados maçons em contacto com a Loja, ainda que não sendo pessoas das relações de nenhum dos obreiros dela, embota tenha estabelecido um mais completo e cauteloso processo de análise, de forma a proteger-se de mal-intencionados, arrivistas e oportunistas.

A primeira Loja ganhará em coesão o que perde em diversidade. Tendencialmente, cresce e evolui em segurança, sem grandes surpresas nem clamorosos erros de casting, mantendo um conjunto de obreiros com caraterísticas, posturas, origens e estatutos sociais semelhantes e semelhantes formas de ver a vida. Mantém-se um grupo de amigos que se alarga. Tem tendência a fechar-se na sua zona de conforto. O que fizerem fazem bem, em conjunto, mas terão pouca apetência para inovar e arriscar.

A outra, porque aceita e integra estranhos aos seus elementos, arrisca muito mais. Ganha em diversidade, mas tem que construir mais laboriosamente a coesão que conseguir criar. Está sujeita a mais erros de casting, mas aprende a lidar com eles e a superá-los sem dificuldades de maior. Progressivamente vai alargando as origens sociais e profissionais dos seus elementos. Tem uma maior diversidade de pensamentos e de posturas em relação à vida e a todos os seus aspetos, opções políticas e religiosas incluídas. Tem tendência a arriscar, a atirar-se para fora de pé. Por vezes terá agradáveis sucessos. Outras suportará falhanços. Facilmente terá dois, três ou quatro projetos em preparação ou execução, divididos por vários grupos de obreiros da Loja. Convive muito bem com a diferença. Aprende a tirar partido dela. Terá períodos muito gratificantes e períodos de desorientação, pois o seu potencial criativo está no mesmo plano que o seu potencial de desorganização. Será tudo menos aborrecida, mas pagará o preço de ser por vezes inconsequente.

Vejamos outro exemplo: uma Loja definiu uma linha de sucessão para a sua liderança e segue-a, não tendo lutas eleitorais. Outra, pelo contrário, pratica a democracia pura e dura, periodicamente se confrontando candidaturas e efetuando escolhas. 

A primeira tem a vantagem de poder programar a prazo mais dilatado. Não gasta tempo nem energias a sanar diferenças nem diferendos com origem em pugnas eleitorais. Mantém uma certa continuidade no estilo da sua liderança. A transição geracional é mais suave, mas muito mais prolongada. Quem chega tem de esperar pela sua vez. A evolução da Loja tem tendência a ser lenta, reproduzindo esta os hábitos consolidados. Ganha em estabilidade o que perde em capacidade de adaptação rápida às mudanças.

A outra está mais sujeita a conflitos, a cisões, a perdas de tempo com a gestão e ultrapassagem das sequelas dos confrontos eleitorais. Tem tendência a súbitas mudanças de estilo de liderança. Faz fáceis, rápidas e, mesmo, abruptas transições geracionais. Chama à liderança os elementos que mais se destacam. A evolução da Loja tende a ser rápida, com mudanças frequentes de hábitos, estilos e posturas. Ganha em capacidade de adaptação o que perde em estabilidade.

E muitas outras variantes existem, combinando-se e recombinando-se, de forma a gerar verdadeiras idiossincrasias típicas de cada Loja.

Cada Loja é diferente, funciona de forma diferente e evolui de forma diferente. Cada Loja comporta-se e efetivamente é uma uma família diferente das demais. Mas, tal como as famílias biológicas educam as suas crianças e jovens e fazem deles adultos válidos, tendo cada família a sua individualidade própria, com as respetivas tradições, os seus hábitos e as suas formas de lidar com as situações, assim também cada Loja ajuda à melhoria de cada um dos seus obreiros, segundo as tradições que estabeleceu, os hábitos que criou e a sua respetiva forma de trabalhar.

Rui Bandeira

20 fevereiro 2017

O outro termo da equação


A afirmação de que o que se busca na Maçonaria é o aperfeiçoamento individual através da interação com a Loja transcrita para linguagem matemática seria qualquer coisa como Maçom + Loja = Aperfeiçoamento.

O primeiro termo da equação, o Maçom, é abundantemente tratado nos escritos, nos seus mais variados aspetos. É natural: os maçons que escrevem sobre Maçonaria integram eles próprios o primeiro termo da equação, conhecem-no literalmente por dentro e por fora, é mais fácil escrever sobre o que se conhece, analisar o que o próprio sente, definir os objetivos que o próprio anseia.

Mas, para que a equação funcione, exista realmente, é indispensável a presença e o efeito do seu segundo termo: a Loja. É a Loja que é o ponto de confluência de todos os obreiros, onde todos levam as suas idiossincrasias pessoais, mas também os seus esforços, preocupações e anseios. É no confronto de tudo aquilo que se junta e partilha na Loja que cada um escolhe e retira os materiais e as ferramentas que utilizará no seu próprio desbaste. Ser maçom só faz plenamente sentido se e quando integrado em Loja. Aí, sim, o método disponível para ao aperfeiçoamento individual concretiza-se. Maçom e Loja completam-se e mutuamente se influenciam.

Há muita matéria escrita sobre o primeiro termo da equação, o maçom. Sobre o segundo termo dessa equação, a Loja, os elementos disponíveis são muito menos. Não é só por ser mais fácil escrever sobre o maçom do que sobre a Loja. É também porque, se bem virmos a coisa, a relação entre o maçom e a Loja é similar ao que, dizem os entendidos no assunto, sucede no âmbito da física quântica: o observador, pelo simples facto de observar o fenómeno, altera esse fenómeno. 

Efetivamente, o maçom integra-se numa Loja. É influenciado por ela, mas também ele próprio a influencia. O simples facto de o maçom observar, analisar, efetuar juízo crítico sobre a sua Loja, faz com que, seja a sua análise melhor ou pior, seja o resultado dela mais ou menos agradável, altere a perceção que dela tinha. E, ao tal suceder, inevitavelmente que se modifica, quiçá impercetivelmente, a sua relação com a Loja e, assim, a forma como a Loja o influencia, mas também a sua própria influência sobre a Loja. O simples facto de observar a Loja resulta na modificação da Loja observada, tal como na modificação do próprio observador. Mudanças insignificantes, impercetíveis, talvez. Mas estão lá, ficam lá, interagem com outras subtis modificações. Assim evolui o maçom. Assim evolui a Loja. Assim evoluem ambos.

Esta relação mutuamente influenciadora entre o maçom e a sua Loja deve alertar-nos para a necessidade de não nos concentrarmos apenas no primeiro termo da equação, o maçom, isto é, nós - apesar de ser esse, de sermos nós, o objetivo principal -, mas também não descurar a atenção no segundo termo da equação, a Loja.

Não nos enganemos: a Loja não são as paredes dentro das quais nos reunimos. Não são os adereços que nos rodeiam. Não é o mero ambiente que criamos. Nem o conjunto de lições que aprendemos. A Loja é, somos, o conjunto de maçons que nela se integram. A Loja não é ELA. A Loja é NÓS.  A Loja, sendo algo diverso de nós, é algo de que nós fazemos parte, que nós influenciamos e que nos influencia.

O maçom deseja aperfeiçoar-se. É meritório. Ao fazê-lo, está a cuidar de si. Mas o maçom sabe que a sua tarefa só plenamente se executa se em consonância, em interação, com sua Loja. Assim sendo, o mínimo de bom senso manda que também se preocupe com a sua Loja, com o bom estado dela. E, repito, o que aqui menos importa são as paredes, a decoração ou os artefactos. O que importa, a essência da Loja, são os seus obreiros. Um a um. Todos. O conjunto de todos. A influência de cada um sobre cada um e sobre todos e a influência de todos sobre cada um.

Observar, estudar, a dinâmica da Loja, procurar determinar o estado dela, as correções que nela porventura haja a fazer, o contributo que relevantemente a ela possamos dar, é tarefa que o maçom não deve, não pode descurar. É uma tarefa ciclópica, eu sei! Parece, muitas vezes, uma tarefa impossível, de tal forma se nos afiguram insignificantes os resultados que a nossa ação individual é suscetível de obter, também o sei. Mas a colmeia vive e cresce graças ao aparentemente insignificante resultado do trabalho de cada uma das suas abelhas...

O maçom que aprendeu a sê-lo não esquece que tem de zelar pelos dois termos da equação. Porque o resultado individual depende do coletivo. Porque o coletivo depende do individual, mas também influencia o individual. Ao zelar pelo bom estado da sua Loja, o maçom está simultaneamente a melhorar-se a si próprio. Ao melhorar-se a si próprio, está a contribuir para a melhoria da sua Loja.

Bem vistas as coisas, sim, a relação entre o maçom e a sua Loja é como a física quântica: parece muito difícil, aparenta ser muito inacessível, mostra-se muito esotérica, mas o que é preciso é afinal apenas trabalho e bom senso!

Rui Bandeira 

04 julho 2016

A identidade da Loja


Cada Loja maçónica adquire ao longo do tempo uma identidade própria, que a distingue, sem dificuldades, das restantes. Essa identidade começa a construir-se pelas circunstâncias do seu aparecimento (Loja essencialmente com obreiros oriundos de outra Loja: decisão consensual ou conflitual?; Loja de caráter genérico ou Loja criada com um objetivo específico? Loja criada a partir de um grupo coeso que se expandirá normalmente ou Loja de implantação numa zona, cujos fundadores a virão a abandonar quando estiver implantada e firme?), prossegue com a forma como se relacionam os seus elementos (relações de amizade ou cordiais ou existência de tensões que vão sendo dirimidas e aplainadas?) e com a forma como é gerida a Loja e efetuadas as escolhas que tiverem de ser tomadas (Loja habitualmente coesa ou Loja com grupos estabelecidos que se vão confrontando e sucedendo nas tomadas de decisão)?

A forma como a Loja adquire e molda a sua identidade determina a sua maior ou menor aproximação ao arquétipo modelar de uma Loja maçónica: espaço de harmonia, de tolerância, de cooperação, de mútuo auxílio e propiciatório do crescimento e aperfeiçoamento individual de todos e cada um dos seus obreiros. Não tenhamos ilusões: não há Lojas maçónicas perfeitas, tal como não há maçons perfeitos (se o fossem, não precisavam de se aperfeiçoar, logo não eram maçons...). Mas cabe a cada maçom e a cada conjunto de obreiros agrupado numa Loja permanentemente trabalhar para que a sua Loja se aproxime o mais possível do desejado arquétipo.

Vários caminhos, várias formas, vários estilos podem ser e são utilizados nessa busca. Não há fórmulas mágicas nem pretensas unicidades. Cada Loja, em função da sua circunstância, vai adquirindo a sua identidade, estabelecendo a sua forma de trabalhar, o seu estilo de se gerir, a abordagem que mais lhe convém para melhorar e tornar melhores os seus obreiros. É isso que eu designo por identidade de cada Loja. 

Essa identidade vai-se estabelecendo naturalmente, no bom, no assim-assim e no menos bom que ocorrer e gradualmente a Loja vai ganhando caraterísticas próprias, facilmente adotadas pelos seus obreiros e identificadas pelos seus visitantes. 

Questão essencial para o estabelecimento da identidade de uma Loja é a da escolha da sua liderança. A identidade da Loja Mestre Affonso Domingues assenta, quanto à escolha da sua liderança, em três vetores que lhe são essenciais:

1) Não há nela luta ou querela quanto à questão da sua liderança: ressalvada a ocorrência de (sempre possível) qualquer imponderável que o impeça, o Primeiro Vigilante de um ano é o Venerável Mestre do ano seguinte, e ponto final parágrafo! Todos os anos a eleição do Venerável Mestre da Loja Mestre Affonso Domingues é uma mera formalidade, escrupulosamente cumprida nos termos regulamentares! (Quem quiser  saber ou recordar a origem deste princípio identitário da Loja, procure e leia neste blogue o texto A eleição do Terceiro Venerável Mestre).

Com este princípio identitário não se perde tempo em lutas estéreis, não se formam artificialmente grupos, não se estabelecem quezílias. Acordos e desacordos estabelecem-se e discutem-se em relação a opções a tomar, a tarefas a realizar, a projetos a desenvolver. Isso, sim, debate-se o tempo que for preciso até se nos tornar evidente qual o melhor (às vezes, qual o menos mau...) caminho a seguir. Porque não perdemos tempo em questiúnculas de (ilusório!) poder, podemos mais utilmente gastá-lo a debater o que vamos e como vamos fazer.

2) Cada Venerável Mestre é eleito para exercer um ano de mandato e depois dá lugar a outro.

O Regulamento Interno da Loja prevê a possibilidade uma (única) reeleição para um segundo mandato, por maioria qualificada. Mas esta é uma possibilidade ali colocada apenas em face da eventualidade de sobrevir um "dia de chuva" tal que nos obrigue a recorrer ao guarda-chuva de uma excecional reeleição. O exercício do ofício de Venerável Mestre por um ano e basta tem duas evidentes vantagens: todos os obreiros interessados e intervenientes na Loja exercem, a seu tempo, o ofício de Venerável Mestre; não se sacrifica demasiado ninguém, pois, como todos os que se sentaram na Cadeira de Salomão sabem, exercer este ofício permite ao seu titular duas alegrias: a primeira quando é instalado para exercer o ofício, a segunda quando (finalmente, ao fim de um loooongo ano...) vê instalado o seu sucessor e é aliviado da responsabilidade de dirigir a Loja.

3) O Segundo Vigilante de um ano é o Primeiro Vigilante do ano seguinte.

Este princípio identitário é crucial, pois impede que se criem cliques de direção da Loja, impedindo o Venerável Mestre recém-eleito de ser ele a escolher o seu sucessor. Com efeito, o Primeiro Vigilante é (ver princípio identitário 1) o sucessor natural do Venerável Mestre e, consequentemente, não deve ser por ele escolhido, ao contrário da esmagadora maioria dos demais Oficiais da Loja - as exceções são o Tesoureiro (eleito) e o Guarda Interno (que, salvo os inevitáveis imponderáveis é o Ex-Venerável do ano anterior). O Venerável Mestre, na Loja Mestre Affonso Domingues tem o dever de designar para Primeiro Vigilante o Segundo Vigilante do ano anterior, que foi escolhido para essa função pelo seu antecessor, com a expectativa do próprio, do Venerável Mestre que o nomeou e de toda a Loja, de ser no ano seguinte Primeiro Vigilante e , no subsequente, Venerável Mestre. Assim não proceder, para além de ser uma condenável forma de se arrogar o direito de escolher o seu sucessor, seria uma tremenda falta de respeito pelo seu antecessor, uma forma de lhe dizer meu caro, foste um palerma, fizeste uma má escolha para Segundo Vigilante, eu é que vou ser o Cavaleiro Branco que vai emendar o teu erro e escolher o homem certo para o lugar certo... O incumprimento deste princípio identitário da Loja abriria uma Caixa de Pandora de consequências imprevisíveis, correndo-se o risco de deitar a perder tudo o que a Loja foi e construiu ao longo de mais de um quarto de século: uma vez que alguém se arrogue o direito de escolher o seu sucessor (exceto quando o Segundo Vigilante, por qualquer razão, renuncie a exercer o ofício de Primeiro Vigilante - sucedeu recentemente e o problema resolveu-se aberta e consensualmente), cai pela base a confiança no princípio de que o Primeiro Vigilante de um ano é o Venerável Mestre do ano seguinte e cai-se, para o futuro, na pura e dura pugna eleitoral. A partir daí, a Loja não seria mais a mesma, teria perdido a sua identidade, deixava de ter a questão da escolha do seu líder como uma pacífica e natural sucessão de obreiros, passava a ter anualmente de resolver o problema de dirimir disputas eleitorais entre obreiros. A partir de então, a Loja poderia conservar a designação de Loja Mestre Affonso Domingues, mas não seria mais a Loja Mestre Affonso Domingues, seria uma mera caricatura dela!

A Loja Mestre Affonso Domingues é o que é porque, pura e simplesmente, nunca admitiu que no seu seio a questão da escolha da sua liderança fosse um problema ou sequer um fator de temporária desestabilização. Ao longo de mais de vinte e cinco anos, nunca tivemos uma disputa eleitoral, nunca tivemos de apanhar os cacos decorrentes de uma luta dessa natureza. Conseguimos e soubemos identificar, estabelecer e aplicar as condições necessárias e suficientes para tal, os três princípios identitários que atrás enunciei. O preço de abandonar qualquer deles seria muito elevado, seria a senda para mudar a Loja Mestre Affonso Domingues que construímos, de que gostamos e em que nos sentimos bem noutra coisa qualquer. Tão simples como isso!   

Estou há longos anos na Loja, há já um tempo significativo que vou escrevendo neste blogue, procuro deixar nele registada a Memória da Loja, conhecimento do passado que serve de lição, guia e inspiração para o futuro. Mas nada na vida é eterno nem definitivo - um dia, não sei quando, necessariamente que deixarei de escrever aqui, inevitavelmente deixarei de estar na Loja. Por isso me apeteceu hoje deixar esta mensagem, este testemunho, para ilustração presente e para memória futura.

Talvez este seja porventura o texto mais importante para a Loja Mestre Affonso Domingues que publiquei neste blogue!

Rui Bandeira

06 junho 2016

O trabalho fora de Loja: Segundo Vigilante


Ao Segundo Vigilante de uma Loja maçónica compete, além do exercício das funções rituais, a coadjuvação do Venerável Mestre na administração da Loja, em conjunto com o Primeiro Vigilante, e, sobretudo, a superintendência no trabalho e na formação dos Aprendizes.

Quanto ao seu papel na administração da Loja, se nele falhar ou executar deficientemente, tal implicará uma sobrecarga do Venerável Mestre (que terá de suprir a falta ou a deficiência no auxílio) e, sobretudo uma quebra ou uma deficiência na planificação e execução de longo prazo da atividade da Loja. Não é por acaso que, pese embora a Loja delegue a responsabilidade e o poder de decisão no Venerável Mestre, se refira que a administração do grupo recai sobre as "Luzes da Loja", ou seja, no conjunto composto pelo Venerável Mestre e os dois Vigilantes. Porque tendencial - e desejavelmente - estes três Oficiais da Loja cumprem uma linha de sucessão na direção da mesma, a boa cooperação entre esta tríade, independentemente das alterações concretas dos elementos que nela se integram, permite um desenvolvimento harmonioso, a longo prazo, do trabalho da Loja. O Segundo Vigilante tem dois anos para se preparar para o exercício do ofício de Venerável Mestre. O Venerável Mestre pode iniciar ou prosseguir projetos de longo prazo, com o conhecimento e a participação dos seus Vigilantes, sabendo que eles estarão aptos a dar continuidade aos projetos e a inserir neles, se necessário, as modificações que se mostrem aconselháveis.

Mas o principal objetivo, a principal tarefa, do Segundo Vigilante é assegurar o acolhimento, a integração e a preparação dos Aprendizes. E essa tarefa, para ser bem executada, não pode ser deixada apenas para os dias de sessão. O Segundo Vigilante tem de ter disponibilidade, interesse e organização para acompanhar individualmente cada Aprendiz.

Quando é iniciado numa Loja maçónica, o novel Aprendiz, por regra, entra num grupo em que conhece muito poucos elementos (por vezes só um ou dois), com regras estabelecidas que inicialmente desconhece e cujo conhecimento tem de adquirir em simultâneo com o seu cumprimento, e com uma ligação forte entre os seus elementos. Sente-se um estranho, um peixe recém-entrado num aquário já bem povoado... Para que a sua integração no grupo ocorra rápida, fácil e harmoniosamente, é importante o apoio do Segundo Vigilante. É este quem deve dar as primeiras indicações, os primeiros esclarecimentos, ao novo elemento, quem deve zelar pela rápida e tranquilizadora integração do novo "peixe" na segurança do "cardume" dos Aprendizes, com ele e nele tomando conhecimento dos "meandros do aquário".

Paralelamente à integração dos novos elementos, compete ao Segundo Vigilante coordenar a sua formação. Afinal de contas, Aprendiz é para aprender... Esta tarefa é complexa a vários títulos. Desde logo, porque naturalmente haverá Aprendizes em vários estádios de integração e formação, havendo que corresponder às necessidades de cada um de forma individualizada. As necessidades de integração e de auxílio na formação de um Aprendiz recém-iniciado são, naturalmente, diversas de um outro que já leva alguns meses de integração ou de um terceiro que tem já a sua primeira fase de preparação quase terminada e que ultima a elaboração e apresentação da sua prancha de proficiência ou que, apresentada esta, aguarda a oportunidade para o seu aumento de salário.

Mas também há que ter noção que coordenar a formação de um grupo de Aprendizes maçons não tem rigorosamente nada a ver com lecionar uma turma de jovens estudantes. Os Aprendizes maçons serão Aprendizes, mas são homens ativos, alguns homens maduros, em pleno auge das suas carreiras profissionais ou já na fase mais avançada dela, com famílias constituídas, responsabilidades que asseguram, filhos que educam e guiam. São Aprendizes, mas não são - longe disso! - meninos! O tempo em que aprendiam ouvindo as preleções do "sôtor" já é para eles passado, para alguns já longínquo. 

O Segundo Vigilante tem de coordenar a formação do conjunto de Aprendizes, normalmente heterogéneo, em termos de idade, de experiências de vida, de formações académicas, profissionais e culturais e em diferentes estádios de desenvolvimento na aprendizagem da Arte Real. Mas, com todas estas diferenças, são, Aprendizes e Vigilante, essencialmente IGUAIS. Não há qualquer relação de superioridade, nem intelectual, nem académica, nem de responsabilidade. A única coisa que diferencia o Vigilante dos seus Aprendizes é tão só a experiência em Maçonaria que aquele adquiriu e que tem a obrigação de ajudar a que estes adquiram.

A tarefa de coordenar a formação dos Aprendizes não é, pois, fácil. Cada Vigilante terá de a desempenhar por si, em função das suas circunstâncias, das suas disponibilidades, das suas capacidades, das caraterísticas do grupo e dos indivíduos que lhe cabe coordenar. 

Não há, assim, um modelo único de formação que se possa aconselhar. Nem sequer um único método a seguir. No entanto, pode-se sugerir um plano e um método de formação que - sempre sujeito e aberto às adaptações e alterações que cada Vigilante entender necessárias e justificadas - se entende adequado para atender às diferenças do grupo de Aprendizes e apto a captar e manter o interesse de gente por vezes já altamente formada e especializada nos respetivos campos profissionais e que, assim, não está propriamente na disposição de regredir aos seus tempos de polidores dos bancos da escola.

Sugiro que, no início das suas funções, no dealbar do ano maçónico, o Segundo Vigilante selecione até sete temas, não mais, que constituirão a base da formação de Aprendizes nesse ano. Uma hipótese (entre muitas e variadas) pode ser, por exemplo:

1) HISTÓRIA DA MAÇONARIA
2) SÍMBOLOS DO GRAU
3) VALORES MAÇÓNICOS
4) RITUAL DE INICIAÇÃO
5) O MAÇOM PERANTE O CRIADOR
6) O MAÇOM PERANTE SI PRÓPRIO
79 O MAÇOM PERANTE A SOCIEDADE

Repare-se que cada um destes temas é suficientemente amplo e aberto para ser abordado, tratado, desenvolvido, de uma miríade de diferentes maneiras. É esse o objetivo! Não se vai ensinar nada a ninguém, muito menos um pensamento único ou uma visão "correta". Como homens livres e de bons costumes que são, com a maturidade que lhes foi reconhecida como apta a integrar a Loja, os Aprendizes não precisam de ser ensinados, de receber lições. Apreciarão, pelo contrário, enquadramento e meios para que cada um aprenda o que quiser, pelo ângulo que entender, com a perspetiva que achar melhor.

A cada tema corresponderá um ciclo de trabalho de duas sessões e um desenvolvimento.

Para a primeira sessão de cada ciclo, o SEGUNDO VIGILANTE deve ter identificada e preparada (desejavelmente em ficheiros informáticos para serem disponibilizados aos Aprendizes) bibliografia sobre o tema, nos vários aspetos e abrangências dele, tão variada quanto possível - cinco a dez obras ou trabalhos.

Na primeira sessão do ciclo, o Segundo Vigilante deve introduzir o tema, designadamente chamando a atenção para os aspetos mais importantes nele, os subtemas ou questões que acha que serão importantes que os Aprendizes sobre eles debrucem a sua atenção. Deve indicar a bibliografia, de preferência chamando a atenção para diferentes formas de tratar o tema ou os diferentes aspetos abrangidos pelos trabalhos disponibilizados. Deve designar um LÍDER DE DISCUSSÃO para a sessão seguinte sobre o tema. De preferência, os líderes de discussão devem ser designados por ordem de antiguidade dos Aprendizes. O LÍDER DE DISCUSSÃO fica com o encargo de preparar e dirigir a discussão sobre o tema na sessão de trabalho subsequente, escolhendo vários aspetos do tema a tratar para colocar em debate, competindo-lhe garantir que, na sessão seguinte, haja mesmo discussão, debate sobre o tema, sem tempos mortos. Finalmente, o Segundo Vigilante designa a data da sessão de trabalho subsequente, exorta os Aprendizes a prepará-la lendo a bibliografia fornecida e o mais que entenderem e acentua que a sessão subsequente consistirá num debate de todos sobre o tema, dirigido pelo LÍDER DE DISCUSSÃO, que só será proveitoso se todos e cada um, entre as duas sessões, lerem a bibliografia, aprenderem sobre o tema e se prepararem para, exopondo o que cada um aprendeu, ajudar à aprendizagem dos demais.

Na segunda sessão. processa-se a discussão do tema, sob a direção do LÍDER DE DISCUSSÃO. Esta será tanto mais proveitosa quanto melhor o LÍDER DE DISCUSSÃO e os demais Aprendizes se tiverem preparado entre as duas sessões. Se porventura ninguém se tiver preparado convenientemente, provavelmente a sessão será muito aborrecida, constrangedora e muito pouco proveitosa... Mas, pelo menos ensinará a todos que, em Maçonaria, não se ensina, aprende-se - e que a aprendizagem é um esforço individual de cada um, posto em comum com o grupo. Na discussão da segunda sessão, o Segundo Vigilante deve intervir o menos possível - apenas quando necessário para repor a conversa no tema, quando o grupo dele se afastar (as conversas são como as cerejas...).

Finalmente, após a segunda sessão, o LÍDER DE DISCUSSÃO fica encarregado de preparar e apresentar uma prancha sobre o tema - que poderá vir a ser a sua prancha de proficiência para aumento de salário.

Repete-se, ao longo do ano, este esquema, com os vários temas. Ao fim do ano, tem-se Aprendizes preparados, não por terem ouvido umas preleções, mas por se terem debruçado sobre vários temas, por si e para si e para todos. Tem-se trabalhos elaborados - e tendencialmente de boa qualidade, porque resultantes de discussão em grupo e elaborados por quem se preparou para dirigir essa discussão. Tem-se um conjunto de obreiros que criou naturalmente espírito de grupo. O Segundo Vigilante ainda tem o bónus de, no ano seguinte, ir ter, como Primeiro Vigilante, Companheiros que foram Aprendizes bem preparados e bem habituados a preparar-se.

Finalmente, este método permite que, com toda a naturalidade e sem custo, sem demasiado esforço nem dificuldade, os novos Aprendizes que sejam iniciados ao longo do ano se integrem no trabalho da Coluna de Aprendizes, No ano seguinte, o trabalho recomeça. com os mesmos ou outros temas, ou alguns destes e temas novos, consoante o entender o  Segundo Vigilante de então.

Não tenho dúvidas que uma Loja que siga consistentemente este método de formação de Aprendizes terá, mais cedo do que mais tarde, um escol,de obreiros da melhor qualidade, prosperará e cumprirá devidamente o seu papel de fazer, cada vez mais, de homens bons homens melhores!

Rui Bandeira    

22 fevereiro 2016

O trabalho fora de Loja



Em Maçonaria, é essencial o trabalho realizado em Loja: a execução do ritual de abertura, através do qual todos os presentes se concentram no espaço, tempo, lugar e trabalho que vão efetuar, desligando-se das vicissitudes do mundo exterior (o mundo profano), o despachar de toda a parte burocrática e administrativa inerente ao funcionamento da Loja, a participação na ordem do dia e o ritual de encerramento, pelo qual os presentes se preparam para a saída do espaço, tempo, lugar e trabalho comuns e conjuntos e para o regresso ao mundo exterior (o mundo profano).

Mas mal andará qualquer Loja em que apenas se dê atenção ao trabalho em sessão! Este não é possível, ou, pelo menos, não é profícuo, nem sustentável, sem o trabalho que, desejavelmente, todos os maçons efetuam, em si e perante os que os rodeiam, no mundo e tempo profanos e particularmente sem o trabalho, o esforço e a dedicação dos Oficiais da Loja entre as sessões desta.

Para que os trabalhos de uma Loja decorram de forma harmoniosa e profícua, muito tem de ser preparado, estudado, trabalhado e concretizado fora de Loja. Desde as obrigações legais que a Loja tem de assegurar, ao enquadramento burocrático, passando pela aquisição, conservação e guarda dos bens e materiais da Loja, não esquecendo a execução do que se deliberou em sessão e a preparação dos assuntos a serem postos à discussão e deliberação nas sessões subsequentes, atendendo à deteção, prevenção e resolução de problemas, diferentes entendimentos ou divergentes interpretações e conflitos, reais ou potenciais, tudo tem de ser assegurado e trabalhado pelos Oficiais do Quadro da Loja entre as sessões desta. 

Sem esse trabalho de triagem e preparação, tudo viria a recair na Loja, transformando as sessões desta numa sucessão de resolução de problemas, sem dar tempo, espaço e lugar ao mais importante: a criação, fortalecimento e manutenção da Cadeia de União entre os obreiros da Loja, pela qual e com a qual cada um recolhe do grupo a energia, o incentivo, a experiência, os conselhos, a solidariedade e a cooperação que lhe são úteis para o seu próprio trabalho de aperfeiçoamento e, por sua vez, dá ao grupo e a cada um dos seus integrantes a sua contribuição.  

É por isso que a eleição ou designação para Oficial do Quadro de uma Loja maçónica deve ser por todos encarada antes do mais como um encargo e só depois como uma honra ou o reconhecimento de qualidades ou esforço do eleito ou designado. O Oficial de uma Loja maçónica não é um "graduado" que exerce autoridade sobre elementos de patente inferior, os soldados ou praças. O Oficial de uma Loja maçónica é assim designado porque lhe é confiado o exercício de um ofício, de uma tarefa. O Oficial do Quadro da Loja serve esta e os seus obreiros, através do cumprimento das obrigações do seu ofício.

Todos os maçons com um mínimo de assiduidade às sessões da sua Loja sabem quais são os deveres dos Oficiais durante as respetivas sessões - porque participam nelas e assistem ao respetivo exercício ou efetuam o exercício de um ofício. Mas o conhecimento das tarefas que os vários Oficiais do Quadro de uma Loja maçónica devem assegurar no intervalo das sessões não é tão evidente assim. No entanto, essas tarefas fora de sessão são indispensáveis para a administração da Loja, a preparação e decurso das sessões desta, o cumprimento dos objetivos de todos.

É, por isso indispensável que cada um, quando chegar a sua vez de assumir funções de Oficial do Quadro da sua Loja, tenha bem presente que as suas obrigações no exercício do seu ofício vão muito para além do desempenho ritual em Loja, pesam muitíssimo mais do que o o colar de função que cada Oficial coloca no início de cada sessão da Loja.

Basta que um ofício seja mal ou incompletamente exercido, fora de Loja, para que o equilíbrio de todo o Quadro de Oficiais seja afetado, para que a sessão da Loja seja menos produtiva ou menos agradável do que poderia e deveria ser. O desempenho do ofício fora de Loja é tão ou mais importante do que é executado em sessão. Este é só mais visível...

Rui Bandeira

24 agosto 2015

Maçonaria em Loja (republicação)

O texto de hoje saiu da pena do J. Paiva Setúbal na época em que teve os "destinos" da Respeitável Loja Mestre Affonso Domingues nº5 nas suas mãos. Ou seja, foi escrito e publicado durante o seu Veneralato, que decorreu durante os anos profanos de 2007 e 2008.

Trago-Vos este texto porque considero que ele faz uma reflexão bastante certeira sobre o que  a Loja espera dos seus obreiros. A contemporaneidade deste texto é inegável, e por isso mesmo, decidi partilhá-lo com aqueles que possivelmente não terão tido acesso a ele, por se encontrar nos "confins" do blogue, mas também àqueles a quem tal nunca poderá passar despercebido, sendo que nunca é tarde demais para salientar esta reflexão que foi efetuada na altura por quem a escreveu e que a decidiu partilhar com os leitores nessa época, cabendo agora a mim, ter a mesma deferência para com os atuais leitores...

Apesar de o texto poder ser consultado aqui, deixo-Vos para vossa leitura agora o respetivo texto.

"Maçonaria em Loja

A organização da Maçonaria Regular tem uma base de sustentação, a Loja.

E a Loja tem como base os Obreiros que a compõem.
Quero eu acentuar com este começo de texto que os Obreiros, ao nível das Lojas, são os alicerces sobre os quais toda a estrutura se levanta.

Bom…, mas sendo os Obreiros homens, seres humanos com pernas, braços e o resto, como todos os outros, interessa discorrer um pouco sobre o relacionamento entre os componentes desta estrutura que assume uma tão grande responsabilidade.
Quando alguém é proposto para iniciação na Maçonaria, necessariamente a nível de loja, é-lhe feito um inquérito e sobre isso já se escreveu aqui neste blog o suficiente para justificar que não gaste agora mais espaço com o porquê e o como do inquérito.
Mas interessa notar que sendo o inquérito, ele também, feito por homens, é evidentemente um exercício de conclusões falíveis, e pode acontecer que seja proposto para iniciação alguém que realmente não esteja em condições de admissão na Maçonaria.
Em boa verdade as exigências são absolutamente humanas, isto é, na prática apenas se exige que o candidato seja um Homem, assim com maiúscula, o que neste caso se resume no nosso dizer, “livres e de bons costumes” e queira verdadeiramente pertencer a esta estrutura.
Apenas isso.
Ainda assim pode acontecer um erro de apreciação, por parte de quem faz a inquirição ou da parte do profano que se apresenta a candidato, e quando isso acontece todos perdem.
É uma óbvia desilusão para todos, desencantamento para o candidato que só tarde percebe que afinal a Maçonaria não responde às suas interrogações e aos Irmãos que com ele contactaram porque, à alegria de receber mais um membro na Família se segue a tristeza de verificar que afinal todos estavam enganados.

O relacionamento entre obreiros da Loja constitui o betão que garante a força da estrutura, de forma a que o “prédio” resista aos temporais que de tempos a tempos acontecem, tal qual na Natureza, e do qual a história da nossa Loja Mestre Affonso Domingues, também já contada aqui, pode bem servir de exemplo.
Este relacionamento tem por base duas variáveis, a saber, os procedimentos rituais (o “Ritual” como conjunto de regras formais que regulam a vida em Loja) e a Amizade entre os Irmãos membros daquela comunidade.
É no Ritual e na Amizade entre os Irmãos que assenta tudo o resto.
Se alguma destas variáveis falha, falha a Maçonaria !

Relativamente ao Iniciado muito pouco se sabe, habitualmente.
A Loja sabe que é conhecido do padrinho que o propõe e esse, sendo necessariamente um Mestre Maçom, merece a confiança dos restantes membros da Loja.
Depois, durante o inquérito, algo mais se fica sabendo, mas são conversas curtas, 1 hora ou 2, o tempo de um almoço ou algo assim, o que é manifestamente pouco tempo para conhecer alguém com pormenor.
Quando o Profano se apresenta para iniciação raramente a generalidade da Loja conhece detalhes da sua vida profana, nomeadamente a profissão, onde trabalha, o que faz, qual o grau de formação e por aí fora.
De facto não é isto que consta por aí, mas é isto o que acontece na verdade !
O que se pede a todos os Maçons quando em Loja é que deixem “os metais à porta do Templo”, e este pedido/exigência é frequentemente mal entendido por muitos, interpretando os “metais” como sendo a bolsa com os valores que eventualmente contenham (aquilo com que se compram os melões…).
Ora os “metais” que devem de ficar à porta do Templo são muito mais subjectivos do que isso.
Esses metais devem ser entendidos como os valores aos quais a profanidade dá importância grande, mas que em vivência Maçónica não só são dispensáveis como totalmente desajustados aos valores que a Maçonaria cultiva.
São a arrogância, a vaidade e a ambição.
Esses são os metais que, de todo devem ficar à porta, para que lá dentro reine verdadeiramente, e naturalmente, a igualdade e a fraternidade objectivos finais do nosso trabalho.
Sem isso surgirão as disputas por interesses particulares, a arrogância da saliência, a ambição por lugares de destaque.

Recordo palavras do nosso companheiro de blog Templuum Petrus, “quem se humilha será exaltado, mas quem se exalta será humilhado”.

Pois saibamos verdadeiramente, convictamente, deixar à porta do Templo os nossos metais, principalmente aqueles, porque eles são o fruto da grande maioria (totalidade ?) dos desencontros entre Maçons, tal como afinal são a razão de todas as guerras.
Cultivemos e levemos connosco a capacidade de compreender as diferenças.
Porque afinal, ser amigo do que gostamos ou do que nos é igual é fácil.
O que pode ser desafio interessante é a amizade com a diferença.
E para isso a abertura de espírito e a capacidade de aceitação é uma exigência."

J.P. Setúbal


13 abril 2015

Introdução a uma merecida exceção



(O texto que se segue foi proferido em sessão da Loja Mestre Affonso Domingues. Creio que fala por si. Quanto à identidade do homenageado, nós, os seus Irmãos, conhecemo-la - e isso basta, para ele e para nós...)


Muito Respeitável Vice Grão-Mestre,
Respeitáveis Grande Oficiais,
Venerável Mestre da Respeitável Loja Lusitânia,
Venerável Mestre,
Meus Irmãos, em todos os vossos graus e qualidades,

A Loja Mestre Affonso Domingues vai fazer algo que nunca fez em vinte e cinco anos, algo que, precisamente para conferir valor e significado ao que vai ocorrer, tenciona que, nos próximos vinte e cinco anos, em muito raras e escolhidas ocasiões, se é que em alguma, volte a fazer: homenagear um dos nossos!

Fazemo-lo pela primeira vez em vinte e cinco anos, e tencionamos muito parcamente voltar a fazê-lo nos próximos vinte e cinco anos, não porque tenhamos algum problema em relação a homenagens, mas simplesmente porque na cultura, na matriz, da nossa Loja está profundamente impresso que aqui cada um de nós está para procurar ser melhor, para buscar fazer melhor, com o auxílio dos seus Irmãos e auxiliando os seus Irmãos a igualmente todos os dias melhorarem mais um pouco. Nesta Loja, desde sempre que os mais antigos instilam nos mais novos a noção de que o simplesmente bom não chega, sendo corrente, mesmo até rotineiro, que trabalhos dos nossos obreiros sejam áspera e por vezes impiedosamente criticados... porque são apenas bons! 

Nesta Loja, o mínimo que exigimos de nós próprios é ser melhores, porque, no nosso padrão, o Ótimo não é nunca o objetivo final, é apenas um necessário degrau para se atingir a Excelência, aquele patamar em que por vezes - ainda que sempre fora do alcance da nossa mão, por mais que estiquemos o braço - se consegue vislumbrar a humanamente inatingível Perfeição. 

Porque esta é a nossa cultura, a nossa matriz, não somos muito dados a homenagens aos nossos, porque aqui ser melhor do que bom é um simples cumprimento do dever, sem direito a especial menção, ser ótimo é um ponto de passagem que confere apenas direito a um breve e discreto louvor, atingir a Excelência é o objetivo.

No entanto, hoje, aqui e agora a Loja entendeu ser imperativo da justiça prestar fraterna homenagem a um dos nossos, porque lhe reconhece a Excelência. Excelência enquanto cidadão, homem de família, profissional e maçom. Aquele que hoje gostosamente vamos homenagear é um maçom que é muitíssimo mais que um homem bom,  muito mais do que um homem que se tornou melhor – afinal de contas, não fazendo mais do que a sua obrigação ao estar entre nós - é bem mais do que um ótimo homem e maçom.  Aquele que hoje vamos homenagear pertence ao muito restrito número daqueles que se impõe que reconheçamos como um Excelente homem e Excelente maçom, alguém que faz com que cada um de nós pense, de si para consigo, que “quando eu for grande gostava de ser como ele”.

Todos nós, os que aqui estamos reunidos, buscamos entender o sentido da vida e procuramos que a nossa vida tenha significado. Sobre o sentido da vida, cada um saberá a que conclusões chegou. Sobre o significado da vida do Irmão que hoje está no centro das nossas atenções, a homenagem que agora se inicia pretende precisamente assegurar-lhe que a sua vida, o seu caráter, a sua postura, a sua fraternidade, a sua disponibilidade, representaram e representam um profundo significado para todos e cada um de nós, que é apenas justo hoje demonstrar-lhe.

Quis – e bem – toda a Loja envolver-se neste reconhecimento ao nosso Irmão. Assim, seguidamente serão apresentadas três pranchas dedicadas a ele, à sua figura, à sua ação, ao que ele representa para todos nós, uma apresentada em representação da Coluna dos Aprendizes, uma outra em nome da Coluna dos Companheiros, a terceira pronunciada por mandato dos demais Mestres da Loja. Seguir-se-á ainda uma pequena e despretensiosa surpresa que esperamos agrade ao nosso Irmão e, naturalmente, no que toca à Loja, a voz de quem toda a Loja representa, a do Venerável Mestre. 

Muito Respeitável Vice Grão-Mestre,
Respeitáveis Grande Oficiais,
Venerável Mestre da Respeitável Loja Lusitânia
Venerável Mestre,
Meus Irmão, em todos os vossos graus e qualidades,

É com um enorme sentido de privilégio e de honra que declaro aberta a merecida homenagem ao nosso muito prezado Irmão ...

Rui Bandeira

19 janeiro 2015

Formalismos na Maçonaria…

(imagem proveniente de Google Images)

Na Maçonaria existe o costume de os seus membros se tratarem por irmãos ou manos, uma vez que a Augusta Ordem Maçónica é uma Irmandade de carácter fraternal.

Mas para além deste hábito, existe outro que costuma fazer alguma confusão aos recém-chegados. É o facto de todos no seu trato habitual se tratarem por “tu”.
Independentemente da idade, do grau ou da qualidade maçónica (cargo que se represente em Loja ou na Obediência), todos, mas mesmo todos, se tratam por “tu”.

Enquanto na vida profana é habitual  as pessoas tratarem-se com alguma deferência, nomeadamente tratarem-se por “você” ou por “senhor” ou até mesmo pelo título académico que detenham, na Maçonaria não existe esse distanciamento pessoal. Quando se aborda um irmão, é por “tu isto…” ou “tu aquilo…” É “tu” e prontos!

Isto por si só, é uma demonstração que aos maçons não interessam os cargos ou as profissões que um irmão desempenhe na sua vida profissional. Em Loja todos sãos iguais entre si. Desde o mais desfavorecido financeiramente ao mais folgado em questões de metais, não existe diferença no trato. Os “metais” devem ficar sempre fora de portas do Templo. 
Esta é outra das virtudes que se podem encontrar na Maçonaria a par da tolerância e do espírito fraternal.

E como entre irmãos não há lugar para deferências ou "salamaleques", é mais salutar e sensato o tratamento por “tu” que por outra coisa qualquer. Desse modo, aos recém-chegados dá-se lhes a confiança necessária para se enturmarem com os mais antigos na casa, e aos mais idosos em idade, consegue-se que mantenham dessa forma, um espírito jovem e reverencial que a todos agrada. Aos mais jovens é que normalmente causa algum desconforto em tratar alguém mais velho em idade por uma forma tão simples de tratamento, mas com o tempo esse pequeno desconforto passa e é normal que depois nem se note a diferença de trato nem a idade do irmão com quem se interage.

Esta forma de tratamento entre pessoas, foi dos hábitos que mais “estranheza” me causaram nos meus tempos de neófito.

É como se costuma dizer: “primeiro estranha-se, depois entranha-se…”

Mas em Maçonaria e em como tudo o que sejam instituições, associações ou grupos onde o Homem se reúna, existe sempre uma hierarquia a respeitar, e como tal, o tratamento com alguém hierarquicamente superior, devido às funções que lhe são acometidas, nunca poderia ser igual à que os outros membros terão entre si. E como afirmei acima, se na Maçonaria os seus obreiros se tratam entre si como irmãos e no trato normal por “tu”, não deixa de ser interessante que quando se trata de alguém com funções diretivas, esse tratamento seja enaltecido.

Apesar de quando um irmão se dirige a um irmão que ocupe um cargo relevante na estrutura maçónica o trate na mesma por “tu”, a diferenciação no tratamento é respeitante ao cargo e função ocupada em si e não à pessoa em concreto. Por isso é que é habitual se ouvir falar em “Venerável Mestre”, “Respeitável Irmão” e “Muito Respeitável Grão-Mestre” entre outros apelidos que se conheçam e que existem, que servem apenas para diferenciar um irmão dos restantes apenas pelas funções que lhe são atribuídas e nada mais.

Em Maçonaria todos os cargos são transitórios, tal como quase tudo na vida, e os maçons têm isso presente, e como tal, não adianta ou não é necessário existir outro tratamento que não seja por “tu”, pois se hoje desempenhamos um cargo, amanhã poderemos estar apenas a ocupar um lugar numa das colunas. E quem hoje se encontra simplesmente numa coluna e sem funções atribuídas, amanhã poderá ser chamado a ocupar alguma função importante na estrutura maçónica. E este tipo de tratamento possibilita uma transição entre colunas ou funções sem qualquer tipo de sobressaltos.

Concluindo, se as designações dos cargos maçónicos ou dos títulos dos graus maçónicos que existem poderem sugerir algumas vezes que o tratamento entre irmãos possa derivar em "pantominices", essa assumpção está bastante errada. O tratamento entre irmãos é sempre feito da forma mais simples que se conhece, utilizando simplesmente o pronome “tu”.
E é assim que se quer que a Maçonaria funcione, de uma forma simples e elementar.


PS: Texto adaptado deste outro, também escrito e publicado por mim.

15 setembro 2014

Ser reconhecido Maçom...


(imagem retirada de Google Images)

Para alguém ser considerado maçom, primeiramente terá de ser reconhecido por outro como tal. Depois terá de passar por uma conjunto de processos após os quais será aceite ( ou não) por uma Respeitável Loja e a sua consequente Iniciação.

Mas não é tão fácil como o parágrafo anterior se apresenta, mas também não será tão difícil como se poderá supor.
Nas Maçonarias tipicamente anglo-saxónicas é usual a célebre afirmação “2B1ASK1” ou seja “ To Be One, ask One” ( Para ser Um, Pergunte a Um; numa tradução literal), o que permitirá mais facilmente atrair mais gente a esta Augusta Ordem.
Mas por norma, qualquer Obediência (Potência Maçónica) tem um domicílio físico, isto é, uma porta onde se poderá bater no caso de que algum potencial candidato que se interesse ou identifique com os princípios e causas maçónicas se puderá dirigir caso não tenha nenhum conhecido que seja maçom na sua lista de contatos ou esfera de influência. Ou também, o que sucede bastantes vezes, não tenha sido reconhecido ainda por algum outro maçom.

Mas que “reconhecimento” é esse que acabei de falar?!
Nada mais nada menos que tal como os maçons afirmam, que se reconheça em alguém que seja uma pessoa “livre e de bons costumes”, com um comportamento probo e honesto; que seja alguém considerado com bom “pai de família” e um bom colega de trabalho pelos seus pares; que esteja inserido na sociedade onde viva e que tenha vontade em aprender e partilhar o que sabe com outrem; bem como ter também a vontade em auxiliar o seu semelhante.

Todavia, e aqui algo que poderá criar confusão na mente de algumas pessoas, o candidato terá de ser alguém com defeitos, ou seja, alguém que identifique e reconheça os seus defeitos pessoais e tenha a vontade e ambição de mudar o seu comportamento para melhor - “vencer os seus vícios e paixões”… - evoluindo como pessoa e ser humano que é, através de uma via espiritual e iniciática que neste caso preciso é a Maçonaria.

Em geral, na minha opinião, não é a simples pertença na Maçonaria que tornará “homens bons” em “homens melhores”, antes pelo contrário, serão os homens que poderão tornar a instituição maçónica em algo melhor; pois as suas atitudes estarão sob o escrutíno da Sociedade. Os maçons são os seus próprios “juízes e carrascos”, o resto é conversa…

A Maçonaria através das suas “ferramentas filosóficas e espirituais” é que pode auxiliar na evolução pessoal de cada um em direção a um aperfeiçoamento moral e comportamental. Por isso é que é hábito em maçonaria se afirmar que “ a Ordem não procura homens perfeitos”, pois esses já trilharam o seu caminho… 
À Maçonaria interessa sim, quem deseja mudar, mas mudar para melhor…
Somente atuando assim, é que alguém pode um dia esperar ser reconhecido como maçom. Mas não lhe bastará apenas ter sido reconhecido, há que continuar nesta senda de perfeição, caso contrário, as palavras, as atitudes, os comportamentos serão vãos e apenas tudo culminará numa perda de tempo para ambas as partes, tanto para a Respeitável Loja e Obediência que o acolha, quanto para o próprio, que será passível de perder um reconhecimento que por regra não é atribuído a qualquer um!
Tanto que por isso, sempre após uma possível “identificação maçónica” num profano ou após a submissão de um pedido de candidatura de adesão a uma Respeitável Loja, é desencadeado um conjunto de diligências, nomeadamente um processo de inquirição, para que se possa averiguar qual a conduta do suposto candidato a iniciar. Seja através de conversas com o próprio ou com seus familiares e/ou amigos, para que se possa aferir quais as reais intenções de quem deseja que “a porta lhe seja aberta”… 

É que fortuitamente e como em qualquer instituição ou associação onde entre o bicho-homem, também por vezes a Maçonaria tem alguns erros de casting que acabam por manchar a reputação dos demais maçons e influenciar negativamente a opinião profana sobre a Maçonaria e os seus membros. E geralmente são estes casos que vêm a público, pois o bem que a Maçonaria faz, apenas fica resguardado para ela…
E, mesmo depois de ter terminado o processo de inquirição respeitante a um candidato, o mesmo ainda terá de ser sufragado pela Respeitável Loja que o irá cooptar no futuro. E somente após essa decisão da loja, será ou não iniciado.

Por isto tudo, é que afirmei no início que não seria difícil entrar na Maçonaria, mas que por sua vez também, não será tão fácil assim como se poderia supor.


Finalizando e em jeito de conclusão, tenho para mim que antes de se entrar na Maçonaria e se obter qualquer tipo de reconhecimento, já a Maçonaria “entrou dentro de nós”…