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03 julho 2017

Mário Martin Guia - maçom bom


Mário Martin Guia passou ao Oriente Eterno na madrugada da passada sexta-feira, dia 30 de junho de 2017. Ao princípio da manhã, alguém colocou a informação numa rede social. Ao longo desse dia multiplicaram-se as mensagens de pêsames e de homenagem ao extinto. O que impressionou não foi a rapidez e a amplitude da reação. Foi a forma como quase todos reagiram. Claro que todos manifestaram o seu pesar pelo acontecimento. Mas, sobretudo, celebraram a  vida e o caráter e a postura de Mário Martin Guia.

Comecemos pelo menos importante. Mário Martin Guia foi Grão-Mestre da Grande Loja Legal de Portugal / Grande Loja Regular de Portugal entre 2007 e 2010. Passemos agora ao que mais interessa. Mário Martin Guia foi um homem bom. Muito bom. A sua simplicidade era tocante. O seu bom humor cativava. A sua disponibilidade para os demais exemplar. A sua bonomia aconchegante. O seu calmo sorriso a todos influenciava. Era simples e cordato sem deixar de ser firme, quando era necessário que o fosse. Foi tolerante com os outros e exigente consigo mesmo. 

Foi poeta. Publicou vários livros de poesia. Aqueles que os detêm guardam-nos ciosamente. Mais próximo de António Aleixo do que de Cesário Verde. Mais na linha do (justamente) bem mais conhecido José Fanha do que na de Antero de Quental. Dos clássicos, talvez tivesse alguma similitude com Guerra Junqueiro - exceto no anticlericalismo deste, que não compartilhava.

Mário Martin Guia, para muitos de nós era, simplesmente, o Tio Mário, alguém sempre disponível para uma opinião, um conselho, uma orientação - ou uma boa cavaqueira... Muitos de nós, volta e meia, passávamos pela Mexicana durante as manhãs, sabendo que o Mário normalmente ali estaria e sabendo também que estaria disponível para tertuliar connosco.

Enquanto Grão-Mestre da GLLP/GLRP, não me recordo de o ver ordenar fosse o que fosse. Mas lembro-me bem - como me lembro! - da forma como ele conseguia sempre aquilo que pretendia: limitava-se a pedir. às vezes, meramente a sugerir. Sempre sorridente. Mas, se necessário, mais tarde pedia de novo. E de novo. E ainda outra vez. Insistia até, se preciso fosse, vencer o visado pelo cansaço... Sei do que falo: este texto publicado aqui no blogue contém uma bem disposta referência a isso...

Enquanto Grão-Mestre da GLLP/GLRP, assegurou com aprumo e interesse a representação internacional da Obediência, tendo efetuado várias e cansativas viagens. Mesmo muitas vezes regressando derreado, nunca perdia o seu sorriso, justificado pela satisfação do dever (bem) cumprido. Nos seus contactos internacionais, nas suas presenças em cerimónias levadas a cabo por Obediências estrangeiras, ficou célebre a forma como se apresentava. Evidenciava-se do conjunto dos demais Grão-Mestres por usar, não um rico avental de Grão-Mestre, com seus dourados, mas um simples avental branco, apenas elegantemente bordado à mão nas suas extremidades, creio que por uma sua familiar. Com isso mostrava que, apesar de Grão-Mestre, se considerava sempre um eterno Aprendiz. Mas o certo era que - pela diferença da humildade - se evidenciava, se destacava entre os seus iguais. Se me for permitido aqui deixar um pedido à família do Mário, esse é que autorize que esse avental branco bordado nas orlas fique à guarda da GLLP/GLRP. Seria uma peça importante no seu museu. Dele deveria sair apenas em escolhidas ocasiões: para ser utilizado nas Cerimónias de Investidura dos futuros Grão-Mestres, assim lembrando ao investido que deve sempre manter o espírito de humildade do Aprendiz e que o seu ofício é um serviço, não uma honraria.

Celebremos, pois, a vida do Mário, um maçom - um homem - bom! Por mim, agradeço ter tido oportunidade de com ele privar e com ele aprender.. Repito aqui algo que várias vezes lhe disse de viva voz:

- Quando eu for grande, gostava de ser como o Tio Mário!

Rui Bandeira

23 janeiro 2017

Carlos Antero Ferreira (24/2/1932-14/1/2017), maçom simples


A imprensa divulgou a notícia do falecimento do professor Carlos Antero Ferreira, arquiteto, professor da Faculdade de Arquitetura de Lisboa, historiador, ensaísta, poeta, que foi Presidente do Centro Cultural de Belém, Presidente do Conselho de Administração e do Conselho Diretivo da Fundação das Descobertas, depois de ter sido Presidente do Instituto Português do Património Cultural, mais tarde Instituto Português do Património Arquitetónico e Arqueológico.

A imprensa informou também que Carlos Antero Ferreira foi responsável pela transformação do Departamento de Arquitetura da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa na Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa, hoje integrada na Universidade de Lisboa, e que recebeu vários galardões e distinções e escreveu mais de duzentos títulos, entre livros de divulgação, ensaios e poesia.

Carlos Antero Ferreira foi, reconhecidamente, um homem que fez coisas importantes e, a nível académico, da gestão do património e da cultura foi, indubitavelmente, importante.

Para nós, na Loja Mestre Affonso Domigues, porém, foi apenas o Carlos Antero, um homem afável, culto mas, sobretudo, com uma postura e um comportamento sempre  extremamente simples. Entre nós nunca tivemos o insigne professor. Tivemos um irmão que ouvia, sorria e calmamente também contribuia com a sua opinião e os seus conhecimentos. Nunca tivemos o responsável pelo CCB. Tivemos um irmão que semple elegeu a simplicidade como forma de relacionamento com os demais elementos da Loja. 

Para nós, o Carlos Antero foi um obreiro muito importante da Loja, precisamente porque, sendo importante na sua vida profissional, nunca quis tentar transferir essa importância para o interior da Loja ou para o seu relacionamento para os demais de nós. Para nós, o Carlos Antero foi sempre o irmão solidário, o amigo simples e sincero, com quem partilhávamos conversas e projetos e dúvidas e certezas. Estar numa roda a conversar com ele era como estar numa agradável tertúlia.

Claro que o Carlos Antero foi um profissional de mão-cheia. Claro que foi um homem extremamente culto e sabedor. Mas (talvez por isso mesmo) nunca alardeou a sua superioridade em vários campos do saber. Pelo contrário, sempre se integrou naturalmente no meio de nós e, com isso, provavelmente foi um muito mais eficaz transmissor de conhecimentos do que se arvorasse a postura do Professor que era.    

A sociedade portuguesa tomou conhecimento através da imprensa do falecimento do Professor Carlos Antero Ferreira. Nós soubemos que o Carlos Antero passou ao Oriente Eterno. E passamos nós a recordá-lo como um Irmão e amigo que fez da simplicidade a ferramenta para, trabalhando no seu próprio progresso, ajudar os demais da Loja a progredir ética e espiritualmente.

Carlos Antero: tivemos muita honrta em te ter como um de nós. Fica-nos a recordação da tua figura e da tua postura simples e serena. Afinal, nós recordamos sempre o que é mais importante...

Rui Bandeira 

28 março 2016

Luís Manuel Douwens Prats, maçom esotérico


Há dois sábados atrás, ao fim da tarde, recebi uma mensagem SMS do José Ruah: Fui informado do falecimento do Luís Prats. O laconismo da mensagem não me impressionou: o José e eu estamos habituados a comunicar da forma mais simples e com o mínimo de palavras. Conhecemo-nos há muito e muito bem, não é preciso muito para cada um de nós entender o que o outro lhe quer transmitir - se for preciso entendemo-nos até por sinais de fumo... 

Aquela curta mensagem, para além da informação objetiva e factual, indicava-me mais coisas: que o texto seguinte que eu escreveria para o blogue seria a evocação do Luís, que tinha partido um amigo e um Irmão que, presentemente, na Loja só nós dois e muito poucos mais recordávamos em pleno o Luís - e que não seria fácil escrever sobre ele!

A dificuldade em escrever sobre o Luís Prats resulta de uma ambivalência que nós (eu e, estou certo, também o José) temos em relação a ele: por um lado, recordamo-lo como um amigo, um amigo com quem tertuliámos agradavelmente durante alguns anos, um amigo que nos ajudou, ao José e a mim, a integrarmo-nos na Loja Mestre Affonso Domingues e a crescermos nela e com ela; por outro, o Luís foi certamente dos Irmãos com uma conceção da Maçonaria mais diferente e mais afastada da nossa. Assim, escrever sobre o Luís é recordar simultaneamente momentos de conversa e cumplicidade e ocasiões em que tivemos que saber gerir os desacordos.

Não é fácil escrever sobre o Luís Prats e a nossa relação com ele! Mas. pensando bem - e a ideia assola-me a mente deixando um rasto de um leve sorriso no meu rosto... -, acho que com o Luís Prats não houve nada de simples e fácil. Afinal, o homem foi psiquiatra!

O Luís foi um médico psiquiatra com uma longa e profícua carreira profissional. Reformou-se como Chefe do Serviço de Psiquiatria do Hospital de Júlio de Matos. Era um melómano conhecedor. Era um conversador cativante. Mais do que isso, era um conversador hipnotizante: sem nunca elevar a voz e sempre mantendo um laivo de sorriso na expressão, com um tom pausado expunha, argumentava, insistia, explicava, repetia, e não demorava muito para que o seu ouvinte se sentisse como uma serpente a ser embalada pela música do seu encantador, tentado a seguir a argumentação, o caminho, a tese que laboriosa, calma e pausadamente o Luís expunha.

Esta capacidade do Luís tornava difícil, mas desafiante, a expressão da discordância. Sempre que alguém o fazia, retorquia com argumentação que, mais do que afrontar ou discordar diretamente, rodeava a posição exposta, enredava-a numa complexa teia de argumentos. Quando isso sucedia comigo, eu divertia-me a responder aos seus argumentos um a um, para receber nova remessa e dar novas respostas, em tertuliano bate-papo que não raro se prolongava madrugada fora.

O Luís Prats foi o nono Venerável Mestre da Loja Mestre Affonso Domingues. No texto que dediquei ao seu veneralato, escrevi, a dado passo, que tinha uma conceção rigidamente esotérica, quase crística, senão mesmo crística da Maçonaria. Para ele, a Maçonaria é essencialmente um método de desencadeamento e evolução de um processo iniciático, tendente à aproximação do Homem ao Divino - um processo paralelo, por exemplo, ao misticismo monástico cristão. isto é, e se bem interpreto o seu pensamento, o método iniciático maçónico é um dos métodos de aproximação do Homem ao Divino, como o são o dito misticismo monástico ou o budismo. Luís P. privilegiava, assim, o estudo, a teoria, a análise simbólica, tendo porém o cuidado de alertar para os perigos do que costuma designar de "devaneios esotérico-birutas" muito presentes em muita "literatura", principalmente do século XIX.

 O Luís aplicou rígida e convictamente esta sua conceção no governo que fez da Loja, quando a tal tarefa foi chamado. Foi o último Venerável Mestre da Loja Mestre Affonso Domingues a quem a Loja permitiu que a gerisse de forma autocrática, Nesse sentido, pode-se dizer que foi o último de uma era, de uma dinastia, na história da Loja Mestre Affonso Domingues.

Em termos de conceção da Maçonaria, o José e eu dificilmente poderíamos estar mais longe das ideias do Luís. Em termos pessoais, de convívio, de amizade, de consideração, estivemos sempre muito próximos. Se discordámos da orientação do Luís quanto à gestão da Loja, não temos dúvida de que Como pessoa Luís estava sempre pronto a ajudar (assim, e bem, o definiu o José. num texto deste blogue).

Após o seu mandato, a Loja seguiu orientação diferente da preconizada pelo Luís e, discordante, ele veio a afastar-se. Isso não fez, porém, que diminuísse a nossa amizade e consideração por ele. A diferença de conceções existia. A generosidade e disponibilidade do homem sempre continuou a existir. A amizade e a consideração permaneceram.

Não me é fácil escrever sobre o Luís Prats, porque ele foi, indubitavelmente, um homem complexo: generoso e rígido, autoritário, mas paciente, No fundo, relacionarmo-nos com ele ensinou-nos que a amizade implica aceitar o amigo com tudo o que achamos que tem de bom e tudo o que nele encontramos de mau. Implica concordar e discordar. Implica, afinal o conceito que tão prezado é dos maçons: TOLERÂNCIA.

Recordo o Luís como um Mestre que me amparou, me guiou e ensinou - apesar de eu discordar de muito do que ele transmitiu...

A notícia da sua Passagem ao Oriente Eterno faz-me recordar o amigo e relembrar que, com concordâncias ou discordâncias, junto de nós ou afastado, o Luís Prats foi um dos nossos e como um dos nossos passou adiante.  

Até sempre, Luís! Se no Oriente Eterno existe um espaço para tertuliar, guarda-me lá um assento, que, quando a hora chegar, saberei onde te encontrar!

Rui Bandeira

09 novembro 2015

Jorge Manuel do Carmo Pereira de Almeida (1958-2015), maçom afável



Para alguns de nós era o Jorge Pereira de Almeida. Outros conheciam-no melhor por Manuel do Carmo, parte do seu nome que utilizava enquanto autor e artista plástico. Ele era ambos e ambos eram um só, ele, um maçom afável, que era estimado por todos os elementos da Loja que com ele privaram.

Foi advogado, autor de quinze livros publicados sobre relações internacionais, arte e filosofia (só para referir três: Um Café pelo Aqueduto (Dinalivro), O Método Alternativo (Guimarães Editores), Caixa para Pensar (Verbo), o seu último trabalho editado), empresário, artista plástico. Foi assessor da Presidência do Conselho de Ministros no VII Governo Constitucional, professor de Relações Internacionais no ISLA, assessor na Fundação Oliveira Martins, Presidente da ONG Latin American Studies Institute, e fundador e Presidente da Manuel do Carmo Foundation, organização sem fins lucrativos sedeada em New York com o objetivo de angariar fundos para promover o diálogo entre as culturas europeia e norte-americana.

Foi tudo isso, teve uma vida cheia e produtiva. Mas foi, para nós acima de tudo o mais, um dos nossos, da Loja Mestre Affonso Domingues. 

Infelizmente, os mais novos não tiveram oportunidade de contactar com ele. Há vários anos lidando com sérios problemas de saúde, não lhe era possível comparecer na Loja. Os contactos com ele eram sobretudo telefónicos, sobretudo para ir sabendo como ia ele lutando com as doenças que o afetavam. Apesar da gravidade das suas doenças, manteve sempre uma inesgotável força, força de viver, de lutar contra a doença, de superar e de se superar. E também um assinalável otimismo. Mesmo ao telefone, sentia-se o sorriso que embalava a sua conversa. Esse otimismo manteve-se até ao limite da impossibilidade, até ao momento em que ficou evidente que não venceria a sua luta. Quando isso sucedeu, a sua fibra continuou a revelar-se e sobreveio a apaziguadora resignação, sempre de mãos dadas com a sua proverbial boa disposição. A forma como lidou com as suas doenças, como encarou com naturalidade a perspetiva da sua mais próxima do que longínqua morte, a serenidade (é a palavra certa) com que encarou o fim, estando já muito próximo dele, foi um exemplo para todos nós.

Aliás, hesitei um pouco em o adjetivar como maçom afável ou como maçom sereno. Teve ambas as qualidades. Optei pela primeira qualificação, quer porque foi qualidade que manteve sempre, na saúde e na doença, nos tempos felizes e nas alturas agrestes, quer porque foi talvez a caraterística mais marcante para todos os que com ele privavam.

O Jorge estava bem em qualquer lado, com qualquer pessoa. E sobretudo foi um homem que lidou sempre com os outros com uma extrema amabilidade, sempre atencioso, sempre calmo e sorridente, sempre dando a sensação de que ouvia o que lhe diziam com a máxima atenção, sempre fazendo com que cada um se sentisse como o mais importante para ele, ali e naquele momento. O Jorge não se limitava a ser educado, a ser amável, a ser atencioso. O Jorge era tudo isso e transmitia ainda o gosto de estar a falar com o interlocutor. Mesmo quando porventura discordava dele, isso não impedia que o interlocutor sentisse que era um prazer debater com ele, que as concordâncias ou discordâncias eram menos detalhes, que o importante era estarem juntos e conversarem e trocarem pontos de vista.

À medida que a sua saúde se deteriorava, a nossa preocupação aumentava. O Irmão Hospitaleiro foi visitá-lo e encontrou-o já muito enfraquecido, muito frágil. Tinha a noção que o seu fim neste plano de existência estava próximo. Encarava o facto com serenidade, escudado na sua fé de que a morte não era o fim, mas apenas uma passagem. Mesmo frágil, mesmo fraco, mesmo vendo a morte já tendo virado a esquina e aproximando-se, interessou-se em saber dos demais irmãos da Loja. Ao saber que íamos homenagear o nosso decano (em idade), fez questão lhe oferecer um dos seus últimos trabalhos, e um outro à Loja, confiando-os ao Irmão Hospitaleiro para que os entregasse aos destinatários, e solicitou que o irmão decano que ia ser homenageado lhe autografasse um dos seus (dele, decano) livros. Infelizmente, não foi já possível devolver-lhe o livro autografado... 

O Jorge Pereira de Almeida, o Manuel do Carmo, teve uma vida cheia e bem sucedida. Nós recordá-lo-emos sobretudo pela caraterística que mais nos tocou: como um Irmão extremamente afável, com quem foi sempre um prazer privar e que nos deixa saudades. Voltaremos a encontrar-nos quando trilharmos o mesmo caminho em que ele nos precedeu. E de algo estou certo: o nosso reencontro será agradável, como agradável foi sempre o nosso convívio.

Até ao nosso reencontro, Jorge!

Rui Bandeira  

04 dezembro 2013

Salomão Sequerra Amram (1933-2013), maçom discreto


Diz o Povo que um mal nunca vem só. Os provérbios populares advêm de constatações empíricas, umas vezes justificadas, outras apenas decorrendo da maior ou particular atenção que, em certas circunstâncias, se dá a uma categoria de fenómenos. A extinção da vida é um desses fenómenos que, quando ocorre em relação a alguém perto de nós, estimula esse tipo de atenção. É, assim, comum que, quando alguém próximo de nós se extingue, haja a tendência de nos interrogarmos da proximidade de outro evento semelhante. E, às vezes, a álea da vida confirma a dúvida.

Ainda mal refeitos da notícia da Passagem ao Oriente Eterno de um Irmão que foi fundador da Loja Mestre Affonso Domingues, fomos surpreendidos por outra de natureza semelhante, a da Passagem ao Oriente Eterno de Salomão Sequerra Amram.
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O Salomão, insigne cardiologista, que nos deixou no dealbar da sua oitava década de vida, já se retirara da Loja há alguns anos. Dos atuais obreiros da Loja Mestre Affonso Domingues, poucos privaram com ele. Só os mais antigos dele se recordam, com apreço.

O Salomão esteve poucos anos junto de nós e primou sempre pela discrição. Apesar do seu enorme prestígio profissional, nunca puxou de galões de sabedoria médica. Ouvia mais do que falava. Sorria bastante, normalmente com aquele sorriso benévolo que os que bem viveram mostram com frequência, perante os entusiasmos, as perspetivas, as perplexidades dos mais novos, que ainda se surpreendem com aquilo que pelos mais velhos já há muito deixou de ser novidade.

Apesar da sua valia e reconhecimento profissionais, recordo-me da forma natural e interessada como o vi sentado nas filas traseiras das Colunas, como, com naturalidade, cumpriu o seu longo período de silêncio e como apesar dos seus afazeres, apresentou as suas pranchas de proficiência, professor regressado à posição de aluno que apresenta o resultado de seu estudo a um júri que, sendo de pares, não deixava de ser de julgadores.

Professando e praticando a religião judaica, sempre se integrou no grupo com todo o à-vontade.

A sua postura, se bem a consigo definir, foi sempre de uma discreta e solícita atenção e participação. Estava sempre disponível para ajudar ou para esclarecer, mormente no que à sua profissão dizia respeito.

Depois, o peso da idade e da saúde a fragilizar começou a cobrar o seu tributo e o Salomão teve de cessar a sua participação na Loja. Fê-lo com a elegância que sempre o caraterizou. Ao ver que não podia continuar a ser um obreiro assíduo, pediu e recebeu o seu atestado de quite e adormeceu. Assim fazem os homens de bem. Assim farei eu porventura um dia que verifique não poder continuar a assegurar a assiduidade na Loja.

Foi uma honra ter privado com o Salomão. Foi uma lição poder verificar como o valor e a competência não impedem a simpatia, a disponibilidade e a humildade. 

Salomão Sequerra Amram deu-nos a honra de ser um dos nossos. Orgulhosamente aqui o evocamos.

Rui Bandeira

27 novembro 2013

Rui Clemente Lelé (26/8/1958-18/11/2013), maçom organizado


Há pouco mais de uma semana, a notícia da passagem ao Oriente Eterno do Rui Clemente Lelé chegou, chocante e inesperada. Sabia que o Rui tinha sido, dias antes, submetido a uma delicada intervenção cirúrgica, mas também sabia que se tratara de uma intervenção programada e que havia notícia de que tinha corrido bem e o Rui passara sem problemas o período de recobro e de maior risco. Mas, embora gradualmente diminuindo, há sempre um risco numa intervenção cirúrgica - e, no caso do Rui, aconteceu o que já se pensava estar ultrapassado.

O Rui foi fundador da Loja Mestre Affonso Domingues, no ano de 1990. Quando, no ano seguinte, eu, oriundo de uma Loja germânica, ingressei na mesma Loja, integrámos juntos a Coluna dos Companheiros. Fomos Exaltados Mestres Maçons na mesma sessão. Vivemos e partilhámos juntos os tempos, para nós memoráveis, da implantação e consolidação da Loja. Ao longo de mais de duas décadas, partilhámos cumplicidades e distanciamentos, mas sempre uma sólida e pacata amizade e mútua consideração.

Homem de convicções firmes e espinha direita, o Rui não teve sempre uma vida fácil. Frontal e direto, não temia expressar as suas opiniões e defender as suas convicções fosse perante quem fosse. As suas capacidades rapidamente conduziram a que o Grão-Mestre Fundador lhe confiasse funções na Grande Loja. Mas a sua frontalidade e independência de espírito  não demoraram muito a levá-lo a entrar em rota de colisão com o carismático fundador. O embate foi de tal ordem que a situação tinha de quebrar pelo lado mais fraco e esse era, então, o do Rui. Teve de se afastar, de adormecer.

Aquando da cisão da Grande Loja, o Rui estava adormecido. Pôde regressar e foi um elemento precioso na reorganização que se tornou necessária. Mais tarde, veio a dar também um importante contributo na reunificação.

A sua saúde já o traíra, há alguns anos. A sua função renal deteriorou-se irreversivelmente e o Rui teve de se submeter a um transplante renal.  Infelizmente, mais uma vez a sorte não esteve com ele. O seu organismo rejeitou o rim transplantado e, desde então, o Rui passou a ter que organizar a sua vida em função da necessidade de efetuar, várias vezes por semana, sessões de diálise.

Nem o abalo de saúde nem o evidente incómodo que passou a marcar a sua vida abateram o Rui. Conciliou o trabalho com os tratamentos, a família, os seus interesses dos tempos livres e, de novo, a Maçonaria. Como todos os homens habituados a fazer as coisas acontecerem, organizou-se e arranjou tempo para tudo, fazendo até parecer que era fácil...

Quando regressou, fê-lo, naturalmente, à sua Loja, a Mestre Affonso Domingues. Rapidamente se reintegrou, assumindo as funções que lhe foram sendo sucessivamente confiadas. Veio a ser o vigésimo Venerável Mestre da Loja. Então mais uma vez os seus dotes de organizador se revelaram e dirigiu a Loja com eficiência, motivando os seus obreiros para bem realizarem todas as tarefas de que os incumbiu.

O atual Grão-Mestre confiou-lhe o exercício da importante função de Grande Secretário, sabendo que as suas capacidades de gestor e de organizador o levariam a ter êxito - como teve - nesta importante tarefa. Teve um importante papel  na preparação da reunificação da Grande Loja. Para isso, teve de tomar a sempre difícil decisão de sair da sua Loja Mestre Affonso Domingues, para alçar colunas e ser o primeiro Venerável de uma nova Loja, que teve como primeira missão acolher e integrar os vários elementos que, antes da reunificação formal, batiam à porta da Grande Loja e solicitavam a sua admissão ou readmissão nela. A essa Loja atribuiu o nome de Fernando Teixeira, o Grão-Mestre Fundador, que também propiciara, mais tarde, a cisão. Com isso demonstrou, mais uma vez, a sua largueza de espírito e ausência de rancor. O facto de ter tido importante confronto com o Grão-Mestre Fundador, grave ao ponto de ter tido então que suspender a sua atividade maçónica, não o impediu de homenagear, merecidamente, quem foi e é credor da admiração dos maçons regulares portugueses, pela sua visão estratégica, pelo importantíssimo papel que teve no regresso da maçonaria Regular a Portugal e no reconhecimento internacional da Grande Loja. Revelou também a sua inteligência, ciente que foi que, quinze anos passados e esbatidos e ultrapassados os fatores que determinaram a dolorosa cisão, era tempo de passar a trolha do apaziguamento sobre todos esses acontecimentos e homenagear quem era admirado por ambos os lados da cisão ocorrida.  

O Rui foi um entusiasta da prática do golfe. A deambulação pelos campos de golfe, atrás da bolinha que repetidamente se vai taqueando do ponto A ao ponto B, ultrapassando distâncias e obstáculos, contribuía para o seu equilíbrio físico e psicológico. Foi um entusiasta organizador de torneios de golfe, com as receitas destinadas a fins de beneficência.

Também foi um amante da fotografia. Não do mero registo de imagens que a facilidade dos modernos telemóveis com câmaras de milhões de pixels possibilita, mas da fotografia a sério, buscando imagens de qualidade e dignas de serem registadas em telas de grandes dimensões. Na última sessão de Grande Loja (não sabíamos então que seria mesmo a sua última sessão de Grande Loja!) efetuou uma exposição de várias de fotografias suas assim registadas em tela, todas de grande qualidade. Doou uma dessa fotografias em tela para ser sorteada. Tive a fortuna de ser o premiado com ela. Está exposta no corredor do meu escritório. Todos os dias de trabalho a vejo e admiro. É agora mais um fator de recordação do Rui!

Foi um católico praticante e consequente. 

O Rui, com o seu temperamento bem-disposto, atencioso e afável granjeou o apreço de todos os maçons que com ele lidaram. A sua passagem ao Oriente Eterno naturalmente que chocou todos. Mas todos também se congratulam por terem tido a oportunidade de privar com ele. Foi um bom exemplo para todos nós. Foi um confortável amigo para muitos de nós. É agora uma apaziguadora lembrança. Até um dia, Rui!

Rui Bandeira

21 setembro 2012

As ondas da fortuna



Um dia, passeando junto ao mar, aproximei-me de uma falésia com as minhas filhas, e mostrei-lhes as ondas revoltosas que fustigavam as rochas. Perguntou-me uma delas sobre aquelas enormes pedras: "Alguém as pôs ali? De onde vieram?". Expliquei-lhe que por debaixo do chão que pisávamos havia terra, areia, pedrinhas pequenas, argilas, e algumas pedras grandes. As ondas do mar e as marés iam corroendo a base da falésia, fazendo desabar partes desta, e dissolvendo depois as partículas menores em areia e em pó. Era daí que vinham as pedras.

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Um maçom tem como principal objetivo tornar-se numa pessoa melhor. É para isso que a maçonaria existe: para tornar homens bons ainda melhores. Melhores não em termos absolutos, mas cada um relativamente melhor do que era antes, aos seus próprios olhos, e em face da sua própria realidade. Os objetivos de cada um, as estratégias de progresso, os critérios de sucesso, a cada um pertencem. É inútil tentarmos quer traçar quer percorrer o caminho do outro; em maçonaria cada um faz o seu próprio caminho. E, quando há vontade e meios, que fantásticos caminhos podemos percorrer!

Que bem nos sentimos quando a vida nos sorri! Nesses momentos sentimo-nos capazes de tudo, sentimo-nos os melhores homens da Terra, e juramos para connosco que estaremos sempre acima das vilezas da vida. Como é bom subir - e estar em cima! Como é gratificante sentirmo-nos bem connosco mesmos! O esforço paga-se a si mesmo, a consciência do progresso redobra-nos as forças, e ganhamos ânimo para sermos ainda melhores, e capazes de tudo.

Porém, tal como nas marés, a cada subida se segue uma descida. Quando a vida se torna mais dura e o sorriso menos espontâneo é, de repente, muito mais difícil manter o rumo ascendente e tornarmo-nos melhores a cada dia que passa. Pelo contrário, tudo ao nosso redor nos puxa para baixo, como o mar nos arrasta para o largo quando a maré desce. E quantas vezes damos por nós a lutar desesperadamente não por nos tornarmos melhores, mas apenas por não nos tornarmos piores!... Os tempos duros não melhoram os indivíduos; no entanto, dão mais realce aos melhores - àqueles que não se deixam levar pelas ondas.

São homens firmes, voluntariosos, obstinados, fazendo finca-pé perante as adversidades, quem serve de facto de apoio aos mais vulneráveis, quem mantém as sociedades coesas, e quem mais contribui para suportar os grandes embates da História. Orgulha-me saber que muitos destes homens foram maçons, que trabalharam integrados nas suas lojas, que nelas cresceram apoiados nos que os precederam, e foram suporte dos que vieram depois. Ser assim mesmo, composta de uns maiores, outros mais argilosos, outros mais ásperos, mas acima de tudo de gente diferente, é o que dá solidez a uma loja.

E saber que seremos todos, no fim, (des)feitos em areia e pó na implacável voragem das ondas, não restando memória das pedras que outrora tenhamos sido, nada ficando a longo prazo de legado ao futuro, tranquiliza-me em certa medida: faz com que cada homem não valha senão por si mesmo, aos seus próprios olhos, e à luz da sua própria consciência.

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Na base da falésia restavam apenas as grandes pedras que o mar não conseguira ainda vencer. Onda após onda, maré após maré, mesmo estas viriam a soçobrar - mas não já. Pois enquanto estas se perfilassem no seu posto, a falésia estaria mais protegida da fúria inconstante do oceano. Sem elas a falésia não existiria. Mesmo quando fossem quebradas ou arrastadas, outras mas novas viriam tomar o seu lugar, vindas mais de cima, ou mais do interior. E quando, por fim, um dia a falésia deixar de existir, o mar, cansado de não ter mais onde bater, espalhará pelas praias do mundo tudo o que dela restou.


Paulo M.

19 setembro 2012

Jorge Silveira (1953-2012), maçom breve

Conheci o Jorge precisamente no dia 23 de novembro de 2011. Foi esse o dia em que o Jorge foi iniciado Aprendiz Maçom na Loja Mestre Affonso Domingues. Antes desse dia, Jorge Manuel Maciel da Silveira fora apenas um nome numa ficha de candidatura lida e aprovada em Loja para prosseguimento do normal processo de candidatura e, depois, o nome da pessoa retratada nos relatórios dos inquiridores que sobre ele se informaram e, tendo concluído tratar-se de um homem livre e de bons costumes, com sincero desejo de se aperfeiçoar, recomendaram a sua admissão às provas da Iniciação.

Nessa noite de inverno, conheci um homem alto e bem constituído, um pouco mais velho do que eu, que realizou as suas provas de Iniciação com naturalidade e que, no convívio que se seguiu no final da sessão (quando não há uma segunda oportunidade para uma boa primeira impressão...) se confirmou um homem calmo, ponderado, com muita vida já vivida, e se revelou, sobretudo, como um homem sorridente. 

É esta a primeira recordação que tenho do Jorge, o sorriso afável que, natural e frequentemente, surgia no seu rosto. Muito cinquentão, já não muito longe das seis décadas de vida, mantinha a capacidade de sorrir, o espírito de humor - descobri mais tarde que uma saudável ironia era frequente expressão dele -, a afabilidade que normalmente encontramos naqueles que estão de bem consigo próprios.

Se a primeira tarefa de um Aprendiz é a da sua integração no grupo, o Jorge efetuou-a com facilidade e distinção. Um par de sessões, um par de convívios, chegou e sobejou para que o Jorge fosse mais um dos nossos. Não havia dúvidas de que era um bom homem, com bom caráter, interessado e de fácil trato. Rapidamente entrou no ritmo: atento nas reuniões, nelas fazia o que se espera que um Aprendiz faça - ouvir, observar, aprender; fora delas, era também o que de melhor havia a esperar - afável, descontraído, participativo, perguntava quando devia perguntar, comentava a propósito, confraternizava com facilidade. Com muita facilidade e rapidez começaram a tecer-se laços de amizade, em especial - e como seria de esperar - com alguns dos Aprendizes com quem partilhava trabalhos, expetativas, esforços.

Na hora de trabalhar, disse-me o Segundo Vigilante, era sério e esforçado e evoluía com rapidez e segurança. Rapidamente atingiu o patamar em que se lhe começava a perguntar se já escolhera o tema da sua prancha de Aprendiz e se incentivava a que a elaborasse e apresentasse. Não haveria qualquer surpresa na sua Passagem a Companheiro, que certamente ocorreria neste ano maçónico de 2012/2013. Como se antevia que, também sem sobressaltos de maior, evoluiria até à sua Elevação a Mestre e se perspetivava que viria a ser um bom Mestre, que bem faria o seu papel na Loja.

Quis o Grande Arquiteto  que assim não viesse a acontecer. Já em setembro, mas ainda antes da primeira sessão do ano, surpreendeu-nos a todos a notícia da sua passagem para o Oriente Eterno. O Jorge já uns dias antes confidenciara a um de nós que algo não ia bem, que uma dor no peito intermitente, mas fugazmente, o incomodava. Infelizmente,o Jorge não deu a atenção que devia ao assunto, não tratou de pôr o seu médico a par da situação com a presteza que era aconselhável e não reconheceu a natureza do sinal que o seu corpo dava. E assim a sua hora de conhecer o Grande Mistério chegou. 

Foi, em menos de um ano, o terceiro obreiro que a Mestre Affonso Domingues viu partir! E, se todos cremos que essa partida é também a entrada numa nova etapa do caminho, isso não torna menos dolorosa a separação: todos os que acenaram a um familiar ou amigo da borda de um cais ou no átrio de um aeroporto o sabem. 

Tivemos a dita de poder conviver com o Jorge durante alguns meses. Ficámos com pena de só termos convivido com o Jorge durante alguns meses. O tempo em que o Jorge integrou a Loja Mestre Affonso Domingues foi breve, mas foi intenso e proveitoso e gratificante.  

O Jorge Silveira foi um maçom breve. Mas - que ninguém o duvide - quando partiu, partiu um dos nossos. 

Rui Bandeira 

 

02 agosto 2012

Alexis Botkine - O Maçom que veio de longe


Escrever um In Memoriam pela passagem ao Oriente Eterno do Alexis não é fácil. Alexis era o mais velho, o mais antigo, o mais conhecedor de todos nós, e era talvez o mais otimista e alegre de todos

Começou a sua vida maçónica já tarde na idade, mas ainda a tempo de ser maçon há mais de 40 anos! Foi por 1970  que na sua Suíça natal, mas ainda assim terra de acolhimento, porque Alexis era russo e descendente da família do médico do ultimo Tzar, foi iniciado.

O seu labor maçónico de grande importância e relevância para a regularidade portuguesa fica melhor contado, embora em francês, porque na primeira pessoa - aqui. Alexis foi um marco incontornável na obtenção da regularidade maçónica para Portugal.

Alexis tinha muitas facetas, era Engenheiro, Matemático e Músico. Foi Maestro compositor, e era intérprete de violino e balalaika. Teve o seu Grupo de Folclore Russo e poderão ser ouvidas algumas das suas interpretações aqui 

Alexis era membro da RL Mestre Affonso Domingues, n.º 5, desde 1991, e se nos primeiros anos apenas vinha esporadicamente porque ainda vivia na Suíça, mal se radicou em Lisboa passou a ser dos mais assíduos, assumindo durante tantos anos quantos na verdade quis e pôde o cargo de Mestre da Coluna da Harmonia. E durante esses anos todos, sempre com escolhas de qualidade e apropriadas, lançou os fundamentos daquilo que é hoje o modelo usado para musicar toda e qualquer sessão da Loja.

Há uns anos Alexis recebeu públicas homenagens, quer prestadas pelo Grão-Mestre da altura, ao conferir-lhe em plena sessão de Grande Loja e no dia do seu 83º aniversário, um diploma de mérito maçónico e de Persona Grata à GLLP/GLRP, quer na Loja, ao ser instalado Past Master Honorário, sendo o primeiro (e único até à data) a receber esta honra.

Nos últimos dois anos, incapacitado de conduzir, apareceu um pouco menos, mas nunca esteve ausente. No início de julho chega-nos informação que se encontra muito doente.

O Grande Arquiteto chamou-o no ultimo dia de julho. Alexis, Maçom diligente, ciente que o seu trabalho por aqui estava terminado, foi.

Aqui entre nós fica a saudade, do nosso Irmão Alexis que sempre nos falou em Francês, porque lhe era mais fácil a ele, que veio de longe, para nos ensinar o muito que nos ensinou. E por isso mesmo esta pequena homenagem não ficaria completa se não ficasse dela memória em francês.


Écrire un In Memoriam du au passage à L’Orient Eternel de Alexis n’est pas simple. Alexis était le plus vieux, le plus ancien, le plus savant de nous tous, et peut-être le plus optimiste et joyeux de tous

Sa vie maçonnique commence tard, mais suffisamment tôt pour qu’il puisse être Franc Maçon depuis plus de 40 ans ! Il a été initié en 1970, en Suisse pays de naissance, mais toutefois terre de d’accueil, car Alexis était russe et descendant du médecin du dernier Tzar.

Sa labeur maçonnique a eu grande importance pour la régularité maçonnique portugaise et on pourra mieux la comprendre ici .

Alexis était  Ingénieur, Mathématicien et Musicien. Chef d’orchestre, compositeur, il jouait le violon et la balalaika. Il dirigea un groupe de folklore russe et une partie de ses interprétations musicales peuvent être écoutées ici

Alexis est devenu membre en 1991  de la RL Mestre Affonso Domingues, n.º 5. Les premières années il venait rarement, car il habitait encore en Suisse, mais aussitôt qu’il vint habiter à Lisbonne il reprit les tenues avec assiduité. Il assuma la Colonne D’Harmonie pour autant d’années quil l’a voulu et put. Toutes ces années´, avec des choix de grande qualité et très adéquat, il lança les fondements du modèle actuellement utilisé pour la musique de Loge.

Il y a quelques années Alexis a reçu des hommages publics. En tenue de Grande Loge et le jour de son 83ème anniversaire, le Grand Maitre lui remet un diplôme de Mérite Maçonnique et de Persona Grata à la Grande Loge Legal du Portugal / GLRP.
En Loge il fut installé Passé Vénérable d’Honneur, étant le premier ( et le seul jusqu´`a ce jour) a recevoir la distinction.

Les derniers deux ans, incapable de conduire il apparait un peu moins en Loge, mais il n’est pas absent. Début juillet l’information qu’il est très malade nous arrive.

Le Grand Architecte l’appela le dernier jour de juillet. Alexis, Franc Maçon diligent, sachant que son travail ici était terminé, est parti.

Pour nous la “ saudade” de notre frère Alexis qui nous a toujours parlé en français car c’était plus facile pour lui, qui vint de loin, nous apprendre tout ce qu’il nous a enseigné.

José Ruah

11 abril 2012

João Damião Pinheiro, maçom estabilizador

João António Neto Guerreiro Damião Pinheiro entrou neste mundo em 3 de janeiro de 1959. Saiu deste mundo, em direção ao Oriente, no dia 6 de abril de 2012, a uma sexta-feira que a sua crença religiosa denominou de Sexta-Feira Santa. Entre uma e outra data decorreram pouco mais de 53 anos. O João terminou o seu tempo entre nós mais cedo do que todos esperávamos. Por isso, a notícia da sua passagem para o Além foi inesperada para todos os obreiros da sua Loja de sempre, a Loja Mestre Affonso Domingues. Os maçons acreditam que a morte é apenas uma passagem e portanto lidam relativamente bem com ela. Mas quando essa passagem ocorre inesperadamente e quando se augurava ainda muitos mais anos entre nós daquele que segue adiante, a incredulidade, o choque, o sentimento de perda, são inevitáveis.

O João Damião Pinheiro foi um elemento que marcou a Loja Mestre Affonso Domingues. Foi - é, sempre! - um amigo cujo afastamento prematuro não podemos deixar de lamentar.

Precisamente no dia em que a Loja Mestre Affonso Domingues se une em torno da memória do João Damião Pinheiro, fazemos questão de que também aqui no A Partir Pedra seja a sua memória evocada. E este texto in memoriam tem a especificidade de ter sido escrito a quatro mãos, por José Ruah e Rui Bandeira. Ambos desejaram fazê-lo, ambos entenderam fazê-lo da forma como o João, sem dúvida, gostaria: cooperando, colaborando, corta aqui, acrescenta ali, emenda acolá.

Neste blogue, a propósito da história dos Veneráveis Mestres, escreveu-se na crónica que se pode ver aqui, sobre aquele que agora podemos já identificar como o Irmão João Damião Pinheiro, que ele foi o obreiro da estabilidade de processos da Loja e que desde então tudo ficou mais firme e definido.

João foi mais que isso, muito mais. Soube interpretar fielmente o dever de um maçom para com a sua Loja, soube ser ele próprio sem ter que abdicar de nenhum principio.


Conhecemo-lo na sua iniciação, nos idos de 1993, no Estoril, e desde então sempre lhe conhecemos apenas uma postura, a da retidão, a de fazer o que era para ser feito.

Em 1995 foi chamado a desempenhar as funções de Tesoureiro da Loja e o resultado foi o primeiro modelo de organização da tesouraria de forma não amadora, e nessa qualidade foi a muleta do José Ruah numa reunião em julho de 1996, quando ele passou à condição de Venerável Mestre eleito.

Integrou a sua equipa como Mestre de Cerimónias, e como não podia deixar de ser com aprumo. Por essa altura, aconteceu a cisão de 1996 - recentemente superada - e, numa noite de dezembro, ele esteve, como muitos outros estiveram, sentado em conjunto à roda de uma mesa. Como memória dessa noite um desenho que ele fez de uma revolução qualquer e cujo escrito era " Carbonária - Pum Pum ( junto de cada uma das espingardas desenhadas) ", e claro, as suas intervenções.

Desempenhou praticamente todos os ofícios de Loja e sem problemas aceitou uma ultrapassagem, atrasando assim a sua eleição para Venerável Mestre um ano.

Durante o seu veneralato tocou-lhe uma situação delicada. Aberto o processo eleitoral para Grão Mestre, ele era um dos proponentes de um dos candidatos. Na loja, o seu padrinho era um dos proponentes do outro candidato. Pôs o tema em debate sem medo, recolheu o sentimento da Loja, que era diferente da sua opção pessoal, e como Homem e Maçom de honra e com a retidão que o norteava, votou na eleição de acordo com o desígnio da Loja a que presidia, não hesitando um minuto que fosse em cumprir a vontade democraticamente expressa pelos seus Irmãos.

Nós que nos achamos muito cibernéticos, devemos também ao João o primeiro sítio da Loja. Não que ele o fizesse mas porque ele achou que era o momento. Um dia chamou uns quantos a sua casa e pôs em marcha o projeto e, passado pouco tempo, o sítio via a luz do dia. Era rudimentar e com grafismo pobre, mas por sua ideia a Loja Mestre Affonso Domingues foi uma das primeiras, senão mesmo a primeira Loja da GLLP/ GLRP a ter um sitio na Internet.

Fez o seu caminho na Ordem, e nos Corpos Rituais onde desempenhou as mais prestigiosas funções, mas não foi nunca um homem de Grande Loja, não enquanto Grande Oficial, mas sim enquanto presença e conselho.


Granjeou muitas amizades, mas acima de tudo respeito. Respeito por ser um homem de ideias e de princípios. Era um enorme prazer poder ouvir o que dizia, falando sempre pouco mas assertivamente.

Era assíduo quanto baste nos últimos anos, também porque a sua vida profissional lhe exigia mais tempo fora de Lisboa. Mas quando entrava em sessão, não era apenas mais um, era sempre um de nós, na plenitude de ser Maçom e na estabilidade que o caraterizava.

A partida extemporânea para o Oriente Eterno deixa-nos um vazio. Nas colunas da sua, da nossa, Loja de sempre vai ser sempre possível rever o seu sorriso, pelo menos enquanto cá estiverem aqueles que com ele pessoalmente partilharam as agruras, mas essencialmente a felicidade, de ser Maçom.

João, um dia iremos ter contigo e sabemos já de antemão que terás já tratado de ter tudo estabilizado e pronto para nós. A memória que guardamos de ti será para nós a energia que nos permitirá continuar até chegar a nossa vez.

À Glória do Grande Arquiteto do Universo.

Escrito por José Ruah e Rui Bandeira mas, simbolicamente,

06 agosto 2011

Niny Sequeira - Maçon de corpo inteiro

Niny Sequeira – assim de repente o nome não diz nada a ninguém, ou a apenas poucas pessoas, a mim diz-me. Diz-me que já passaram muitos anos desde o dia em que o conheci, uns 20 talvez, ou quase.

Diz-me que nos idos tempos da “expansão pela província” da Maçonaria, privei muito de perto com ele.

Pela aurora se marcava a hora de encontro, ali para um posto de abastecimento de combustível na Encarnação.

Niny era inconfundível, magro, enérgico e sempre com um cigarro, mas não era por isso que era inconfundível, era pelo smoking. Homem prático não queria saber de levar muita coisa com ele e por isso o fatito de cerimónia ia logo vestido pela manhã, aliás de uma das vezes quis ser tão prático, e ao mesmo tempo tão irreal, que o smoking acabou por ser o seu pijama.
As idas eram para Bragança, e evidentemente não voltávamos no mesmo dia !!

Sim porque isto de ir realizar sessões maçónicas a sério, para ele só podia ser de smoking.

Foram algumas as viagens, foram muitas as peripécias.

Foram muitos os episódios que se passaram. O Maçon e o Amigo. De vez em quando telefonava-me e lá falávamos um pouco. Acompanhei por terceiros os seus últimos anos de combate a maleitas que o afligiram.

Ontem Niny Sequeira avançou passando ao Oriente Eterno, dele ficam muitas coisas nas nossas memórias.

Nós, que ainda estamos no nosso caminho de aperfeiçoamento, aqui ficamos no nosso percurso até o podermos encontrar novamente, daqui a muitos anos ( porque ele não se aborrece se nós o fizermos esperar um pouco!!!!)

Que o Grande Arquitecto do Universo o tenha  !

José Ruah

29 dezembro 2010

Paulo Guilherme D'Eça Leal, maçom irreverente


Passou ao Oriente Eterno em 9 de outubro deste ano, após uma profícua e criativa vida de setenta e oito anos. A notícia da sua saída deste mundo físico foi publicada em vários órgãos de comunicação social, seguida do habitual rol de realizações, breve historial de vida em meia dúzia de linhas. Sim, foi ilustrador - prolífico e genial. Sim, foi decorador de edifícios emblemáticos (a sede do Banco Pinto e Sotto Mayor, no Porto, por encomenda de António Champalimaud, o Aeroporto de Lisboa, o Museu do Centro Cultural de Macau em Lisboa). Sim, foi pintor e escultor de qualidade que permanecerá reconhecida. Sim, foi escritor, contista, investigador do esotérico. Sim, foi autor de diversos selos, moedas e medalhas. Sim, foi cenógrafo. Sim, foi, em resumo, um artista multifacetado, que espalhou a sua criatividade, qualidade e originalidade.

Mas, para mim, para nós, os mais antigos da Loja Mestre Affonso Domingues, foi simplesmente o Paulo Guilherme, um dos nossos, um pouco, um tudo nada, excêntrico, um espírito vivo e irreverente. E uma língua afiada também...

O Paulo Guilherme fez parte da Loja Mestre Affonso Domingues nos anos noventa. A sua permanência entre nós foi mais breve do que ele e nós gostaríamos. Nunca chegou a ser exaltado Mestre maçom. Foi iniciado Aprendiz e passado a Companheiro maçom.

Depois, a doença que, anos mais tarde, veio a vitimar o seu invólucro físico revelou-se. Fumador inveterado, o cancro da laringe apareceu. E foi o calvário dos tratamentos, a operação, a perda das cordas vocais, a incapacidade de falar, a aprendizagem da fala pelo esófago, com o auxílio do amplificador que gera aquela estranha voz metálica. Outras prioridades assolaram o Paulo Guilherme. A doença forçou-o a ficar mais caseiro. O trabalho em Loja não mais foi uma prioridade séria. E o Paulo Guilherme fez aquilo que um maçom que se preza deve fazer, quando as circunstâncias e a vontade própria a isso obrigam: pediu o seu quite e adormeceu.

Mas sempre permaneceu interessado na busca esotérica a que dedicou a parte final da sua vida. O seu estudo e tese sobre a Pirâmide de Quéops aí estão para o demonstrar.

À distância, foi mantendo contacto com alguns de nós. Em particular, com o Luís R. D., com quem, de longa data, manteve laços de amizade. Na parte final da sua vida, alguns contactos manteve comigo, também.

A idade, a doença e a debilidade foram-no tornando um pouco mais rezingão do que o habitual. Mas o génio, o vivo espírito crítico, a autoconfiança, esses, permaneceram sempre. O Paulo Guilherme foi, de facto, um artista com um génio admirável. A sua ironia enfeitiçava-me. A sua cultura maravilhava qualquer um.

Tenho pena que a doença e as circunstâncias tenham impedido que o Paulo Guilherme tivesse continuado mais tempo o seu percurso junto dos demais na Loja. Estou certo que, tivesse isso sido possível, ele deixaria uma intensa marca na Loja, quiçá inolvidável. Não posso deixar de tentar imaginar como seria se as coisas tivesse sido diferentes e o Paulo Guilherme tivesse permanecido até culminar o seu percurso com a sua Exaltação como Mestre Maçom, como seria se tivesse feito o normal percurso que todos na Loja fazemos até à Cadeira de Salomão, que surpreendente e inolvidável seria o seu tempo de Venerável Mestre da Loja. Não me atrevo a perspetivar se seria bom ou mau - sei, sem sombra de dúvida, que seria intensamente diferente!

Com o Paulo Guilherme, a Loja aprendeu a conviver com o génio algo excêntrico. Se ele a tivesse dirigido, teria sido, não duvido, algo de épico e inolvidável. Não sei se a Loja seria hoje melhor ou pior do que é. Mas de certeza, certezinha, que seria diferente!

A irreverência do Paulo Guilherme só não deixou marcas mais profundas na Loja porque a sua doença e as circunstâncias não deram tempo a que as sementes dela germinassem. Mas nós, os mais antigos, testemunhámos um pouco dessa irreverência. E eu tenho para mim que - é inevitável... - algum dia um outro artista de génio, também irreverente, deixará a sua marca na Loja. E então teremos um pouco da noção do que teria sido a marca do Paulo Guilherme na Mestre Affonso Domingues.

Paulo Guilherme, o artista nunca passa despercebido. E tu não o passaste na Mestre Affonso Domingues. Até um dia, em outra dimensão, que a todos nós espera! Suspeito que a esta hora, a marca da tua irreverência já se faz sentir e que, parafraseando o Poeta, o assento etéreo onde subiste já está, no mínimo, muito mais bem decorado! Olha, se puderes, faz um favor a este teu admirador: usa as tuas capacidades e faz lá uma ilustração de como agora o puseste. Sei que só em sonho a poderei ver - mas estou certo que vou gostar!

Rui Bandeira


06 outubro 2010

José Luís Ribeiro Moita de Macedo, maçom improvável


Ao longo dos quase vinte anos que tenho da Loja Mestre Affonso Domingues, conheci umas centenas de Irmãos. Com alguns forjei laços de amizade. Com outros, construí uma agradável relação de camaradagem. Com outros ainda, uma saudável relação fraterna de integração num mesmo grupo. Com poucos, muito poucos, as circunstâncias do nosso contacto não possibilitaram um conhecimento mútuo. José Luís Moita de Macedo foi um desses poucos casos, nem sei bem porquê. Quando preparava a edição do livro relativo aos Vinte Anos da Loja, o José Ruah enviou-me a lista, que trabalhosamente efetuou, dos obreiros que, ao longo deste tempo, passaram pela Loja. Um dos nomes incluídos nessa lista era o do José Luís Moita de Macedo - com a indicação de que já tinha falecido.

Uma vez que o projeto do livro previa a inclusão de textos evocativos dos Irmãos da Loja que, nos dois decénios de vida desta, tinham já passado ao Oriente Eterno, a minha falta de memória em relação ao José Luís tornava-me tarefa quase impossível elaborar o texto evocativo que era de toda a justiça dedicar-lhe. Pergunta daqui, inquire dacolá, cheguei à conclusão de que a pessoa indicada para escrever essa evocação era o Antigo Venerável da Loja, presentemente adormecido mas sempre fraterno e disponível para colaborar, Vítor E. C.. A ele solicitei o texto evocativo, que foi incluído no livro. O In memoriam do blogue não ficaria completo sem a evocação aqui deste Irmão.

Portanto, aqui transcrevo o texto de Vítor E.C., evocativo de

José Luís Moita de Macedo, maçom improvável

Jornalista Profissional

Nasceu a 16 de Julho de 1953

Faleceu a 5 de Fevereiro de 2000

O nosso querido Zé Luís, foi sempre, para muitos de nós, que o conhecíamos bem, um improvável maçon. Na forma, assumo e digo eu… Não era homem de espaços fechados, não era pessoa de rituais, detestava o fato escuro, a alva camisa, a gravata preta e as luvas brancas – assim não poderia praticar os seus próprios rituais de mordiscar, nervosamente, o dedo indicador! - nem, sequer, era sensível ao cadenciado mito drama dos nossos catecismos! Davam-lhe sono…

No conteúdo, contudo, o Zé Luís, foi sempre um Irmão! Um Irmão e… um Amigo! Quando nem sempre o Amigo é um Irmão e, muitas vezes, o Irmão não pode ser o Amigo! De facto, ele foi Irmão, por um sentimental, emotivo e singular laço de amizade que o unia a alguns de nós - ao Manuel A. G., ao José Manuel Severino, ao João M. V., ao H. S. e a mim – e a Todos foi fiel bem como a Todos os outros Irmãos que, pela sua simpatia e bonomia, o adoptaram, também, pela sua fidalga e discreta maneira de estar e de ser.

Aceitou o desafio, não fez muitas perguntas e como bom coração e alma solidária, embarcou, cúmplice e fraterno!

As lides em loja não eram, de todo, do seu agrado! Mas as nossas obras de solidariedade, os convívios, os passeios, o trabalho de sapa que sempre nos é pedido, como obra cívica e exemplo de ética social… sempre mereceram dele toda a atenção, disponibilidade e carinho. Era membro de uma outra fratria que nos unia, também em Loja e, espiritualmente ao Fernando Teixeira – era Epicurista, Monárquico e Aficionado Tauromáquico! Como Homem de Cultura, filho de um grande vulto das nossas letras e artes – o pintor e poeta Moita Macedo! - e, sobretudo, como Jornalista, ao serviço do “Correio da Manhã”, foi sempre incansável na divulgação, na promoção e no engrandecimento da nossa Loja e da Grande Loja.

Cruzou o Oriente Eterno, na força da vida, quando dele ainda muito se esperava e ele próprio tinha, ainda, muito para dar… deixou um peculiar vazio, uma Saudade e a Memória que aqui se evoca, com chorada Amizade!

Vítor E. C.


Aqui deixo esta evocação do José Luís. Não o conheci muito bem. Mas não o esqueci!

Rui Bandeira

29 setembro 2010

André Franco de Sousa, maçom nacionalista angolano

André Franco de Sousa passou ao Oriente Eterno em 17 de agosto de 2010.

Foi um dirigente nacionalista angolano, nos anos 50 do século passado, e um dos fundadores do MPLA.

Foi um dos envolvidos no "processo dos 50" e esteve preso no Tarrafal. Depois do 25 de Abril, com Aurora Verdades, fundou um partido político, que não vingou. Depois do Acordo do Alvor, assinado entre Portugal e os três movimentos de libertação reconhecidos, tomou posse o Governo de Transição e André Franco de Sousa partiu para Portugal.

Aqui escreveu e publicou, em 1998, o livro “Angola, o Apertado Caminho da Dignidade” onde explicou as razões pelas quais era um opositor ao partido que fundou, o MPLA.

Foi um dos fundadores da Mestre Affonso Domingues. Ainda me recordo de com ele ter estado em várias reuniões de Loja. Depois, fundou outra Loja, para onde se transferiu, e raramente o passei a ver, normalmente em assembleias de Grande Loja.

Conheci-o já idoso. Manteve sempre o seu apreço pela Democracia, que o levara a cortar com a organização que fundara. Dele guardo uma imagem de completa serenidade e enorme simpatia.

Contou-se, embora brevemente, entre os obreiros da Mestre Affonso Domingues. Foi um dos nossos e como um dos nossos é aqui recordado. Foi um dos veteranos que criaram as condições para a Loja ser o que ela é. Estamos-lhe gratos pelo seu contributo.

Há já alguns anos que a doença o afastara do nosso convívio e o André se encaminhava para o nicho das recordações. Das boas recordações. Agora ali encontrou, em definitivo, o seu lugar.

Rui Bandeira

16 junho 2010

Esclarecimento


Publicado o texto de homenagem e evocação António Cunha Coutinho, maçom absoluto, recebi um telefonema de um familiar, que me manifestou o seu apreço pelo mesmo. Posteriormente, recebi um segundo contacto, agora de uma familiar, se bem percebi a sua viúva, que me solicitou que retirasse o texto de publicação.

Meditei sobre o pedido e resolvi que não o faria, pelas razões que abaixo exponho. Mas o respeito pela memória do António Cunha Coutinho e pelos seus familiares determinam que acrescente e publique aqui algumas informações que a senhora entende relevantes. Tão relevantes que, no seu entender, justificariam a retirada do texto de homenagem.

Não retiro o texto, desde logo pela inutilidade do ato, para os objetivos pretendidos pela mencionada familiar. As pessoas poderão não ter a noção da mudança de paradigma, mas, uma vez publicado um texto na Internet, é impossível apagá-lo de todo. No mesmo dia em que o texto foi publicado, foi automaticamente enviado por e-mail para os atuais 238 subscritores desse serviço, foi disponibilizado via Blogger, para os atuais 130 seguidores desse serviço, foi enviado para os atuais 17 seguidores no Facebook. Só no próprio dia 9 de junho, o texto foi acedido por 250 outros leitores deste blogue. E, só nos três dias subsequentes, por mais 564. Algumas destas pessoas têm ligados programas que publicam automaticamente os textos deste blogue nas suas páginas de Facebook. Qualquer destas 1199 pessoas pode ter guardado o texto no seu computador. Seguramente, algumas fizeram-no. Qualquer das pessoas que guardaram o texto pode publicá-lo, difundi-lo. enviá-lo por correio eletrónico, hoje, amanhã, para a semana, daqui por um ou dez anos. Apagar um texto que se publicou na Internet é uma ilusão: o texto "apagado" está. automática ou manualmente guardado num desconhecido número de computadores e bases de dados, apto a ressurgir, ser publicado, disponibilizado, a qualquer momento - independentemente da vontade de quem originalmente o publicou e porventura posteriormente o tivesse "apagado".

Mas também não retiro o texto, porque entendo não ter o dever de o fazer e não ter a vontade de assim proceder. Reli-o cuidadosamente. Em nada afeta a honra e a memória do António Cunha Coutinho. Pelo contrário, é uma homenagem. Mais: uma homenagem feita por quem assumidamente em muito divergia do pensamento, das ideias, das opções do António. O que não impediu de o admirar e de manifestar essa admiração pelo seu caráter. Retirar o texto era retirar a homenagem, trair a admiração e a amizade.

A familiar, se bem percebi viúva, do António baseou o seu pedido em duas informações que me transmitiu: que o António Cunha Coutinho veio a retirar-se da Maçonaria e que, no final da sua vida, expressou claramente a sua profissão de fé católica, tendo-se confessado pouco tempos antes de morrer.

Aqui ficam as informações adicionais e o esclarecimento.

Mas isso não invalida o que publiquei. Todo o maçom pode afastar-se (nós chamamos a isso "adormecer") quando o entender, pelas razões que entender. No caso do António, e estando ciente das convulsões que, no final do século passado, assolaram a Maçonaria Regular, percebo perfeitamente essa sua decisão. Por vezes, o único compromisso possível entre a lealdade pessoal e a manutenção de uma coluna vertebral direita e digna - como sempre o António, concordasse-se ou discordasse-se dele, teve - é o afastamento. E a Maçonaria Regular não só não é incompatível com a fé religiosa, como incentiva os seus membros a praticarem e aprofundarem a sua crença religiosa.

Creio que no espírito da minha interlocutora estará, porventura, o entendimento diverso, isto é, que é incompatível para um católico a integração na Maçonaria. Que considerará tal integração, mesmo, desonrosa. Que revelá-la atenta contra a memória do António.

Obviamente que respeito - só posso respeitar! - o entendimento da senhora. Mas o mesmo respeito obriga-me a consignar que, se for esse o seu entendimento, dele discordo. Muito mais do que alguma vez discordei do António...

Ser maçom não só não é desonroso, como muitos dos maiores vultos da História Universal - e da nossa História - foram maçons. O António bastas vezes me enumerou alguns.

O António esteve na Maçonaria como homem digno e honrado que era. Com o propósito de se aperfeiçoar e de ajudar outros a serem também melhores. O António deixou de estar na Maçonaria quando o entendeu, pelas razões que entendeu, com a mesma dignidade e honradez que sempre o caraterizaram.

Esconder que o António foi maçom é que seria trair a sua memória. Honrá-la é recusar esconder essa sua opção. O António nunca o teria feito: tinha a coluna vertebral bem direita para alguma vez o fazer!

Para quem entender que integrar a Maçonaria é um pecado, fica esclarecido que, se o António pecou, abandonou o pecado! E ser justo não é não pecar, é não persistir no pecado.

Por mim, que persisto e insisto em afirmar a minha admiração pela firmeza de caráter do António, aqui fica então o esclarecimento: o António desvinculou-se da Maçonaria antes de morrer e morreu como, na minha opinião, sempre viveu: como um bom católico!

À senhora que me contactou, não dando cumprimento à sua solicitação, aqui fica a minha explicação e o esclarecimento que julgo devido. Em nome daquilo que, cada um a seu modo, ambos prezamos: a memória do homem bom que foi o António.

Rui Bandeira

09 junho 2010

António Cunha Coutinho, maçom absoluto

Há poucos dias, o José Ruah telefonou-me e perguntou de chofre: "Ouve lá.,ainda podes meter mais um texto no livro? É que acabei de saber que o António Cunha Coutinho já faleceu...".

Já não podia. Tinha acabado de rever as provas e de ter dado à gráfica a ordem de impressão. Para além de que as 152 páginas estão já bem preenchidas e com letra pequenina. Mas isso era o menos, retirava um qualquer texto meu e utilizava o espaço para um texto evocativo do António Cunha Coutinho. Mas o que tem de ser tem muita força. É premonitória a passagem da introdução aos textos "In memoriam" em que adverti que a evocação dos Irmãos que já partiram para o Oriente Eterno podia não estar completa, pois podíamos de algum não ter sabido do seu falecimento. Foi mais cedo que mais tarde que se comprovou isso... Pois bem, se não pode já entrar no livro,opta-se pela segunda melhor solução possível: aqui fica a evocação do António Cunha Coutinho.

Na época em que o conheci, andava eu por volta da idade de Cristo, foi talvez o maçom que mais me exasperou! Era um homem tronituantemente conservador, que não perdia uma ocasião, asada ou nem tanto, para alardear o seu conservadorismo. Conservadorismo é uma maneira de dizer... Na época, eu via o António Cunha Coutinho como um ultraconservador, ultramontano e tudo o mais que eu me pudesse lembrar com a palavra ultra...

Para mim, que atingira o que veio a ser a maioridade quando ocorrera a Revolução dos Cravos e vivera aqueles tempos de mudança e de esperança, as ideias do António Cunha Coutinho, em relação às questões políticas, sociais, de costumes, etc., não podiam ser mais contrárias às minhas. O que nunca impediu - acentue-se bem! - prolongadas, amenas e agradáveis cavaqueiras de Irmãos, que conviviam sem problema com as mútuas diferenças.

Certo dia, na sequência de uma das costumadas diatribes que o António se comprazia em debitar, atirei-lhe, provocador: "Ó António, estou a ver que para ti até o Salazar foi um perigoso esquerdista...". O António suspendeu o discurso, esboçou um sorriso malandro, piscou o olho e, baixando a voz, sussurrou-me, cúmplice: "Ora estás a ver como percebeste?". E eu fiquei desarmado!

Com o passar do tempo e a convivência, percebi mais e melhor. Classificar o António Cunha Coutinho de conservador, ultramontano, ou qualquer outro epíteto do género era incorreto e redutor. O António Cunha Coutinho era, tinha orgulho de ser, e mostrava-o a quem quisesse e soubesse ver, bem mais do que isso: era a representação do pensamento do português do antigamente, do Antigo Regime, da velha tradição lusitana! E, quando falo do Antigo Regime, não falo do tempo da Outra Senhora, nem da monarquia. O pensamento do António recuava bem mais atrás, ao tempo do senhor D. Miguel, rei absoluto de Portugal e dos Algarves, d'aquém e d'além mar em África e resto do Mundo! O António era conservador, mas não era só conservador. Era também monárquico, mas não era só monárquico. Era, com todas as letras, miguelista!

Esclareça-se: estamos a falar no plano dos arquétipos, que duvido bem que quem vivia no século XX ainda conseguisse ser um vero miguelista, absolutamente servidor de absoluto rei. Mas o António mostrava orgulhosamente a sua costela miguelista, obviamente monárquica, mas sobretudo tradicional, da tradição rural da linhagem portuguesa, do Portugal de antanho que, para o bem ou para o mal, faz parte das nossas raízes.

Com o tempo, aprendi que as diatribes políticas e sociais do António eram sobretudo um meio de provocar, de expressar de forma propositadamente chocante, que havia e há na nossa lusitana alma caraterísticas que podem não estar na moda, mas que bem andamos em não desprezar: a honra, a fidelidade à palavra dada, a tenacidade, a capacidade de lutar, contra tudo e contra todos, por aquilo em que se acredita, se necessário quebrando, mas nunca torcendo.

Este era o verdadeiro António Cunha Coutinho, o que se escondia por detrás das suas provocações e diatribes. O conservador e ultramontano era o personagem que ciosamente escondia os Valores que só aos mais atentos deixava entrever!

Longas horas de mútuas e bem-dispostas provocações com bonomia passámos e vivemos! E por entre as nossas discordâncias, mais tarde ou mais cedo, lá passava a mensagem do apreço à honra, da verticalidade, dos Valores que o homem que se quer de bem deve, sempre, incansavelmente, cultivar e proclamar - nem que seja de forma provocatória!

Do António Cunha Coutinho todos, os mais novos, nos exasperámos com o acessório e todos, dos mais novos aos mais velhos, nos ilustrámos com o essencial - os Valores que não são de direita, nem de esquerda, nem do passado, nem do futuro, que são de sempre e dos homens de bem.

Naquela época, há cerca de vinte anos, eu já via o António Cunha Coutinho como um velho rijo. Curiosamente, cerca de vinte anos passados, nunca me passou pela cabeça que já não estivesse entre nós. Talvez porque afinal os valores profundos que provocatoriamente transmitia são intemporais.

António Cunha Coutinho era absoluto em tudo: nas ideias políticas, nas diatribes, nos valores. Foi, em absoluto, um maçom digno e um homem de bem. Assim o declaro, proclamo e recordo. Absolutamente!

Rui Bandeira

25 setembro 2008

A ponte do Arco Iris

Que me desculpem os leitores mas este post é essencialmente pessoal. Não tem nada de maçonaria, mas " os maçons são como as pessoas" parafraseando um humorista que não me recordo, e por isso de vez em quando têm assomos de sentimento.

Aqui há uns meses largos e a propósito do post 500 deste blog, trouxe-vos os amuos do NICO. Os comentadores da altura entraram na brincadeira, e assim o NICO passou a fazer parte da história deste blog.


O NICO partiu hoje para a Ponte do Arco Iris.

Desde o inicio do mês que estava adoentado, uns dias melhor outros pior. Foi-lhe diagnosticado um tumor do baço, e depois de muitos exames e análises decidimos que seria melhor operá-lo.

Hoje 3 dias depois não resistiu a mais uma complicação.

Tivemos dias bons, muito bons e excelentes, hoje temos um dia mau, por isso só me resta agradecer ao NICO por estes anos todos.

José Ruah

12 março 2008

Enrique Fugasot, masón caballero


Enrique Mario Fugasot Corbi. Uruguaio. Diplomata. Esteve dois anos e tal servindo o seu País na sua Embaixada em Lisboa. Maçon de muitos anos. Um senhor!

O Enrique juntou-se à Loja Mestre Affonso Domingues na infância desta, na primeira metade da década de noventa do século passado. Todos éramos então muito inexperientes, quase todos maçons de safras recentes, tacteando o caminho, aprendendo a aprender. O Enrique tinha já muitos anos de Maçonaria. E tinha a experiência da vida e o treino de diplomata. Obviamente que se apercebeu da inexperiência de quase todos. Certamente que viu serem cometidos erros que já não cometia há dezenas de anos. Evidentemente que reconheceu as dúvidas e as dificuldades de quem começa e ainda não está seguro do que faz e do que deve fazer.

O Enrique, porém, nunca deixou escapar um qualquer assomo de superioridade, um sinal de enfado, um resquício de impaciência. Integrou-se no grupo e deu-lhe a sua experiência de Irmão mais velho, sem nunca se impor. Quando se cometia um erro, brandamente, na primeira oportunidade, conduzia a conversa de modo a vir a dizer que, lá no Uruguai, se fazia assim e não como aqui fora feito. E, obtida a atenção de todos, explicava, sempre com um sorriso, o porquê de qualquer coisa se fazer assim e não assado e motivava o grupo para fazer bem, sem nunca o ter criticado por ter feito mal. Quando o grupo hesitava sobre o caminho a seguir, o rumo a tomar, a decisão mais adequada, calmamente recordava uma qualquer situação similar que se lhe deparara anos atrás e aconselhava, sem nunca procurar impor, o que lhe parecia o melhor a fazer. Se o sangue fervente da juventude parecia impelir para algum conflito ou desacordo mais áspero, pacientemente recordava a ética que imperava entre nós e que sempre deveria ser respeitada, por muito quente que estivesse a cabeça - e instantaneamente arrefecia todas as cabeças quentes, mostrava o valor da concórdia, a riqueza das diversidades de opiniões, a mais-valia do encontro dos planos de entendimento e das soluções de compromisso.

O Enrique foi um maçon antigo e experiente que, na hora certa, esteve junto de nós para nos transmitir a sua sabedoria, a sua experiência, os seus conhecimentos rituais e filosóficos e os seus estritos princípios éticos. Foi o Enrique que ensinou à Loja o que era e como se exercia o ofício de Orador. Em que consistia ritualmente, mas também substancialmente. Hoje, a Loja tem vários elementos capazes de bem exercerem este ofício. Todos, directa ou indirectamente, aprenderam com o Enrique ou com quem com ele aprendeu. Ainda hoje - e temos presentemente um excepcional Orador! -, se me pedissem para definir o arquétipo de Orador de Loja, seria o Enrique Fugasot que surgiria no meu espírito! Sei do que falo! Fui Orador da Loja Mestre Affonso Domingues. Foi dos ofícios que mais gosto me deu assegurar. Em relação a este ofício, quase tudo aprendi com o Enrique!

Ser maçon é dar e receber do grupo, da Loja. O Enrique deu à Loja Mestre Affonso Domingues a sua grande experiência, a sua confortante simpatia, o seu inexcedível saber fazer. Da Loja Mestre Affonso Domingues recebeu o que necessitava: o apoio de um grupo de amigos, que o acompanhou a si e à sua família enquanto estiveram em Portugal, o calor humano que ajuda a superar a ausência do país natal, o auxílio nas pequenas coisas em que nós portugueses, somos às vezes tão denodadamente complicados e complicativos e que tanto desesperam os estrangeiros, até que se acostumem com essas nossas recorrentes manias da complicação e aprendam a desfrutar o muito de bom que, apesar disso, sabemos apreciar da vida...

O Enrique esteve connosco, fez parte do quadro de obreiros da Loja Mestre Affonso Domingues dois anos e tal, talvez um pouco mais. Depois, chegou a hora de ser recolocado - é a sina dos diplomatas, nunca podem fixar-se demasiado tempo num mesmo posto... - e foi para outro posto. Em 1998, era cônsul do Uruguai no Rio de Janeiro - a imagem que ilustra este texto é de uma carta que ele escreveu nessa qualidade em 16 de Novembro desse ano. Despedimo-nos dele e ele despediu-se de nós com o mútuo sentimento de um tempo bem passado, de uma amizade bem conseguida. Depois, como é comum nestas circunstâncias em que as distâncias e as vidas separam os amigos, primeiro houve contactos e notícias com alguma frequência, depois os contactos e as notícias foram rareando, ao fim de alguns anos, o Enrique era já apenas uma memória agradável para os mais antigos, um nome que os mais novos ouviam, de vez em quando, invocado por aqueles, enfim uma imagem que mansamente vai ganhando a cor sépia das fotografias antigas. Até que, há dois dias, o José Ruah - que está de pousio quanto à escrita aqui no blogue mas, como ele diz, não anda longe e anda sempre atento - me mandou uma mensagem de correio electrónico. Encontrara, nas suas navegações pela Internet, uma referência ao Enrique: a notícia da sua passagem ao Oriente Eterno, lá no seu Uruguai, em 22 de Setembro de 2005. A notícia que explica a ausência de notícias.

O Enrique Fugasot tinha já a sua idade. Nos tempos de hoje, em que a longevidade aumenta, não admiraria que nos acompanhasse mais alguns anos. Mas também não nos surpreende que a sua caminhada por aqui tenha chegado ao fim. É a lei da vida, a lei que a todos se impõe.

Tenho pena, claro, de não ter a possibilidade de voltar a encontrar-me com o Enrique, de conversarmos mansamente, de voltar a desfrutar da sua companhia. Mas sei que o Enrique teve uma vida cheia, produtiva e, sobretudo, vivida segundo os princípios éticos que sempre o nortearam e que a todos devem nortear. Foi uma vida que valeu a pena ser vivida. Foi um cavalheiro maçon que tive muita honra em conhecer, muito gosto em com ele privar e um enorme privilégio em com ele aprender. Foi mais um Irmão que deixou a sua marca na Loja Mestre Affonso Domingues, que contribuiu - e muito! - para ela ser o que hoje ela é. Foi um Mestre que a todos ensinou. Agora é uma recordação serena e agradável. Continuará a ser uma inspiração benfazeja!

ENRIQUE, MI HERMANO, HASTA SIEMPRE!

Rui Bandeira