03 agosto 2011

Maçonaria e Poder (III)



No tempo das Lojas Operativas, a relação entre os construtores em pedra e o Poder era de simbiótica subordinação. Os construtores em pedra detinham o exclusivo conhecimento - ou quase - de técnicas de construção baseadas em princípios geométricos há muito descobertos, mas perdidos, na sua aplicação, no obscurantismo da Idade Média. A sua associação em núcleos profissionais, Lojas, que asseguravam a formação e treino de novos elementos e a transmissão dos conhecimentos e técnicas herdados de gerações e gerações de profissionais, buscava também garantir a manutenção do conhecimento dessas técnicas e conhecimentos no restrito círculo de profissionais.

Esse desiderato, porém, só era possível de atingir e manter, com o beneplácito dos senhores detentores do Poder - a nobreza -, que assegurava as condições e práticas legais que garantissem o quase monopólio das Lojas operativas nas grandes construções. Em troca, os construtores tinham de bem servir os senhores que lhes encomendavam os trabalhos, executando-os segundo a sua vontade, utilizando as suas técnicas e conhecimento em benefício de quem os contratava.

Também os detentores do Poder religioso, particularmente os bispos - católicos ou Reformistas - influenciavam claramente os maçons operativos. A construção de uma catedral durava e, mesmo, ultrapassava o tempo de vida útil de um oficial construtor. Mas só bons cristãos eram admitidos a trabalhar na construção desses templos. E não só. Também os construtores tinham de se conformar e adotar as normas morais e estilos de vida impostos pelos detentores do Poder religioso. Ou não trabalhavam ali...

Durante séculos, subsistiu esta relação simbiótica, mas subordinada, entre as Lojas operativas e os detentores do Poder - político, económico e religioso.

Mas os tempos iam, primeiro lentamente, depois cada vez mais aceleradamente, mudando. O obscurantismo da Idade Média começou a ser rompido pelo Renascimento, regressando o interesse pelos conhecimentos que a Humanidade obtivera já na Antiguidade. A cultura da Antiguidade Clássica voltou a ser estudada. E muito se descobriu que, mesmo já se sabendo, afinal não se sabia durante séculos e séculos. Os postulados e teoremas da Geometria foram uns dos aspetos redescobertos. E, da redescoberta, em termos públicos e não apenas reservado a uns quantos, poucos, cultores de conhecimentos oralmente transmitidos, necessariamente que resultou a divulgação geral das técnicas de construção que anteriormente só os maçons operativos detinham e guardavam para si.

A Imprensa foi descoberta. Os morosos e caros livros copiados à mão foram, a pouco e pouco, dando lugar a livros impressos, mais baratos, abundantes e dedicados às mais variadas matérias. Conhecimentos e técnicas incluídos...

O que dantes era reservado e monopólio, ou quase, das Lojas passou, num espaço de tempo relativamente curto, a ser habilidade acessível a muitos mais. Era já possível aprender-se as técnicas da construção sem ser no seio de uma Loja operativa. Era já possível trabalhar-se na construção fora da tutela de uma Loja operativa. Surgiam e espalhavam-se os que, nas Ilhas Britânicas, eram depreciativamente denominados pelos maçons operativos de "cowans".

As Lojas operativas lentamente declinavam. A concorrência de profissionais a elas alheios diminuía-lhes o trabalho e os rendimentos. Os construtores em pedra integrados em Lojas operativas deixavam de ser os únicos operadores no mercado. Para procurar manter a sua supremacia, ou simplesmente a sua presença no mercado, dependiam cada vez mais dos senhores terratenentes e das suas encomendas. A relação entre os construtores agrupados em Lojas operativas e os detentores do Poder deixou de ser simbiótica, passou, claramente, a ser subordinada e, com o prosseguir do declínio - os ventos da História não se mudam pela mera vontade de grupos ou indivíduos... - , chegou mesmo a ultrapassar o umbral da subserviência.

As Lojas operativas declinaram economicamente, feridas pela perda da sua exclusividade no mercado. Mas, centenárias, mantendo tradições próprias e um espírito de união resultante de gerações de transmissão de conhecimentos e de vivência em comum, não deixavam de ser atrativamente misteriosas para quem estava de fora (há coisas que, pelos vistos, não mudam...). Os senhores podiam escolher dar os seus trabalhos de construção a Mestres de Lojas operativas ou a "cowans". Mas continuavam a interrogar-se que conhecimentos exclusivos seriam esses que os operativos reservavam para si mesmos. Se outros sabiam também construir, que fazia os operativos manterem-se em Lojas? Que algo mais, ou algo de diferente, havia?

Durante séculos,o que havia no interior das Lojas operativas era só para quem nelas estava. Mas os tempos foram mudando e eram cada vez mais difíceis. Primeiro um senhor, depois outro, logo mais uns quantos, começaram a pôr condições para dar trabalho aos maçons das Lojas e para os continuar a proteger: queriam ter acesso aos conhecimentos próprios deles. Ou então, acabar-se-ia a proteção e havia agora mais quem quisesse trabalhar na construção...

Pouco mais havia a salvar do que a dignidade. Se os senhores exigiam saber o que eles sabiam, não havia já meios de o impedir. Mas podiam e deviam manter os seus compromissos de gerações e não revelar fora de Loja o que à Loja era reservado. A solução foi evidente: admitiram-se os senhores nas Lojas!

Entrou-se assim na transição - mais rápida do que seria de supor - entre a estrita Maçonaria Operativa e o que viria a ser a Maçonaria Especulativa.

Os senhores estavam já nas Lojas. Mais cultos, mais sofisticados, rapidamente se terão apercebido de que os segredos das técnicas de construção não eram já nada de especial nem de domínio exclusivo. Mas toda uma Tradição, toda uma Ética, todo um particular espírito de convivência estratificara ao longo de gerações e de séculos nas Lojas operativas. Esse era o verdadeiro acervo, próprio e único, que, insuspeitadamente, guardavam as Lojas operativas. Afinal, não eram já os segredos das técnicas de construção que interessavam - era tudo o resto!

Os senhores atraíram outros senhores, intelectuais, burgueses, para esse até aí oculto mundo, de antigas tradições, embalsamadas ideias prontas para serem desenvolvidas, notáveis formas de relacionamento a serem prosseguidos. Porventura em menos de um século, os operativos, engolidos pelo progresso, viram as suas Lojas tomadas por dentro e a Maçonaria operativa transformar-se na Maçonaria Especulativa.

O primeiro embate entre a Maçonaria e o Poder começou por ser simbiótico, passou a dependente e subordinado, raiou mesmo a subserviência, transpôs os limites da capitulação... para levar a um inesperado rumo: o Poder conquistou, pacificamente, a Maçonaria por dentro, mas, a partir desse momento, como tantas vezes na História sucedeu com fortes conquistadores, conquistado o Poder interno, podendo-se pôr e dispor... foi seduzido (afinal conquistado) pelas ideias que encontrou.

No primeiro embate entre a Maçonaria e o Poder, os homens do Poder ganharam... mas foram as ideias da Maçonaria que convenceram os vencedores!

Assim mudou a Maçonaria e mais um elemento de mudança se juntou à evolução dos poderosos e do Poder.

Era tempo do Iluminismo alumiar o caminho!

Rui Bandeira

27 julho 2011

Maçonaria e Poder (II)



Antes de se avançar, importa estabelecer bem o significado das palavras, para que não se estabeleçam confusões.

Maçonaria e Poder - que significado neste conjunto de textos se atribui a Maçonaria? E qual o alcance do termo Poder?

Neste conjunto de textos, sempre que utilizar simplesmente a palavra Maçonaria, estarei a utilizá-la no sentido mais amplo possível, tanto quanto possível procurando abarcar o conceito tal como o entende o comum cidadão, de fora, sem grandes precisões ou distinções.

Precisamente porque o objetivo deste conjunto de textos é proporcionar ao cidadão comum, sem grandes conhecimentos ou noções precisas sobre a Maçonaria informação que lhe possibilite assentar as suas ideias sobre o tema com algum fundamento, não faria sentido utilizar a palavra senão no sentido amplo que o cidadão comum lhe atribui.

Assim, neste conjunto de textos, a palavra Maçonaria respeita tanto à Maçonaria Regular como à Liberal, masculina como feminina ou mista, de corrente mais esotérica ou de índole mais social. Quando houver necessidade de precisar, precisar-se-á o conceito. Basicamente, utiliza-se a palavra segundo o significado que ela tem para quem está de fora.

Também será útil deixar uma advertência: procurar-se-á elaborar uma exposição e fazer uma análise tão objetiva quanto a subjetividade de quem escreve for capaz - e sobretudo limitando os juízos de valor ao mínimo possível. Quem frequenta este blogue sabe que os que aqui escrevem se integram na Maçonaria Regular, que é distinta da Maçonaria Liberal. Mas o propósito não é - nem neste espaço nunca foi, pois aqui procura-se respeitar sempre as opções individuais de cada um! - argumentar com uma qualquer superioridade de uma orientação em relação à outra. Tenho a minha opinião sobre o diferente efeito potencial que as diferenças entre a Maçonaria Regular e a Maçonaria Liberal pode ter no relacionamento de uma e de outra com o Poder. Mas restam-me muito poucas dúvidas de que as diferenças efetivas nesses relacionamento decorrem muito mais de razões e percursos históricos e de pontuais tendências subjetivas do que de eventuais inevitabilidades sistémicas.

Não se procura, assim, direta ou indiretamente, afirmar que uma corrente é melhor do que a outra, mais "pura", com ideias "que lavam mais branco". Sempre aqui afirmei - e mantenho e insisto - que considero que, na comparação entre Maçonaria Regular e Liberal, o juízo correto não é declarar ou pretender que uma seja melhor ou pior do que a outra, antes reconhecer que são diferentes - nem muito, nem pouco, diferentes em dois ou três pontos que bastam para que as vejamos como instituições diferentes, sem perder de vista o muito em que são semelhantes. Tão só. E o facto de me integrar na Maçonaria Regular e não na Liberal não tem nada a ver com um eventual juízo meu de pretensa superioridade daquela em relação a esta, apenas e tão só do facto de eu ter procurado integrar-me na tendência que considerei mais afim ao meu pensamento e à minha crença, sem juízos de valor em relação ao pensamento e crença, ou falta dela, alheios.

Também em relação ao segundo termo da equação em análise - o Poder - se justifica uma breve advertência. Neste conjunto de textos, o termo será utilizado igualmente na sua aceção mais ampla, abrangendo não só o Poder Político - que é a noção natural e correntemente utilizada -, mas também o Poder Económico, a Influência Social, o Poder Religioso, a Influência do Saber , enfim tudo o que, sempre na perspetiva do homem comum permite equacionar que alguém se superiorize a outrem, que lhe imponha regras ou comportamentos, que obtenha ou possibilite vantagens. Mais uma vez, sempre que por necessário ou conveniente precisar, precisar-se-á.

Uma última nota: gosto muito de enquadrar o meu pensamento com a perspetiva histórica. entendo que as coisas são o que são, não por acaso, não por voluntarismos, mas porque foram de determinada maneira e tiveram uma específica evolução, que necessariamente condicionam o que são hoje. Não me faz, consequentemente, sentido, procurar dissertar sobre as relações, ou falta delas, entre a Maçonaria e Poder aqui e agora, sem previamente procurar entender como foram, ao longo do tempo e em diversos lugares e circunstâncias, essas relações, buscando entrever sequências, influências, causas e efeitos, que, tanto quanto possível, ajudem a compreender não só as coisas como elas são, mas o como e o porquê de serem como são..

Esclarecido isto, posso então começar a análise do tema no próximo texto.

Rui Bandeira

26 julho 2011

Marreteando



É curioso como, quando sentimos que temos de lidar com algo de maior peso do que a normal rotina, acabamos por retomar hábitos antigos e com que nos demos bem.

Brevemente, vai ser tempo para tomar uma decisão importante. E, cientes de que assim iria ser, os dois Marretas, sem que cada um previamente tivesse consultado o outro, naturalmente retomaram o antigo hábito e ultimamente têm dado uso ao telefone e ao teclado do correio eletrónico.

Desta vez, nem sequer existe, à exceção porventura de um ou outro pormenor, mais adjetivo do que substantivo, desacordo entre ambos. Ambos estão de acordo quanto ao sentido da decisão, ambos se mostram favoráveis à decisão a tomar. Mas, como a decisão é mesmo importante e não basta estar de acordo com ela, há que prevenir perigos, preparar coisas, estar preparado para alguns possíveis imprevistos, prever, gerir e efetuar algumas adaptações, para que, chegada a hora de a decisão ser tomada e, sobretudo, tendo em vista o tempo depois de a mesma ser tomada, se esteja pronto e tudo corra bem. Assim, ambos analisam, preveem e constroem cenários, estudam alterantivas, situações, posturas, ações e reações.

E aqui de novo os velhos hábitos confortavelmente surgem: quase que instintivamente, eles, que estão de acordo no essencial, arranjam maneira de se porem em desacordo nos pormenores e estudam e argumentam e rebatem e, detalhe a detalhe, lá se vão pondo de acordo quanto à melhor forma de atuar e - o que não é de somenos - quanto à melhor forma de cada um deles agir, pois normalmente são mais eficazes cada um sendo ele, diverso do outro, cada um dando atenção a questões diferentes, cada um guarnecendo diferentes aspetos, enfim, cada um fazendo diferente do outro, ambos em prol do mesmo objetivo.

Portanto, minha gente, informo que os dois Marretas estão marreteando a bom ritmo e que esperam - mais: sabem! - que, também com a ajuda do seu marreteanço, na altura própria a Loja estará em perfeitas condições de bem contribuir para a decisão importante que brevemente será tomada e - sobretudo - completa e absolutamente preparada para o que implica essa decisão. Assim, esperam - não só: têm a certeza! - que a decisão importante que brevemente será tomada não perturbará a Loja, não a prejudicará. Pelo contrário, vai torná-la mais sólida, mais forte, mais eficaz, mais... Mestre Affonso Domingues, permanecendo como sempre foi e, como sempre também, reinventando-se e adaptando-se.

A liderança da Loja é boa. Boa será também a próxima liderança. Nesse particular estamos tranquilos. O resto da Loja vai rapidamente preparar-se para o que aí vem. Nós estamos marreteando. Outros vão conversando e preparando-se também. E, quando chegar a altura da decisão importante, não se duvide: a Loja Mestre Affonso Domingues e a sua liderança, a atual e a próxima, estarão preparadas.

Que não sejam as únicas, antes apenas mais uma de todas na mesma situação, é o que eu espero. Mas, para isso, mister é que, em todas as Lojas da GLLP/GLRP, líderes e liderados conversem e se preparem. Com férias ou sem férias, com substituição de lideranças ou sem elas, todas as Lojas, daqui a não muito tempo, têm de tomar uma decisão importante. E não vale a pena, chegada a hora, seja quem for ter a pretensão de se refugiar na dificuldade das férias, no constrangimento da mudança de liderança. Nem invocar desconhecimentos ou incertezas. Quem desconhecer e tiver a obrigação de conhecer, sabe muito bem como e junto de quem se informar! A circulação da informação e o esclarecimento são vias de dois sentidos, não apenas de um...

Qual é a decisão importante que brevemente será tomada? Por agora, não a digo aqui e espero que mais ninguém o faça. Quem sabe, sabe; quem não sabe, em devido tempo virá a saber. Por agora, é para ser discutida nos locais próprios, isto é, em privado, com sossego, calma e concentração. Porque - ninguém o duvide - o problema não estará certamente na tomada de decisão, que, espero, mais detalhe, menos pormenor burocrático, não será difícil de tomar e não suscitará divergências de monta. O problema para que todos e todas as Lojas se devem preparar é o que há que fazer depois de tomada a decisão. Porque se pretende que tudo corra bem e que todos fiquem melhor!

Agora, para os dois Marretas é tempo de marretearem. E por aqui hoje me fico, que estou com pressa: vou almoçar com o José Ruah...

Rui Bandeira

23 julho 2011

Mais um Ano ou será mesmo um dos Anos?

A Loja Mestre Affonso Domingues fecha mais um ano de actividade, o 21º e consequentemente pelos cânones antigos atinge a maioridade.

O inicio do 22º ano é assim simbolicamente o inicio da Idade adulta da Loja. Os caminhos seguidos ao longo destes anos todos, a cultura e a forma de estar serão os pilares para os anos vindouros. As bases e fundamentos estão criadas e a moldagem - entenda-se ensino - dos irmãos está estruturada.

Estou certo, convencido e seguro, que este ano que ora se inicia será um ano MARCO na história da Loja, que o Venerável agora eleito será preponderante (talvez muito mais que o ele pensa) para que daqui a uns anos alguém (eventualmente eu próprio) venha aqui contar do meio século da Loja.

A Maçonaria passa por muitas fases e por muitas transformações, com algumas pequenas derivas à esquerda ou à direita (ou à direita e à esquerda – que não quero que ninguém associe conotações onde elas não existem), mas segue sempre o seu caminho rumo ao futuro na fidelidade aos princípios que a regem.

Todavia para seguir esse caminho é preciso que exista a vontade dos maçons, porque estes são a maçonaria. Se não o fossem então a maçonaria seria apenas um conceito teórico vazio de efeito e conteúdo.

A fase adulta é um bom tempo para com maturidade ir adaptando modificações, suportar alterações mais importantes, digerir novas realidades.

Uma das facetas de uma Loja Maçónica é a capacidade de poder escolher entre várias opções, mas mais que isso propor outras diferentes daquelas que lhe foram apresentadas. Deve poder fazê-lo de forma sustentada, informada e segura.

O seu Venerável, é aqui peça charneira porque é ele o representante de direito da Loja nas várias instâncias. É-lhe exigido que apresente as propostas e posições da Loja, que as defenda, que as “venda”, mas também lhe é exigido que entenda rapidamente outras propostas e posições que lhe sejam presentes.

Não lhe pode ser exigido por quem quer que seja, que decida sozinho sobre matérias de relevância – excepto em situações de grande emergência ou cataclismo – sem pelo menos lhe ser concedida a prerrogativa de ao receber a informação decidir se decide sozinho ou se tem que consultar a sua Loja.

Mas mesmo que essa prerrogativa não aconteça, deve a Loja antecipar cenários, e com isso pensar em soluções que põe à disposição do seu Venerável para que este possa em caso de “aperto” decidir sozinho confortado no debate, ainda que teórico, que teve antes com os seus.

Ora com a entrada na idade adulta, como acima disse, fico muito mais descansado porque sei que tudo o que acabo de escrever está assegurado e que a RL Mestre Affonso Domingues está preparada, faltarão uns ajustes mas poucos, para o futuro e para tudo o que este na sua vertente próxima ou longínqua reserva.

O novo Venerável Mestre, o Irmão Nuno, está suficientemente instruído sobre o funcionamento de uma Loja, e em especial desta, sabe bem como gerir o que lhe aparecer, e sabe sobretudo que conta com a lealdade de todos os membros da sua Loja.

Cabe aqui dizer que só chegámos aqui, porque o 21º Venerável, Irmão A Jorge, teve um papel de relevo na condução dos trabalhos, e terá agora que está prestes a passar à condição de Antigo Venerável uma função de aconselhamento de primordial importância.

Quanto a mim, pois como bem sabem, ando sempre por aí atento ao que se passa, e se me parecer apareço por aqui.


José Ruah

20 julho 2011

Maçonaria e Poder (I)


Corrente e repetidamente, a Maçonaria é acusada de secretismo e de influenciar, ou exercer, o Poder, de forma subreptícia, escondida, por detrás das cortinas, obtendo benefícios para os seus, e de comandar os destinos do país, quiçá do mundo.

Quanto ao secretismo, a melhor prova de que a acusação é infundada é este blogue, bem acompanhado pelo sítio da Loja Mestre Affonso Domingues e por centenas de outros blogues e sítios de Lojas e Grandes Lojas maçónicas, em todas as línguas e publicados por todo o globo, em toda a parte onde há Maçonaria. Poucas instituições, nesta era da Sociedade de Informação, disponibilizam mais e mais detalhada informação sobre o que são, o que fazem, quais os seus propósitos, do que a Maçonaria. No entanto, o anátema persiste, a mentira mil vezes repetida continua a ser tomada por verdade. O tempo e a paciência acabarão por, paulatinamente, ir mostrando a todos que a acusação é vã. E tempo e paciência é algo que os maçons aprendem que são bens preciosos...

O outro cavalo de batalha dos maníacos das conspirações e dos escrevinhadores de tabloides é a alegada influência da Maçonaria no Poder. Periodicamente se elencam listas de ministros, ex-ministros, deputados, autarcas e correlativos que os autores desses textos dizem ser maçons, insinuando-se ou afirmando-se claramente que atingiram as suas posições de maior ou menor exercício do Poder porque beneficiaram das manobras da Maçonaria e que, por sua vez, subrepticiamente beneficiariam os maçons no exercício das suas funções.

Ainda recentemente foi escrito e afirmado na rádio e na televisão, até por eminentes comentadores políticos, que determinada pessoa, que não teria o apoio da maioria dos deputados da Assembleia da República iria, não obstante, ser eleito Presidente da Assembleia da República, porque a todo-poderosa Maçonaria, manobrando nos bastidores, garantiria a sua eleição. Azar! O dito cujo não foi eleito... e todos os ""eminentes" e "conhecedores" comentadores e "fazedores" de opinião assobiaram para o lado, como se as alarvidades por si inventadas e proclamadas não tivessem existido! Este episódio ilustra bem que o alegado poder oculto da Maçonaria é muito menos poderoso, se é que existe, do que os maníacos das conspirações inventam. Embora eu não me admire nada se algum desses "iluminados" resolver proclamar que, afinal, o dito suposto apoiado pela Maçonaria não foi, afinal, eleito, porque, à última hora, a todo-poderosa Maçonaria resolveu que o não fosse, como forma de enganar o mundo, fazendo-lhe crer que afinal não tinha poder nenhum...

Seja como seja, se, em relação ao alegado secretismo da Maçonaria só persiste na espúria afirmação da sua existência quem não quiser ver os factos nem ler os milhares de documentos e textos publicamente disponibilizados pela Maçonaria, em relação às relações, ligações, influências, entre a Maçonaria e o Poder, forçoso é reconhecer que o tema está muito menos esclarecido por parte da Maçonaria, que assim tem deixado campo aberto a todas as especulações, invenções, disparates.

Entendo que é tempo de este pequeno cantinho da Sociedade de Informação contribuir para que a situação mude, no sentido de um melhor esclarecimento, na linha do que tem sido o constante e firme rumo deste blogue: esclarecer o que tiver de ser esclarecido, calmamente, fundamentando o melhor possível as suas afirmações e, sobretudo, com equilíbrio e verdade. Entendo eu e entendem os maçons da Loja Mestre Affonso Domingues que a melhor maneira de descredibilizar os maníacos das conspirações, os mal-intencionados detratores da Maçonaria, os espúrios alarmistas que se comprazem a gritar que vem aí o lobo sem que o bicho esteja na redondezas, é serenamente tratar dos temas alegadamente polémicos, com verdade e a maior clareza que nos seja possível.

Vou, consequentemente, dedicar alguns textos ao tema Maçonaria e Poder, nos quais procurarei esclarecer as relações entre ambos, sua natureza e profundidade. E, como sempre, devidamente informado, cada um formará a sua opinião como muito bem entender, que a liberdade de opinião é coisa que, acima de tudo, se preza neste espaço!

Por hoje, e para terminar, deixo-vos a minha opinião preliminar sobre o tema: em matéria de relações entre a Maçonaria e o Poder, são mais as vozes do que as nozes - mas que há algumas nozes, isso há...

Rui Bandeira

17 julho 2011

O símbolo da MAD e a vesica piscis

O texto do Rui Bandeira sobre o símbolo da Loja Mestre Affonso Domingues veio a suscitar - de novo - a questão de fazer a vesica piscis  parte ou não do referido símbolo. Não faz, e vamos ver porquê - sem argumentos, que os factos falam por si mesmos.

Quando dois círculos se intersetam, forma-se uma figura nessa zona de interseção. Caso os círculos sejam diferentes, a figura resultante é assimétrica; caso sejam idênticos, é simétrica:

Nem sempre que dois círculos idênticos se intersetam se forma a mesma figura; esta depende do afastamento entre os centros dos círculos:

À esquerda, a distância entre os centros dos círculos é menor do que o seu raio. No centro, é igual ao raio. Á direita, é maior do que o raio. Quando a distância entre os centros é igual ao raio, cada circunferência passa pelo centro da outra. Isso só sucede na figura do centro, que traça aquilo a que se chama uma vesica piscis; as outras não têm esse nome.

Note-se esta curiosa propriedade da vesica piscis: cada um dos pontos de interseção das circunferências forma, com os dois centros das mesmas, um triângulo equilátero. Uma vez que o triângulo equilátero é um dos símbolos usados para designar o Divino, não é senão normal que em volta da vesica piscis se tenha urdido uma densa teia simbólica, tanto mais quanto os triângulos nem sequer estão nela representados, mas meramente implícitos:

Agora que já sabemos o que é uma vesica piscis, vamos tentar encontrá-la no símbolo da Loja Mestre Affonso Domingues. Para facilitar essa procura, tratei de dar destaque aos círculos que constituem o referido símbolo. Descubra agora quem puder se há alguma vesica piscis na figura da direita:

Temos 2 grupos de círculos iguais: os 6 círculos "de fora" e o do centro por um lado, e os 3 círculos "de dentro" por outro, sendo os primeiros de maior raio do que os segundos. Os do primeiro grupo não se intersetam, apenas se tocando (são tangentes). Os 3 círculos de dentro intersetam-se uns aos outros, mas estão, claramente, mais afastados uns dos outros do que a distância de um raio. A interseção entre qualquer círculo do primeiro grupo e qualquer do segundo também não é uma vesica piscis, uma vez que esta apenas resulta da interseção de dois círculos iguais.

Daqui se conclui que, desde que devidamente definido aquilo de que se fala, muitas vezes os factos falam por si mesmos; não é sequer preciso argumentar.

Paulo M.

P.S.: Corrigi o penúltimo parágrafo, pois o círculo do centro é igual aos de fora.

Referências:
http://ucjcuriosidadesmatematicas.blogspot.com/2010/05/circunferencia-circulo-circunferencia-e.html
http://mathworld.wolfram.com/Lens.html
http://mathworld.wolfram.com/Circle-CircleIntersection.html
http://mathworld.wolfram.com/VesicaPiscis.html

14 julho 2011

Vem aí o 22º Veneravel

À semelhança de anos anteriores na primeira sessão do mês de Julho a Loja Mestre Affonso Domingues elege os seus Veneravel Mestre e Tesoureiro.

Para os cargos de Veneravel e Tesoureiro foram eleitos respectivamente Nuno L. e Vitor M. ambos mestres.

Vitor é uma das apostas da Loja. Não tendo sido iniciado na Mestre Affonso Domingues, nela ingressou vindo de outra Loja quando ainda era Companheiro, concluindo o seu tempo e passando a Mestre. A sua forma de estar não passou despercebida e a sua integração decorreu sem sobressaltos, tanto que hoje foi eleito tesoureiro.

Nuno pelo seu lado é já membro da Loja ha uns anos e progrediu paulatinamente passando por quase todos os oficios de Loja. Nuno apesar da sua antiguidade ainda está na "casa dos trintas" sendo por isso um jovem.

Porque esperamos trabalho de qualidade fomos absolutamente unanimes na escolha.

A instalação decorrerá, previsivelmente, na primeira sessão de Setembro.


José Ruah

13 julho 2011

O símbolo da Loja Mestre Affonso Domingues


Em comentário ao texto, Maçonaria e Filosofia Pitagórica - o QUATRO, Jocelino Neto perguntou:

Perdoe-me pela análise superficial, mas a vesica piscis faz parte do partido construtivo da imagem que identifica visualmente a R.´.L.´. (Respeitável Loja) Mestre Affonso Domingues? O significado deste símbolo é desvelado apenas aos seus O.`. (Obreiros)?

Quanto à primeira questão, a resposta é negativa. Repare-se que, enquanto a vesica piscis é o espaço comum resultante da interseção de dois círculos iguais com centros na mesma linha horizontal, a uma distância entre si inferior ao diâmetro de cada círculo (cfr. figura abaixo), a estrutura do símbolo da Loja Mestre Affonso Domingues é constituída por três círculos interligados, para além dos outros elementos.

Também a resposta á segunda pergunta é igualmente negativa. Parece haver tendência para envolver tudo o que respeita à maçonaria num véu de mistério, de segredo... Como o propósito deste blogue é precisamente mostrar que essa tendência não é consistente, aproveito o pretexto para explicar as circunstâncias da criação do símbolo da Loja Mestre Affonso Domingues e indicar o que pretende representar cada um dos seus elementos constitutivos. Quer as circunstâncias, quer os significados são o mais prosaicos possível, adianto já...!

Nos primórdios da Loja Mestre Affonso Domingues e da então denominada Grande Loja Regular de Portugal, hoje Grande Loja Legal de Portugal/GLRP, a preocupação era a de aprender, criar e consolidar estruturas, enfim, trilhar o caminho da Regularidade Maçónica e da obtenção do Reconhecimento internacional. Os contactos que havia era com maçons da Grande Loge Nationale Française, que, por vezes, se apresentavam em sessão com a medalha da respetiva Loja. Também maçons portugueses iniciados no estrangeiro em Obediências Regulares podiam finalmente aceder a sessões maçónicas regulares no seu país e, comparecendo em sessões de Loja da novel Obediência Regular, frequentemente usavam as medalhas das suas Lojas de origem. Eu próprio, que tinha sido iniciado na Loja Miguel Cervantes y Saavedra, ao Oriente de Bona, no período em que frequentei a Loja Mestre Affonso Domingues com o estatuto de visitante (até ser admitido como obreiro do seu quadro), usava a medalha da minha Loja-mãe.

A Loja Mestre Affonso Domingues, sendo então a mais apurada na prática ritual, era a Loja mais visitada por obreiros estrangeiros e cedo verificou o costume de cada Loja ter uma medalha que era usada pelos seus obreiros. Foi assim simplesmente natural que a Loja, a certa altura, decidisse criar e mandar fabricar a sua medalha distintiva.

Um obreiro da Loja, artista plástico, elaborou o projeto que, com algumas modificações, sobretudo ao nível das cores (modificações essas que, assinale-se, por ser justo fazê-lo, o autor do projeto nunca viu com bons olhos), veio a servir de modelo para a confecção da medalha.

A imagem dessa medalha veio a ser utilizada como logotipo da Loja nos seus documentos e, a breve prazo, transformou-se no símbolo identificativo da Loja Mestre Affonso Domingues.

O significado dos seus elementos é simples e intuitivo e tem, naturalmente, muito a ver com o nome adotado pela Loja, Mestre Affonso Domingues, o arquiteto do Mosteiro da Batalha, imortalizado num belo texto das Lendas e Narrativas de Alexandre Herculano.

As porções visíveis dos três círculos entrelaçados cruzados por seis semicírculos virados para o exterior, evocam a principal característica da arquitetura gótica, a que pertence o Mosteiro de Santa Maria da Vitória, mais conhecido por Mosteiro da Batalha, a abóbada em cruzaria. Na figura abaixo, pode-se ver a representação esquemática de uma abóbada de cruzaria sexpartida.
Repare-se: seis arcos quebrados ou ogivais góticos (a que correspondem as seis "pontas" da medalha) unidos e sustentados por três nervuras diagonais estruturais, que suportam e distribuem o peso, a abóbada de nervuras (a que correspondem os três círculos entrecruzados, só parcialmente visíveis)

Cada uma das pontas da medalha termina em forma de flor-de-lis, tal como as existentes no brasão de armas do Mestre de Avis, depois rei D. João I, que ordenou a construção do Mosteiro da Batalha (ver figura abaixo).

Justaposto a este conjunto, estão dois círculos concêntricos, formando uma faixa de fundo branco onde está inscrito o nome da Loja, Mestre Affonso Domingues, e o local da sua fundação e o seu número de ordem na Grande Loja, Cascais - n.º 5, inscrições separadas por duas folhas de acácia, símbolo maçónico conhecido. Inscrito no círculo interior está um triângulo (símbolo maçónico comum), em fundo vermelho (cor do Rito Escocês Antigo e Aceite, rito praticado pela Loja Mestre Affonso Domingues), que contám no seu interior o também comum e conhecido símbolo maçónico do compasso e esquadro, este sobre aquele.

Como se vê, é prosaicamente simples a explicação do símbolo da Loja Mestre Affonso Domingues!

Rui Bandeira

12 julho 2011

O Tempo, a Idade e a Maçonaria - I




São condições mais ou menos universais (mas cada Obediência segue regras ligeiramente distintas) de admissão na maçonaria a maioridade e a independência económica; um menor não pode ser maçon, bem como o não pode ser alguém que não tenha meios de sustento. Na GLLP a idade mínima de admissão é de 21 anos, podendo admitir-se candidatos mais novos desde que maiores de 18 anos e apenas em casos excecionais que carecem sempre de autorização especial. Não há, todavia, uma idade superior limite; basta que, como se disse, se seja economicamente independente - pois pertencer à maçonaria acarreta alguns custos fixos - e que se esteja em posse das faculdades mentais.

O limite inferior de idade é compreensível. Mesmo os 21 anos são uma idade muito tenra para se ingressar... Mais do que a idade, é imprescindível a capacidade de ouvir (pois só ouvindo se aprende), a abertura para se admitir estar errado (pois só se aprende se se admitir ou o erro ou a ignorância...) e a capacidade de aceitar que o outro possa ter ideias contrárias às nossas (pois a maçonaria cultiva a tolerância face à diversidade). Quando se é muito novo é difícil ouvir-se os outros, pois um jovem sabe sempre tudo. Admitir-se o erro, então, é coisa ainda mais difícil. Já a infinita curiosidade dos mais novos torna mais fácil o diálogo entre fações opostas, ideias contraditórias, crenças antagónicas.

É à medida que se amadurece que vai surgindo a capacidade de se ver o silêncio não como um açaimo doloroso que se removeria se se pudesse, mas antes como um refúgio, um reduto, um pequeno Éden dentro de nós que podemos defender com um simples sorriso. As amarguras da vida vão-nos mostrando que somos, afinal, pequenos, imperfeitos e efémeros; o ímpeto da invencibilidade da juventude dá lugar a um estado de espírito mais sereno e de maior aceitação das próprias limitações. Todavia, a experiência acumulada acaba por estabelecer o preconceito, dificultando o diálogo.

Como em tantas outras coisas, in medio virtus. Se se for muito novo quando se ingresse a maçonaria, corre-se o risco de não ter ainda atingido a maturidade necessária a que esta possa ser proveitosa e, quando esse momento acabe por chegar, perdeu-se já a novidade, e a oportunidade de fazer a diferença. Sem por outro lado, se pretender ingressar a maçonaria já numa idade avançada, há que acautelar se, de facto, há ainda capacidade - e, acima de tudo, vontade - de aprender coisas novas, de mudar comportamentos, de apurar ideias. É que, quando se entra na maçonaria, entra-se para aprender, e não para ensinar.

A este respeito aprendi na Loja Mestre Affonso Domingues três lições complementares. A primeira passou-se comigo mesmo. Quando entrei, notei uma certa frieza - a roçar a hostilidade - da parte de alguns irmãos da loja. Eu queria aprender, avançar, saber mais, engolir inteiro - e obrigavam-me a estar quieto, a esperar, a mastigar aos bocadinhos e de novo o que já tinha comido antes. Explicaram-me depois que tinha havido algumas más experiências com algumas admissões - os chamados "erros de casting" - de que, mais tarde, a loja se veio a arrepender, e que eu fazia lembrar um ou dois desses. Daí o facto de alguns membros me estarem a dar um "tratamento de choque" para separar logo o trigo do joio desde o princípio. Se tivesse unhas, tocaria guitarra, mesmo com os dedos pisados; se não as tivesse, que seguisse o meu caminho, mas quanto mais cedo isso ficasse claro para todos, melhor.

A segunda deu-se quando assisti à leitura de pranchas de aprendiz. Apesar de ir avisado, foi confrangedor ouvir, dos mestres presentes, as críticas implacáveis, demolidoras e quase a roçar o cruel. É certo que as pranchas não estariam um primor - afinal de contas, eram o primeiro trabalho apresentado à Loja de cada um dos que as elaborara - mas tamanha crítica pareceu-me exagerada. Porém, como disse, tinham-me avisado de que "era da praxe", e assim o tomei. Quando vim a apresentar a minha primeira prancha estava já à espera do que sucederia, e não o estranhei. Não deixou, contudo, de ser algo doloroso ouvir as farpas certeiras que expunham perante todos os mais ínfimos erros do trabalho que tantas noites me levara a elaborar. Aprendi, nessa altura, a confiar; a confiar no juízo dos que me criticavam, pois que o faziam com seriedade e precisão; a confiar que não tomariam as minhas falhas por vulnerabilidades por onde me atacassem; mas, acima de tudo, a confiar na intenção puramente fraterna de quem aponta um erro a um irmão e fica com o coração a transbordar de alegria quando o vê corrigir-se. 

A terceira lição foi mais triste. Pouco tempo depois de iniciado, um aprendiz - por sinal, apadrinhado por um dos mais históricos membros da loja - viria a revelar-se de difícil integração. A sua idade - mais de sessenta anos - não o facilitou, como não o facilitou o facto de ter já bastante conhecimento prévio da maçonaria por via de familiares próximos. Talvez por ser um homem assertivo, de convicções fortes, ideias arrumadas e palavras duras e incisivas, a loja não conseguiu "abalar-lhe os alicerces" da forma pretendida: dando-lhe a oportunidade de se ver a si mesmo e ao mundo de outra forma, mas sem o fazer sentir-se ameaçado nem pessoalmente atacado. Fiquei triste por vê-lo deixar de aparecer, mas acima de tudo doeu-me vê-lo afastar-se magoado. E tudo porque haviam sido criadas expetativas de parte a parte que se viam, no fim, goradas.

De cada aprendiz espera-se que dê o máximo de si mesmo; a loja lá estará para lhe atravessar tantos obstáculos quantos os que ache que ele consegue - e quer - ultrapassar. Uns terão mais capacidade do que outros; uns poderão não ter ainda a pujança que lhes permita correr com os maiores, sem o desconto de serem um "junior"; outros poderão não ter já a força para correr o suficiente que lhes permita atingir os "mínimos olímpicos". A vida é cheia de surpresas, e as portas não se fecham por excesso de décadas de vida; há sempre quem ludibrie as estatísticas. No entanto, sabemos que há uma idade ideal para tudo. É que, como o atletismo, assim é a maçonaria; do mesmo modo que há corridas para seniores, também temos maçons com mais de 80 anos; contudo, esses raramente terão começado a correr tarde; são, antes, atletas que começaram a correr na idade certa, e que ainda não pararam...

Paulo M.

06 julho 2011

Oração de um Mestre a outros Mestres


Novos Mestres:

Foi longo o tempo que mediou entre a vossa iniciação e este dia. É assim que deve ser, porque o Tempo também é construtor e as mudanças perenes não se fazem de um dia para o outro. No dia da vossa Iniciação, simbolicamente terminaram a vossa vida profana e iniciaram a vossa vida maçónica. Hoje, renascem Mestres, em perpétua continuidade do trabalho dos que vos antecederam e em esperançosa construção do futuro que porão à disposição dos que vos sucederem.

Tiveram um longo tempo de aprendizagem, estudo e preparação. A partir de hoje, têm a vossa “carta de condução” de Mestres maçons, que vos possibilita ensinar os que trilham o caminho por vós já percorrido, mas sobretudo testemunha a vossa capacidade para estudar, meditar, trabalhar, melhorar, por vós próprios, segundo as vossas escolhas, os vossos critérios, os vossos métodos. A Sabedoria da Maçonaria, a sua Força, igualmente a sua Beleza, consistem também nesta absoluta, pujante e entusiasmante Igualdade: a todos os que se juntam nesta Instituição é-lhes mostrado um método, apontado um objetivo, proporcionado um meio; quando se dá por terminada a formação de cada um, é-lhe reconhecido, sem reservas, o direito de trilhar o seu caminho em busca do seu objetivo, pelos seus meios e com os métodos que entenda mais adequados. Porque não há respostas unívocas, caminhos certos, percursos exclusivos. Vós sois agora Mestres maçons, é-vos por todos nós reconhecida a vossa plena capacidade de prosseguirem a vossa via sem tutelas, sem reservas, sem limites. Apenas vos dizemos, nós, os Mestres mais antigos: estamos aqui para que, se assim o quiseres, continues a aprender connosco e também para aprendermos contigo, naquilo em que o teu contributo nos seja útil. Simples, afinal!

Mas, se um último conselho me admitis, Mestres, aqui deixo à vossa consideração o seguinte: o tempo decorrido até aqui é muito menor do que o tempo que decorrerá daqui até à vossa meia-noite. Em cada momento deveis fixar novos objetivos, escolher novas tarefas, fixar novas metas. Tendes à vossa frente umas dezenas de anos em que, pese embora percursos que porventura façam complementarmente, não obstante ofícios que vireis a desempenhar, serão fundamentalmente aquilo que hoje sois: Mestres maçons. Nem mais, nem menos, nem diferente.

Porventura dias vivereis em que vos interrogareis sobre a continuidade do vosso interesse na Arte Real. É normal, natural e talvez até inevitável. Todos temos momentos de dúvida, de fraqueza, de necessidade de nos repensarmos. É para esses momentos, para esses dias, que deveis estar prevenidos com esta essencial mensagem: o que importa acima de tudo é o que buscais. E o que buscais não está na Loja, está no local mais importante do Mundo: dentro de vós próprios. O que buscais é aquela inefável partícula do Arquétipo Primordial da Perfeição, cuja busca é quiçá o verdadeiro sentido da Vida. A Maçonaria, a Loja, a Mestria, tudo o que aqui fizerdes ou construirdes, são simples meios dessa vossa busca.

Lembrai-vos: por mais importante, indispensável, precioso, que seja o trabalho que desempenhardes em Loja, é sempre menos importante do que o trabalho que deveis desempenhar fora da Loja – e não estou, obviamente, a falar das vossas profissões. Falo-vos do trabalho de construção do Templo, do vosso Templo de que hoje fostes reconhecidos como Arquitetos. Sois vós que dirigis esses trabalhos. Sois vós que o executais. Todos os dias. Aqui e fora daqui. Sobretudo fora daqui. Especialmente dentro de vós.

E quando tiverem momentos de dúvida, de desalento, quando vos perguntardes porque vir à Loja, lembrai-vos: os espaços de tempo em que estamos em Loja não são os momentos em que trabalhamos. São os nossos momentos de lazer, o prémio que nos atribuímos pelo nosso esforço diário, o momento em que convivemos, em que mostramos aos demais o resultado, naquele preciso momento, do nosso trabalho, da nossa evolução, em que detetamos e apreciamos a evolução dos demais, em que, em conjunto, executamos sempre e sempre os mesmos gestos, dizemos as mesmas palavras, temos as mesmas posturas, no que é afinal uma pausa, um recarregar de baterias em união de espíritos e de vontades, para seguidamente voltarmos a executar o interminável e solitário trabalho da construção do nosso Templo.

Mestres, assumi com o orgulho que, na justa medida, também é qualidade: sois agora Mestres maçons, mas, mais do que aqui, sois Mestres maçons lá fora e, sobretudo, dentro de vós. Aqui sois apenas – e basta, e é muito! – reconhecidos como tal!

Rui Bandeira

04 julho 2011

Bem comum e liberdades individuais



Li hoje uma notícia sobre um "motoqueiro" de 55 anos que, de cima da sua Harley, protestava contra a lei que passava a obrigar ao uso do capacete. Enquanto o fazia teve que fazer uma travagem brusca, foi lançado sobre o guiador, caiu de cabeça e, como não usava capacete... morreu.

Uma vez mais se me colocou esta questão: até onde pode, ou deve, a sociedade regular as liberdades individuais? Dever-se-á deixar ao juízo (ou falta dele...) de cada um o uso de capacete? E se o motoqueiro for um pai de família, que depende dele para o seu sustento? E se for uma pessoa com um cancro em fase terminal? E se do acidente decorrerem custos de tratamento enormes, pagos por todos os contribuintes - muitos dos quais até teriam votado a obrigatoriedade do uso do capacete?

O consumo de drogas deve ser liberalizado? E a condução sob a influência de drogas? E conduzir zangado? Se uma Testemunha de Jeová (religião que proíbe as transfusões de sangue) se apresentar inconsciente num hospital em consequência de um acidente, deverá o médico de serviço deixá-la morrer por falta de uma transfusão, ou salvar-lhe a vida recorrendo a algo que a sua religião proíbe, quando não haja tratamento alternativo? E se a pessoa estiver consciente e recusar a transfusão? E se for o filho pequenino dessa pessoa que esteja doente, e ela peça aos médicos que antes deixem o filho morrer do que lhe dêem uma transfusão?

Até que ponto podemos ou devemos sacrificar o indivíduo ao bem comum? Ou o bem comum ao indivíduo? Há séculos que estas questões se discutem. E há séculos que ficam sem resposta - ou pelo menos sem uma resposta categórica, uma vez que recebem respostas diferentes, cada uma fundamentada sobre distintas premissas. Não é, porém, por se saber a priori que não há uma resposta universal que deve deixar de se discutir estas questões. É importante que cada um tenha as suas próprias respostas, mesmo que estas sejam diferentes das daqueles que o rodeiam. E se não é essencial que todos afinem pelo mesmo diapasão, é desejável que todos tenham consciência da diversidade de respostas, e de que há pelo menos alguma legitimidade nessa diversidade.

Assim sucede - ou deve suceder - numa loja maçónica. Não é importante que todos pensem igual; pelo contrário, é bom que pensem diferente, para que todos tenham a oportunidade de aprender, desde cedo, o  respeito pelas ideias com que não se identificam.

Paulo M.

29 junho 2011

Lição de um Mestre aos seus Companheiros - II


Nota - A primeira lição de um Mestre aos seus Companheiros foi publicada neste blogue por Jean-Pierre Grassi, em 13 de abril de 2009

Meus muito prezados Irmãos:

O vosso aumento de salário é, na realidade, um aumento de responsabilidades. Ao vos conferir o 2.º grau, vos declarar prontos a trabalhar sem a proteção da abeta do vosso avental, que passa, assim, a partir de agora, a repousar estendida sobre o corpo principal do vosso vestuário de trabalho, ao vos atribuir a designação de Companheiros, esta Oficina reconhece o vosso bom trabalho até aqui, as vossas qualidades intrínsecas, a mudança para melhor operada em vós, o vosso imenso potencial. Por tudo isso, cabe-me a mim – e com muito gosto e regozijo o faço! – dar-vos os parabéns.

Mas também me incumbe alertar-vos de que a vossa celebração, embora merecida, deve ser breve. Sois agora Companheiros, mas não deixastes de ser Aprendizes. Sois agora Aprendizes também já Companheiros, adicionalmente. Por isso comecei por vos dizer que o vosso aumento de salário é afinal um aumento de responsabilidades. Não deveis deixar de estudar e analisar e investigar os símbolos e utilizar esse estudo para vosso aperfeiçoamento moral e espiritual. Aliás, hoje mesmo vos apresentámos dois novos símbolos, para vosso estudo e meditação. Mas o sentido do que hoje vivestes é que, ao trabalho que até agora fizestes deveis acrescentar o estudo do Homem, das Ciências e das Artes. Na antiguidade, o estudo da do Homem, da Vida e da Natureza e suas regras chamava-se, simplesmente, Filosofia. Com a autonomização dos vários campos do Saber Humano, do sincretismo da Filosofia foram-se emancipando as várias Ciências e Artes. O que hoje vivestes procura alertar-vos para a necessidade e conveniência de, ao estudo dos símbolos e da espiritualidade, acrescentardes sempre o estudo e o progresso no conhecimento das coisas práticas do saber humano – afinal, as Ciências e Artes.

Inerente à conceção maçónica do que deve ser o Homem está a noção de equilíbrio. O que está em cima é como o que está em baixo. Tão importante é a Busca Espiritual como o Conhecimento e a Prática. Desenvolvimento Espiritual sem Conhecimento Científico é vão misticismo, estéril contemplação. Primazia absoluta do Conhecimento sem adequado Crescimento espiritual é perigoso Materialismo, vereda maldita para o abismo da Amoralidade.

A Maçonaria pretende estimular e propiciar a evolução dos seus membros para a plenitude do Homem Completo – e esse tem duas faces, tão inseparáveis como as de uma moeda: o Espírito e a Razão, a Espiritualidade e o Conhecimento Prático, o que é de Deus e o que a César pertence.

Trabalhai, pois, meus Irmãos, nestes dois indispensáveis e complementares campos. Só assim sereis verdadeiros Homens Completos e Equilibrados.

Rui Bandeira

27 junho 2011

Perceção, verdade e tolerância - V (conclusão)



A Maçonaria não pretende, ao contrário da Religião, tratar da relação entre o Homem e o seu Criador; apenas trata da relação entre o Homem e o Homem. Nascida em tempos conturbados de guerras fratricidas de origem  religiosa, a Maçonaria tinha - e tem ainda hoje - o propósito de estabelecer entre homens bons uma ligação mais forte do que as forças que os afastam em virtude das diferentes fações - religiosas, partidárias, ideológicas ou outras - a que os mesmos pertençam.

A Maçonaria procura, nesse sentido, estabelecer um meio-termo, um máximo denominador comum, um common ground com que todos se identifiquem, que a todos inclua e a ninguém deixe de fora. Quando James Anderson foi incumbido de compilar e redigir as regras e regulamentos da Maçonaria, escreveu:

"Um maçom é obrigado, pela sua condição, a obedecer à lei moral, e se compreender corretamente a Arte, nunca será um estúpido ateu, nem um libertino irreligioso. Mas, embora em tempos antigos os maçons devessem, em cada país, ser da religião desse país ou nação, qualquer que fosse, entende-se agora ser mais acertado somente obrigá-los à religião com a qual todos os homens concordam, deixando suas opiniões particulares para si mesmos; isto é, ser homens bons e verdadeiros, ou homens de honra e honestidade, quaisquer que sejam as denominações que os distingam."

Esta noção de que os maçons poderiam ser de qualquer fé ou religião, e apenas deveriam aderir à "religião com a qual todos os homens concordam", é uma ideia claramente oriunda do conceito de "Religião Natural", conceito muito em voga no Iluminismo, e a propósito do qual podemos ler na Wikipédia:

"As ideias, para serem válidas, devem ser baseadas na razão inata do Homem. No caso da religião, isto significa que deve haver uma religião natural, isto é, deve haver um conjunto de ideias religiosas que emanam da natureza humana - ideias que são inatas da mesma forma que as ideias lógicas, matemáticas e científicas. Eles teriam, portanto, validade geral no sentido de que todas as pessoas em todos os momentos, independentemente de sua situação cultural, as devessem possuir."

A ideia de uma "religião natural" não é, propriamente, uma ideia da Maçonaria, mas uma ideia sua contemporânea que a influenciou, no sentido de que especula ser possível encontrar-se, de entre todas as religiões, um certo conjunto de regras comuns; estas seriam aquelas que a Maçonaria tomaria para os seus seguidores, de modo a lograr o seu propósito: ser um elo de união entre os homens. E nesse sentido, em vez de se cingir aos caminhos da Moral, abraçou os da Razão, muito menos controversos e muito mais passíveis de estabelecer princípios incontroversos.

Contudo, ao procurar encontrar um conjunto de regras morais retiradas do seu contexto religioso, a Maçonaria foi tomada, pela maioria das religiões organizadas, por um concorrente, por um antagonista, e como tal condenada, e rotulada como relativista ou sincretista ou mero "travesti" religioso. O que parece escapar aos seus detratores é que a Maçonaria não procura de modo algum substituir ou minimizar a religião de cada um, antes incentivando cada um a que viva a sua fé da melhor forma possível.

Os fins últimos da Maçonaria são a harmonia, a fraternidade e a paz entre os Homens, pelo que dá preponderância a estes princípios, mesmo que sob pena de relegar as convicções religiosas de cada um à esfera privada. Na verdade, a Maçonaria não quer saber em que é que cada um acredita, desde que acredite em alguma coisa, e guarde essa convicção afastada de controvérsias, contendas e cizânias. E esta postura - condenada por muitos que pretendem propagar verdades absolutas mesmo que à espadeirada  - é uma das  que caraterizam, distinguem e orgulham os maçons.

Paulo M.

22 junho 2011

Lição de um Mestre ao seu Aprendiz - V



Meu Irmão, finalmente estás onde deves estar, estás entre nós! Sempre que um novo elemento se junta a nós, toda a Loja se alegra. Mais um homem bom quer tornar-se melhor e, fazendo-o, nos ajudará, a todos e cada um de nós, a sermos um pouco melhores também! Sê, pois, muito bem-vindo, Irmão. Todos esperamos que, sempre, gostes tantos de estar connosco como – não o duvides! – todos e cada um de nós gostaremos sempre de estar contigo.

Hoje, encerrou-se um ciclo na tua vida e iniciaste um novo ciclo. Hoje, deixaste para trás a tua vida profana e iniciaste o teu percurso como maçom. E não duvides também que, a partir de hoje, em todos os aspetos da tua vida, em todos os momentos dela, em todos os locais onde te encontrares, com quem estiveres, não mais estará apenas o homem que há algumas horas entrou neste edifício – a partir de agora, sempre, em todos os lugares, com todas as pessoas, estará o maçom! Porque passaste por uma Iniciação que, a ti, como a milhões de outros antes de ti, subtilmente já te começou a mudar e que, se é esse o teu sincero propósito – e todos nesta sala acreditámos e acreditamos que sim! – te ajudará a melhorar, um pouco cada dia, mas sempre e sempre e mais e mais.

A partir de agora, tens muitos símbolos para estudar, para sobre eles meditares, tirares tuas conclusões e aplicares essas conclusões em ti, na tua vida, no teu comportamento. É esse, em síntese, o nosso método, o método maçónico que desde tempos imemoriais os maçons de todo o mundo usam. Basta olhares em teu redor e verás objetos, representações, mas também gestos, palavras, atos, condutas, que, tudo isso, tem significado simbólico que a ti te cabe descobrir, para que uses essas tuas descobertas em benefício de ti próprio, não do que hoje és, mas do que vais ser, do que vais ser em cada dia sendo um pouco diferente e melhor do que no dia anterior.

Muitos símbolos te rodeiam, mas agora quero apenas chamar-te particularmente a atenção para dois, que não escolhi ao acaso. Dois que, sei-o porque mo disseste, especialmente te tocam: o maço e o cinzel.

O maço e o cinzel são as ferramentas básicas com que deves, de imediato, começar a trabalhar. Simboliza o maço a força, o poder, a energia que transmite ao cinzel, a ferramenta subtil que, aproveitando a Força que lhe é transmitida pela energia da mão que empunha o maço, utilizando-a, distribuindo-a harmoniosamente com a sua ponta, mediante o seu sábio manuseio, em variados ângulos de colocação sobre a pedra, desbasta esta, retira as suas asperezas, transforma a rudeza do informe bloco em trabalhada e lisa pedra que, com sua devida esquadria, está apta a ser colocada no espaço que lhe está destinado na construção.

Assim também deves recordar-te em todos os momentos que sempre, mas sempre mesmo, deves diligenciar para que o maço da tua Força de Vontade seja aplicado com o cinzel da Sabedoria na pedra bruta que é o teu caráter, desbastando-lhe as asperezas, as irregularidades, retirando-lhe e reparando-lhe as imperfeições, moldando-o com a devida esquadria para que se integre harmoniosamente na sociedade e constitua uma forte e bela pedra essencial ao todo em que se integra.

As asperezas, as irregularidades, as imperfeições que hás de, dia a dia, um pouco de cada vez, mas persistentemente, ir retirando de ti próprio, tu, melhor do que ninguém, saberás, descobrirás, quais são. E tu próprio alterarás o que tiveres a alterar. Ninguém o fará por ti!

Para isso, precisas de, permanentemente te conheceres, cada vez mais e melhor, a ti próprio. Só assim saberás – tu e mais ninguém – o que aperfeiçoar, onde e como trabalhar, para que amanhã estejas um pouco melhor do que hoje.

Portanto, meu muito prezado Irmão, pega no teu maço, manuseia o teu cinzel e desbasta tua pedra. O resultado do teu trabalho será, mais cedo ou mais tarde, verificado por todos, mesmo os mais distraídos. Mas, antes e acima de tudo e de todos, será apreciado por ti próprio, que, em resultado do teu trabalho, desde que sério, desde que persistente e incessante, te sentirás cada dia mais forte, mais apto, melhor. Sobretudo contigo mesmo!

Rui Bandeira

16 junho 2011

Maçonaria e Filosofia Pitagórica - Conclusão


Quando inicio uma série de textos, embora tenha uma ideia geral sobre a estrutura da mesma, não tenho fixado o sentido de cada texto. Elaboro cada texto separada e sucessivamente, alguns já depois de iniciada a publicação da série. Tenho um ponto de partida, uma direção projetada, espero um determinado ponto de chegada, mas só o evoluir dos textos e o estudo que faço na preparação de cada um acabam por determinar a evolução da série e só no final verifico se a conclusão que posso tirar é a que antecipava no momento em que decidi iniciar a série.

Quanto ao tema que hoje termino, a tese defendida foi expressa logo no início: a referência maçónica aos números, a numerologia maçónica, deriva da filosofia pitagórica. Percorrido o ciclo de textos, continuo a perfilhar a tese, mas reconheço que a mesma não passa disso mesmo, de uma tese, de uma hipótese, que necessitará de confirmação fáctica e, na medida do possível, documental.

Ao longo destes textos, foi possível verificar que a relação da Maçonaria com os números é bem mais restrita e simplificada do que a original filosofia pitagórica. Desde logo, aos números pares, à exceção do DOIS, não dedica a maçonaria particular atenção. E a atenção maçónica, em diferentes graus de desenvolvimento, concentra-se em especial nos primeiros números primos: UM, DOIS, TRÊS, CINCO e SETE. Quanto ao significado maçónico, entendo que é herdeiro do significado pitagórico, embora notoriamente simplificado, quando não mesmo apenas um resíduo do conceito pitagórico original.

Nesse sentido, a conclusão final, no meu entender, confirma a expetativa inicial, sem contudo lhe ter acrescentado prova concludente. Portanto, hipótese era, mais do que hipótese não é, por agora.

Um outro aspeto não logrei dilucidar, ao longo do estudo para este conjunto de textos: no pressuposto de que a numerologia maçónica deriva da filosofia pitagórica, por que forma ocorreu essa derivação?

Uma das possibilidades é que os conceitos filosóficos pitagóricos tivessem sido oralmente - e reservadamente - transmitidos em conjunto com os conhecimentos de geometria, no âmbito do ofício de construtor em pedra, seguindo um percurso já neste blogue referenciado na série de textos dedicada à Lenda do Ofício. Consistente com essa possibilidade é a enorme simplificação, quase corruptela, dos conceitos maçónicos em relação aos originais pitagóricos, denotando uma progressiva deterioração e simplificação dos significados originais através do percurso numa longa cadeia de transmissão oral. Não pude, porém, confirmar se existem indícios dessa transmissão nos documentos operativos medievais que foram encontrados, sobretudo no Reino Unido.

Outra possibilidade é a de a introdução desses conceitos na Maçonaria ter sido efetuada por via "erudita", aquando da evolução da maçonaria operativa para a maçonaria especulativa e redação dos modernos rituais.. Se a extrema simplificação dos conceitos conduz, numa primeira análise, ao ceticismo em relação a esta hipótese (o erudito introdutor dos conceitos deveria conhecer os termos da filosofia pitagórica e seria natural que a introdução dos conceitos nos rituais fosse efetuada em termos mais consistentes com a filosofia original), mais cuidada reflexão alerta-nos para o facto de que, não existindo registos escritos das teses pitagóricas, o simples passar do tempo levou a que, mesmo os estudiosos, acabassem apenas por ficar com umas leves luzes (e porventura algumas apagadas...) sobre os conceitos originais, efetivamente perdidos no tempo. Repare-se que, mesmo em meios académicos, existem referências - não particularmente desenvolvidas e nem sempre inteiramente coincidentes - ao UM, DOIS, TRÊS e QUATRO, mais breves ao CINCO e ao DEZ e verifica-se uma omissão, ou quase, em relação ao significado pitagórico do SEIS, SETE, OITO e NOVE. Logo, o "erudito" que porventura tivesse introduzido os conceitos pitagóricos nos rituais ter-se-ia sentido a pisar terreno mais seguro ao concentrar-se nos três primeiros números, onde a própria representação geométrica dos mesmos é mais claramente elucidativa. O CINCO já tem manifestas referências a outros entendimentos, até da Renascença, e o SETE herda, na Maçonaria, o que será apenas um possível significado pitagórico do número, à falta de mais completa confirmação.

Resumindo: a tese exposta ao longo desta série de textos é isso mesmo, uma tese, uma teoria, uma hipótese, que será, ou não, objeto de confirmação documental ou, pelo menos, confortada com indícios históricos bastantes. Se o for, haverá ainda que procurar determinar se a evolução dos pitagóricos para a moderna maçonaria especulativa se fez por via "popular", através do ofício da construção em pedra e da maçonaria operativa ou se decorreu de uma introdução "erudita", aquando da elaboração dos rituais pós-transição para a maçonaria especulativa.

Rui Bandeira

15 junho 2011

Perceção, verdade e tolerância - IV



"Tem coragem para fazer uso da tua própria razão! - esse é o lema do Iluminismo." disse Kant. Deste lema pode também apropriar-se a maçonaria. Esta esteve na linha avançada do Iluminismo, promovendo as ciências, as artes e a razão ao serviço do Homem. Esta tríade tem de facto vindo, paulatinamente, a dar-nos cada vez mais e melhores meios para entendermos o mundo de forma objetiva, permitindo confirmar - e refutar - muitas das convicções que antes tínhamos sem que as pudéssemos provar.

Se - como afirmam alguns - a ciência tem vindo a "tentar tirar o lugar a Deus", explicando e atribuindo a fenómenos naturais o que dantes era do foro do maravilhoso e do sagrado, não era senão de esperar que o entusiasmo de uns se tornasse no anátema de outros, tornando o choque inevitável. Esse choque foi interiorizado de formas diversas em diferentes culturas. Em França deu origem a um anticlericalismo feroz, cujos princípios estiveram na génese da Maçonaria Liberal. Na Alemanha e na Inglaterra, por seu lado, esse choque foi mais suave, até porque os seus maiores pensadores e filósofos da época procuravam a harmonia entre a razão e a espiritualidade, e cedo entenderam que há convicções que a ciência não pode provar ou refutar.

De facto, as verdades da fé não são, por definição, demonstráveis. As "provas da existência de Deus" passaram já de moda por isso mesmo. Se algo é demonstrável, então não é precisa a fé para que nos convençamos da sua veracidade: basta a constatação. Por outro lado, se a fé é necessária, então de nada serve tentar-se recorrer à razão, pois esta não está no seu meio. Ora, todas as religiões apresentam, em maior ou menor grau, em maior ou menor quantidade, postulados, axiomas ou dogmas que não podem ser demonstrados nem são passíveis de discussão; se não apresentassem dogmas e apenas se confinassem ao que a razão pode demonstrar não seriam religiões, mas meras disciplinas científicas.

Mais: a maioria das religiões reclama para si a verdade. Não uma verdade, mas a verdade. A maioria afirma mesmo, clara e inequivocamente, deter o "monopólio" da Verdade, da Salvação e do Bem. Não contentes com isso, muitas demonizam, excluem e proscrevem os seguidores de qualquer outra religião. Nos melhores dos casos, aceitam que uma pessoa boa possa, sem culpa própria, estar equivocada, não devendo por isso ser excluída da recompensa que essa religião anuncia estar reservada aos "eleitos", seja esta o Paraíso, o Nirvana, ou qualquer outra designação que se lhe dê.

Ora, se todas as religiões acreditassem nas mesmas coisas, ou se tudo aquilo que afirmassem fosse compatibilizável, poderíamos, no limite, tomar todas essas afirmações por verdadeiras. Contudo, não é o que se verifica. De facto, cada fé, cada religião, cada crença, se distingue das demais precisamente pela singularidade dos seus dogmas. Assim, como seria facilmente demonstrável, é racionalmente impossível que todas estejam certas.

Acolhendo no seu seio crentes de diversas facções e correntes, a maçonaria não poderia privilegiar uma religião em detrimento de outra, sob pena de alienar uns para agradar a outros. Assim, a fé de cada um é, dentro da maçonaria, um assunto pessoal que não se discute em loja. Cada um é livre de depositar a sua fé onde queira, sem que essa mesma fé seja questionada, escrutinada ou contrariada; todas são aceites.

Não quer dizer isto que um maçon, pelo facto de o ser, tenha que aceitar como verdadeiros todos os dogmas de todas as fés e religiões professadas por todos os maçons do mundo; pelo contrário, espera-se de cada maçon que acredite e preste culto de acordo com os preceitos da sua própria fé. Espera-se, por outro lado, que aceite que cada pessoa possa ter um sistema de crenças diferente, e que este possa ser tomado por verdadeiro por cada um que nele acredite, e como tal deva ser respeitado.

A posição da maçonaria é, assim, clara: promove e discute as verdades que a razão pode demonstrar, e respeita sem discutir aquelas que são do foro da fé. Contudo, por ser promotora de uma atitude tida, por um lado, por disruptiva e iconoclasta enquanto promotora da ciência e da razão, e por outro lado por relativista e sincrética em face da multiplicidade de verdades incompatíveis entre si que as diversas religiões professam, a maçonaria tem, desde a sua origem, sido afastada, repudiada e condenada pela maioria dessas mesmas religiões.

Paulo M.

08 junho 2011

Maçonaria e Filosofia Pitagórica - o DEZ



A imagem que encima este texto é a Década pitagórica, a representação gráfica e geométrica do número DEZ. Constitui o desenvolvimento das representações dos três primeiros números: a mónade (que define o ponto), a díade (definidora da linha) e da tríade (definidora da superfície), replicando o triângulo regular desenhado na tríade até ao máximo possível na superfície dos dois círculos gerados pela díade, através do movimento da mónade. Conseguem-se assim inscrever nessa superfície DEZ triângulos regulares.

A década, o último dos números que englobavam os princípios do cosmo, não simbolizava, porém, o fim, antes um ponto de reunião para um novo recomeço, numa viagem sem limites. Os pitagóricos entendiam o DEZ como o símbolo do mundo e dos céus, encerrando o ciclo básico da construção do universo, contido nos números do UM ao DEZ.

Para os pitagóricos, dado que DEZ é igual a UMA vez DUAS vezes CINCO, a década é o resultado da interação da mónade, da díade e da pêntade (ou seja, do Princípio Criador, da dinâmica, da ação, desse princípio e da Vida).

Tal como a mónade, qualquer número multiplicado por DEZ mantém o original, apenas o transportando para um nível mais alto, tornando-o uma versão aumentada de si próprio (UM vezes DEZ = UMA década; DOIS vezes DEZ igual a DUAS décadas; TRÊS vezes DEZ igual a TRÊS décadas, e assim sucessivamente)

Aécio (filósofo grego) escreveu:

DEZ é a verdadeira natureza do número. Todos os gregos e todos os bárbaros contam até DEZ e, chegando ao DEZ, voltam novamente para a unidade. Pitágoras afirma mais uma vez que o poder do número DEZ reside no número QUATRO, a tétrade. Esta é a razão: se começarmos na unidade e somarmos os números sucessivos até QUATRO, obteremos o número DEZ (UM + DOIS + TRÊS + QUATRO = DEZ). E, se ultrapassarmos a tétrade, ultrapassamos também DEZ... De forma que o número que está ao lado da unidade é inerente ao número DEZ, mas potencialmente ao número QUATRO. E, deste modo, os pitagóricos costumam invocar a tétrade no seu juramento de compromisso: "Por aquele que deu à nossa geração a Tetraktys, que contém a fonte e a raiz da natureza eterna..."

Este texto introduz-nos uma variante de representação gráfica da década também utilizada pelos pitagóricos, com um especial relevo na música (recorde-se que, para os pitagóricos, o Universo era constituído na sua essência por números, cujos valores essenciais se relacionavam em perfeita harmonia, como na música, expressão da perfeição da Criação). Essa variante é a tetraktys, abaixo representada.

A tetraktys foi o diagrama para as descobertas pitagóricas na música. Pitágoras fez experiências com fios de diferentes, mas proporcionais, comprimentos, colocados como unindo horizontalmente os pontos representados na figura, fios esses colocados sob a mesma tensão, vindo a descobrir a relação entre o comprimento de um fio a vibrar e a altura do som da nota. A tetraktys contém as razões sinfónicas da harmonia matemática na escala musical: 1:2, a oitava; 2:3, a quinta perfeita; e 3:4, a quarta perfeita.

Os pitagóricos também por esta forma encontraram harmonia nos números, uma harmonia que consideravam (e talvez não erradamente...) refletida na natureza, na arte, na ciência, no som, uma harmonia quiçá misteriosa, seguramente não totalmente compreendida, mas simbólica e indubitavelmente bela.

E quanto à Maçonaria?

Não conheço nenhuma especial relevância, em termos maçónicos, do número DEZ, a exemplo do que sucede com todos os números pares, exceto o primeiro, o DOIS.

Mas, olhando para a tetraktys, reparo que, não sendo ela utilizada pelos maçons, no entanto estes utilizam - e correntemente! - uma versão (muito) simplificada dessa representação gráfica. Usam-na correntemente sempre que utilizam abreviaturas. É uma representação muito simplificada, mas com justificação. Afinal de contas, os maçons, desde a sua iniciação que são confrontados com os significados simbólicos do UM, do DOIS e do TRÊS - e estes três valores podem (todos e cada um) ver-se representados, simplesmente, assim:

Fonte:

O Código Secreto, Priya Hemenway, ed. Evergreen, 2010.

Rui Bandeira

01 junho 2011

Maçonaria e Filosofia Pitagórica - o SEIS, o SETE, o OITO e o NOVE


Em relação aos números pitagóricos do SEIS ao NOVE, escasseiam elementos disponíveis nas consultas que fiz, pelo que agrupo os quatro num único texto, com breves referências a cada um deles.

A héxade, representação gráfica do número SEIS segundo os pitagóricos, está representada pela imagem acima. Era chamada pelos pitagóricos "A Perfeição das partes". O SEIS resulta da multiplicação do DOIS (atividade concretizadora do Princípio Criador) pelo TRÊS (a Criação).

Não conheço especial referência maçónica a este número.

A héptade (imagem abaixo) é a representação gráfica do SETE. A designação SETE, segundo os pitagóricos, derivava do verbo grego sebo, que significa "venerar". Septos, em grego, significa "santo, divino".
O SETE resulta da adição do TRÊS (a Criação) com o QUATRO (o Universo), representando assim o resultado do ato divino. O SETE é o número da religião - religar o mundo sensível ao divino.

Em Maçonaria, o SETE é referido em relação ao grau de Mestre. Sem grande desenvolvimento, direi que a simbologia maçónica inerente a este número é herdeira da simbologia pitagórica (não desenvolvo mais, porque a explicação obrigaria a referenciar passagens da Cerimónia de Elevação a Mestre e do catecismo de Mestre, que entendo não dever divulgar).

A representação gráfica do OITO é a ogdóade (nesta imagem, algo rebuscada, mas não encontrei mais simplificada representação de dois quadrados sobrepostos, formando oito "pontas", triângulos).
O OITO representa o primeiro cubo (DOIS elevado ao cubo, ou seja, 2 x 2 x 2). Consequentemente, o OITO divide-se em dois QUATROS , cada um destes em dois DOIS e cada um destes em dois UNS, refazendo-se a original mónade. Os pitagóricos consideravam o OITO a essência do amor, da prudência e da lei.

Nenhuma referência particular conheço na Maçonaria ao número OITO.

Finalmente, o NOVE era representado graficamente pela enéade. O NOVE é o primeiro quadrado de um número ímpar (3 x 3). Ou seja, a Criação ao quadrado. Ou, por outras palavras, o NOVE, para os pitagóricos, simbolizava a MATÉRIA.

Em Maçonaria, também este número tem um significado semelhante, mas adaptado à respetiva simbologia de base. O maçom é um construtor, mas essencialmente um construtor de si próprio, do seu caráter, do seu Templo. O resultado, sempre em evolução, da sua construção é o Homem em aperfeiçoamento, a "matéria" no seu estádio mais nobre. Associado ao grau de Mestre, o NOVE representa a construção do maçom e o júbilo que resulta do êxito dessa construção.

Fontes:

http://www.pucsp.br/pos/edmat/mp/dissertacao/marcos_munhoz_cano.pdf
http://designconsciousness.blogspot.com/2009/01/heptad.html
http://www.sacred-texts.com/eso/sta/sta16.htm

Rui Bandeira